Postagem viral faz comparação enganosa entre preços da gasolina no Brasil e em países europeus

Postagem viral faz comparação enganosa entre preços da gasolina no Brasil e em países europeus

Tabela compartilhada no Facebook não leva em conta custo de vida de cada país; combustível pesa mais no bolso do brasileiro do que no do europeu

Isabela Moya, especial para o Estadão

08 de novembro de 2021 | 16h00

Circula no Facebook um post com mais de 23 mil compartilhamentos que compara o preço do litro da gasolina no Brasil com o valor em dez países europeus, em dólar e em real. Segundo a postagem, o combustível no País é mais barato que em Portugal, Alemanha, França, Reino Unido, Espanha, Itália e outros. A comparação, no entanto, é enganosa, porque apresenta apenas o valor nominal dos preços, sem levar em conta a renda e o custo de vida em cada lugar. Ou seja: a gasolina pesa mais no bolso do brasileiro do que no dos europeus.

Os dados, segundo a postagem, foram retirados do site Global Petrol Prices no dia 4 de outubro de 2021. O portal lista os valores da gasolina em 150 países e, de fato, o preço listado do litro no Brasil é mais baixo que nos países citados no post. A publicação no Facebook usa cotação de R$ 5,53 para converter os valores em dólar americano para real. Essa lógica, no entanto, ignora o conceito de Paridade do Poder de Compra, que considera a renda e o custo de vida de cada país.

O professor de Economia da Fundação Getúlio Vargas (FGV) Henrique Castro explica que esse conceito deve ser levado em conta ao fazer uma comparação entre diferentes países. “Quando a gente leva em consideração só o câmbio, o que estamos imaginando é que um comprador internacional pode chegar com dólar em qualquer país e realizar essa compra, e isso não é verdade”, diz. “O que acontece é: brasileiros que compram combustível no Brasil, portugueses que compram combustível em Portugal”.

Por isso, “é preciso levar em consideração o quanto 100 litros de gasolina, por exemplo, representam em relação ao salário mínimo ou médio de cada país”, exemplifica o economista. Por meio desse método, uma comparação mais justa seria, por exemplo, estabelecer uma relação entre o valor listado de R$ 6,17 por litro de gasolina no Brasil com o salário mínimo do País, de R$ 1.100. O resultado é que o preço do combustível por litro representava, na data da postagem, 0,56% do salário mínimo brasileiro. Ou seja, um trabalhador que recebe o mínimo gastaria 56% de seus rendimentos para abastecer 100 litros de gasolina em um mês.

Já na Holanda, onde, segundo o post, o litro da gasolina custava US$ 2,16 — o mais caro da tabela — seria necessário primeiro converter o preço à moeda do país, o euro. Considerando a cotação do dia 4 de outubro, o combustível custava €$ 1,86 por litro. Esse valor representa 0,1% dos €$ 1.701 que um trabalhador da Holanda recebe como salário mínimo, ou 10%, caso consuma 100 litros no mês.

Essa comparação sinaliza que mesmo o cidadão do país com o maior valor nominal da tabela na postagem paga proporcionalmente menos pela gasolina do que o brasileiro

Castro explica que o preço da gasolina é diferente entre os países por conta dos custos de transformação do petróleo em combustível. “O petróleo tem um preço internacional por ser uma commodity, já a gasolina passa por processos de refinarias”, afirma. “Cada país pode ter seu custo em transformação, isso envolve mão-de-obra e também o quanto o país importa e o quanto é produzido localmente.”

O próprio site Global Petrol Prices, utilizado como fonte no post enganoso, alerta que países mais ricos costumam apresentar preços mais altos. “Como regra geral, os países mais ricos têm preços mais altos, enquanto os países mais pobres e os países que produzem e exportam petróleo têm preços significativamente mais baixos”, diz o portal.

“Uma exceção notável são os EUA, país economicamente avançado, mas que tem baixos preços de gasolina”, continua a explicação do site. “As diferenças de preços entre os países devem-se aos vários impostos e subsídios para a gasolina. Todos os países têm acesso aos mesmos preços do petróleo dos mercados internacionais, mas decidem impor impostos diferentes. Como resultado, o preço de varejo da gasolina é diferente”.


Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

publicidade

publicidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.