Postagem usa método inadequado para comparar poder de compra do real e do euro
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Postagem usa método inadequado para comparar poder de compra do real e do euro

Texto que viralizou no Facebook cita apenas taxa de câmbio nominal das duas moedas

Guilherme Bianchini, especial para o Estado

11 de setembro de 2020 | 15h40

Um texto com mais de 3,8 mil compartilhamentos no Facebook compara o poder de compra do real e do euro a partir da taxa de câmbio de ambas as moedas. A conversão simples de valores, porém, é insuficiente nesse cálculo. Ao citar apenas o câmbio, omitem-se outros fatores levados em conta para determinar as diferenças no poder de compra entre duas ou mais moedas. Na economia, esse conceito se aplica à capacidade de adquirir bens e serviços com determinada unidade monetária.

“Sabe a diferença entre essas duas notas? R$50 do Brasil e €50 euros da Europa! Ambos têm o mesmo valor em seus respectivos países, porém o poder de compra é o que difere ambas. €50 é equivalente a R$302,00 reais do Brasil e R$50 é equivalente a €8,27 euros. Uma pessoa que ganha €1200 mensais na Europa, paga 6 salários no Brasil para 6 pessoas! Incrível a diferença e o poder de compra entre uma moeda e a outra”, diz o texto publicado em 1º de setembro.

Taxa de câmbio não é suficiente para calcular poder de compra da moeda. Foto: Reprodução

O método conhecido como Paridade do Poder de Compra (PPC) é o mais utilizado para comparar o poder de compra entre unidades monetárias diferentes. O índice mede a capacidade de compra da moeda doméstica quando convertida na moeda internacional, o dólar. Para padronizar a operação, estipula-se o valor de um cesta de bens e serviços comuns, a ser calculado em cada país.

“O post compara apenas a taxa de câmbio nominal, que é a mais próxima das pessoas. Mas a ideia de que €50 na Europa equivalem a R$ 300 aqui não leva em conta um elemento importante, a capacidade de compra, que mede o poder dessas moedas em seus respectivos países”, explica Fernando Ribeiro Leite, professor de Economia do Insper.

Para exemplificar o equívoco no uso do câmbio nominal, o economista cita a comparação entre o real e a moeda japonesa, o iene. “Vinte reais equivalem a cem ienes. Então o poder de compra do real é maior que o do iene, só porque é cinco vezes maior em termos nominais? Isso é uma falácia. Cem ienes compram muito mais do que R$ 20 no Brasil”, afirma.

O Banco Mundial disponibiliza, em seu site, diversos indicadores com base na Paridade do Poder de Compra. O mais adequado para calcular o caso citado no post é o que mede as despesas de consumo das famílias em cada país. Quanto mais alto o número, menor é o poder de compra da moeda na comparação com outras unidades monetárias.

O valor mais recente do Brasil, de 2019, foi estipulado em 2,4. Os países da zona do euro variam entre 0,5 e 0,9. Embora o real de fato tenha poder de compra menor que o da moeda comum europeia, o argumento do câmbio, utilizado na publicação, é enganoso.

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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