Vídeo viral mostra ponte no Pará, na BR-158, construída durante governo Bolsonaro

Vídeo viral mostra ponte no Pará, na BR-158, construída durante governo Bolsonaro

Estrutura de concreto foi feita para substituir antiga ponte de madeira sobre igarapé Água Preta; outras duas obras na região estão em andamento

Clarissa Pacheco

18 de janeiro de 2022 | 11h37

É verdadeiro o conteúdo de um vídeo gravado para o TikTok e compartilhado no Facebook em que uma pessoa mostra uma antiga ponte de madeira na BR-158, no Pará, e uma estrutura nova, de concreto, na mesma rodovia. No vídeo, que soma quase 41 mil interações nas duas redes, um homem afirma: “olha aí o que o Bolsonaro fez pra gente”. De fato, a ponte de concreto foi construída entre 2020 e 2021, no governo Jair Bolsonaro (PL), e entregue no final do ano passado pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT).

As imagens foram feitas diretamente no aplicativo TikTok no dia 19 de dezembro do ano passado e publicadas na conta do usuário @walterherodes2, que é caminhoneiro e vive na região de Redenção, no Sul do Pará. O trecho da BR-158 onde fica a nova ponte parte de Redenção e segue até a divisa com o Mato Grosso. Além desta ponte, outras duas estão com obras em andamento no trecho que vai de Redenção até Santana do Araguaia, também no Pará.

Nos 191 quilômetros entre as duas cidades há três pontes de madeira. Todas estão sendo substituídas por pontes de concreto. Em agosto de 2019, o ministro da Infraestrutura, Tarcísio Gomes de Freitas, assinou a ordem de serviço para a construção da primeira delas, justamente a ponte sobre o igarapé Água Preta, que aparece no vídeo.

Na ocasião, o ministro afirmou que trocaria seis pontes de madeira por estruturas de concreto na BR-158. A meta era iniciar as obras de duas delas ainda em 2019 e as demais em 2020. Até o momento, contudo, apenas a primeira ponte foi entregue, no final de 2021. Outras duas estão com obras em andamento, mas o DNIT não informou quando elas ficarão prontas.

Adequação começou em 2020

Em junho de 2020, o DNIT informou que estava realizando obras de adequação na estrutura de seis pontes da BR-158, no Pará. “Os serviços visam substituir quatro estruturas que hoje são de madeira — Água Preta, Araras, Itamarati e Arraia — e duas que são mistas (madeira e aço) — Inajazinho e Inajazão — por concreto”, diz texto publicado no site do órgão, na época.

Em agosto de 2020, um ano após a assinatura da ordem de serviço para a primeira das seis pontes, o site Trucão, especializado em comunicação de transporte, publicou que o DNIT havia aberto uma rota de acesso enquanto duravam as obras para uma das pontes. Os caminhoneiros, na época, reclamavam da precariedade da estrada. Sem especificar em qual mês, o DNIT informou ao Estadão Verifica que a obra da ponte sobre o igarapé Água Preta começou “no fim de 2020”.

Em julho de 2021, o DNIT publicou em sua página no Facebook que as obras daquela primeira ponte tinham chegado à fase de lançamento das vigas metálicas. Três meses depois, a obra estava praticamente pronta. “No rio Água Preta, a obra está praticamente concluída. O tabuleiro recém concretado aguarda o período de cura do concreto para receber as etapas finais de acabamento”, diz outra publicação no Facebook.

No vídeo, o homem que faz as imagens diz que Bolsonaro entregou a obra em “seis meses”. Questionado pela reportagem, ele disse que não sabe exatamente em quanto tempo a obra ficou pronta, mas que viu operários trabalhando no local “por uns seis meses” e que o próprio irmão dele foi contratado para trabalhar na ponte por dois meses. O DNIT foi procurado para informar quando a obra começou e quando terminou, mas se limitou a dizer que o início foi “no fim de 2020” e a conclusão, “no fim de 2021”, ou seja, um ano depois.

Ponte de madeira já tinha desabado

Ao lado da ponte de concreto já em uso, aparece uma antiga ponte de madeira. No vídeo, o homem afirma que passava há 30 anos pela antiga estrutura e que as intervenções anteriores eram apenas reparos na mesma estrutura.

O DNIT não informou há quanto tempo a ponte de madeira funcionava no local, mas confirmou que, antes da construção do equipamento em concreto, “as ações realizadas eram de reconstrução e reforma da ponte provisória do local”. O autor do vídeo também não sabe há quanto tempo exatamente o ponte de madeira existe, mas afirmou que é assim desde que ele “se entende por gente”. O rapaz tem 40 anos de idade.

A Prefeitura de Redenção, que comemorou a assinatura da ordem de serviço e classificou a obra como “o fim das pontes assassinas”, foi procurada para informar sobre há quanto tempo as estruturas de madeira funcionavam na região, mas não atendeu aos pedidos de informação.

Em 2017, aquela mesma ponte desabou parcialmente, causando um congestionamento de motos, carros, caminhões e ônibus por seis quilômetros. Na ocasião, a cabeceira da ponte de madeira foi levada pela força da água e a espera pela travessia chegou a demorar dez horas, após um improviso feito por motoristas que permitia a passagem de carros pequenos e motos. O DNIT foi acionado para fazer os reparos na ponte.

Outras pontes

Das seis pontes que o governo federal disse que construiria no local, há atualizações sobre o andamento de apenas três. Em outubro de 2021, o DNIT informou que avançava em três pontes: a do igarapé Água Preta, já praticamente pronta, e as dos rios Itamarati e Araras.

“No rio Itamarati, todas as vigas já estão lançadas. Atualmente as equipes da Autarquia posicionam as pré lajes para posterior concretagem. A previsão de término da concretagem é na primeira quinzena de novembro. Já no rio Araras, a cravação das estacas da fundação ponte começou nesta semana”, diz um texto publicado no site do DNIT em 25 de outubro de 2021.

Não há informações sobre as outras três pontes. A BR-158 é considerada um importante corredor logístico que alimenta portos e terminais ferroviários do Pará, além de ser fundamental para o transporte de cargas e escoamento de grãos da região Norte do país.

Ela começa no Pará e corta os estados do Mato Grosso, Goiás, Mato Grosso do Sul, São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, terminando em Santana do Livramento, na fronteira do Brasil com o Uruguai.


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