Termo Ursal foi criado como brincadeira e agora alimenta teorias conspiratórias
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Termo Ursal foi criado como brincadeira e agora alimenta teorias conspiratórias

Há iniciativas de integração na América Latina, mas voltadas a parcerias sobretudo econômicas

Estadão Verifica

17 Agosto 2018 | 17h23

checagem abaixo foi publicada pelo Projeto Comprova. A verificação foi realizada por uma equipe de jornalistas do Gazeta Online, SBT, Gazeta do Povo E Jornal do Commercio. Outras três redações concordaram com a checagem, no processo conhecido como “crosscheck”: Estado, O Povo, Poder360 e UOL.  

Projeto Comprova é uma coalização de 24 veículos de mídia com o objetivo de combater a desinformação durante o período eleitoral. Você pode sugerir checagens por meio do número de WhatsApp (11) 97795-0022.

O plano de unificar toda a América Latina sob um único estado socialista, a Ursal (União das Repúblicas Socialistas da América Latina), não existe. Existem muitas iniciativas para a integração econômica da região, como a Alca e a Unasul, mas nenhuma delas implica que países integrantes tenham de abrir mão de suas soberanias ou aderir ao socialismo.

A sigla foi inventada pela socióloga Maria Lucia Victor Barbosa — no artigo “Os Companheiros”, publicado no site do filósofo Olavo de Carvalho, no dia 9 de dezembro em 2001 – como uma ironia para criticar um encontro do Foro de São Paulo, realizado à época em Havana.

O termo apareceu, novamente, no site do filósofo: era a reprodução de uma coluna do autor publicada no jornal Diário do Comércio, em 1º de maio de 2006.

Em seguida, surgiu o site “Dossiê Ursal”. De acordo com o Whois, a página foi criada em 9 de abril de 2015. Usa o provedor Dreamhost.com, que permite a ocultação do real proprietário do site nas consultas públicas. O Comprova entrou em contato com um homem que se apresenta em vídeos no Facebook como o criador do site e pediu, por mensagem, informações sobre o site e sobre a primeira menção à Ursal descoberta por ele. O internauta, porém, disse não conceder entrevistas sobre o assunto.

Menções à sigla se tornaram virais em 2018 após o primeiro debate com os candidatos à Presidência da República, transmitido pela TV Bandeirantes no dia 9 de agosto. Na ocasião, o Cabo Daciolo (Patriota) pediu para Ciro Gomes (PDT) falar sobre o Foro de São Paulo e sobre o “plano Ursal”. Ciro disse desconhecer este termo.

A socióloga relatou ter ficado perplexa ao ouvir a menção à Ursal no debate. “A Ursal foi uma brincadeira que virou uma teoria conspiratória”, disse, em entrevista por telefone ao Comprova. Ela confirmou que em 2001 usou o termo em um artigo sobre o Foro de São Paulo, uma entidade formada por partidos e movimentos de esquerda criada em 1990, e que reúne 113 membros de 26 países.

No texto, ela criticava a postura de Luiz Inácio Lula da Silva ao falar sobre a Área de Livre Comércio das Américas (Alca), proposta dos Estados Unidos para integrar as Américas em um bloco econômico, que não saiu do papel. “Mas qual seria, me pergunto, essa tal integração no modelo Castro-Chávez-Lula? Quem sabe, a criação da União das Republiquetas Socialistas da América Latina (Ursal)?”, escreveu na época.

Maria Lúcia conta ter feito uma associação com a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS) para inventar a sigla, que já tem o tom de deboche no “republiquetas”. “Subliminarmente tinha uma ressonância com URSS. Eu inventei essa sigla como uma crítica paralela à União Soviética”, disse em entrevista. Ela conta que, após a publicação do artigo, chegou a receber e-mails que mencionavam a Ursal, mas que sempre tratou de explicar que ela havia inventado o termo e que essa associação não existia.

A professora nem acredita na possibilidade de haver um plano drástico de integração na América Latina. “Não há viabilidade de fazer isso, é uma utopia”, diz.

Para um razoável volume de usuários das redes sociais, a Ursal existe ou está em vias de sair do papel, graças a uma conspiração da esquerda. Vários formadores de opinião da direita — que acreditam na existência de um plano da esquerda de integração dos países da América Latina — divulgaram que a sigla Ursal pode ter sido inventada, mas que a ideia é real.

Um deles foi o próprio Olavo de Carvalho, que hospedou o artigo original de Maria Lúcia Victor Barbosa, e se manifestou no Facebook, pouco antes de ter sua conta temporariamente suspensa pela rede social. Nesta oportunidade, escreveu sobre a Ursal que o “termo é genérico”. Assim que voltou a postar, publicou novo texto afirmando a existência de um esquema comunista de integração continental. O youtuber Nando Moura, famoso por opiniões políticas, também se manifestou sobre o caso e recomendou que seguidores procurem ver um “fundo de verdade” nos alertas de Cabo Daciolo. O vídeo já foi visto mais de 620 mil vezes.

Governos de direita e de esquerda buscam integração há muito tempo na América Latina. As iniciativas que saíram do papel não passam nem perto de uma grande transição ao socialismo. Têm se resumido a parcerias econômicas, mercadológicas, para circulação de pessoas e mesmo para reafirmação de valores democráticos. As principais são o Mercado Comum do Sul (Mercosul), de 1991, o Protocolo de Ushuaia, de 1998, e a União de Nações Sul-Americanas (Unasul).

Já a Pátria Grande, mencionada por Cabo Daciolo no debate da Band, é um conceito que apareceu pela primeira vez no livro “La Patria Grande” (1922), do escritor e político argentino Manuel Ugarte, que reunia discursos favoráveis à unificação feitos em países americanos.

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