Vídeo exagera impacto do Pix na receita dos bancos ao comemorar ‘brigas’ do governo Bolsonaro

Vídeo exagera impacto do Pix na receita dos bancos ao comemorar ‘brigas’ do governo Bolsonaro

Boato alega que houve redução de ‘quase R$ 400 bilhões’ de lucro por ano em transações bancárias, mas o montante supera em mais de 15 vezes a receita em serviços de conta corrente das principais instituições financeiras do mercado

Samuel Lima

02 de maio de 2022 | 13h03

É falso que o Pix, sistema de pagamento instantâneo do Banco Central, tenha resultado em prejuízo de “mais de R$ 400 bilhões” aos bancos com tarifas sobre as transações. Levantamento feito pelo Estadão com as quatro maiores instituições financeiras listadas na bolsa de valores (B3) mostra que a queda de receitas em serviços de conta corrente foi, na verdade, de R$ 1,5 bilhão no ano passado. O resultado foi atribuído principalmente ao crescimento do Pix, ainda que não se tenha dados exatos sobre o seu impacto no mercado.

O Pix entrou em operação em outubro de 2020. A partir dos balanços financeiros de Banco do Brasil, Itaú Unibanco, Bradesco e Santander, a reportagem constatou que essa fonte de recursos somou R$ 27 bilhões naquele ano e que o valor foi reduzido para R$ 25,5 bilhões em 2021. Ou seja, a postagem menciona um suposto prejuízo que seria cerca de 15 vezes maior do que a soma das receitas com serviços de conta corrente nos quatro dos cinco principais bancos do País (a Caixa Econômica Federal, que não está listada na B3, ficou de fora do levantamento).

Luis Miguel Santacreu, analista do setor de bancos da Austin Rating, esclarece que o impacto do Pix para os bancos existe, mas o valor mencionado no post destoa da realidade. “É improvável que a perda de receitas chegue nessa quantia (R$ 400 bilhões). A magnitude é muito alta e supera até mesmo a receita de serviços somadas dos quatro grandes bancos, que envolve muito mais do que pagamentos (R$ 122 bilhões, segundo reportagem do Estadão)”.

Por outro lado, Santacreu esclarece que é uma tarefa complicada medir precisamente quanto todos os bancos deixaram de receber em tarifas desde o surgimento do Pix. Isso porque os balanços financeiros geralmente não chegam ao nível de detalhamento sobre as receitas obtidas especificamente com os serviços bancários que estão sendo substituídos pelo Pix, como as transferências por DOC, TED e o pagamento de boletos.

Em resposta ao Estadão Verifica, a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) também contestou o número que circula nas redes sociais. “Apesar de não existirem estimativas numéricas oficiais sobre redução da receita dos bancos com a entrada desse novo meio de pagamento, os dados de transações por meios de pagamento compilados pelo Banco Central mostram que não houve quedas significativas nas transações feitas por meios de pagamentos tradicionais como TED, DOC, Boleto, cartões de débito e crédito”, argumenta a entidade.

Além disso, nem sempre uma transação feita pelo Pix seria cobrada caso fosse realizada de outra forma. Atualmente, o mercado trabalha com pacotes de serviços e isenções diversas nas operações, por exemplo, em um movimento impulsionado pelo crescimento das fintechs.

A Febraban encaminhou dados gerais de uma consultoria ao Verifica indicando que 46% das transações de pessoa física já eram gratuitas por regulamentação própria ou isenção por parte dos bancos em 2018, enquanto outras 37% estavam incluídas em pacotes contratados pelos clientes. A cobrança avulsa, portanto, incidia em apenas 17% dos casos, com taxas que variam no mercado.

Segundo o Banco Central, o Pix apresenta hoje cerca de 1,6 bilhão de transações e movimenta R$ 785 bilhões por mês. Os dados são referentes a março deste ano e incluem transações entre pessoas físicas, empresas e governos. Vale lembrar que os bancos estão autorizados a cobrar tarifas sobre algumas dessas operações, com exceção de pessoa física e microempresários e empresários individuais. No entanto, as estatísticas apontam que pelo menos 72% das transações são gratuitas — esse foi o percentual de transferências entre pessoas físicas no período.

O que dizia o boato

O boato checado pelo Estadão Verifica é um vídeo no Facebook em que um homem não identificado exalta supostas “brigas” promovidas pelo presidente Jair Bolsonaro (PL) contra banqueiros, artistas, parlamentares e membros do Judiciário. O conteúdo acumulou mais de 390 mil visualizações em menos de uma semana na plataforma. Além da informação falsa sobre o Pix analisada nesta checagem, há outras insinuações vagas sobre o descontentamento da classe artística com a Lei Rouanet, o suposto fim da “mamata” no Congresso e críticas sobre a atuação do Judiciário em casos como a condenação do deputado Daniel Silveira (PTB-RJ).


Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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