É falso que Petrobras tenha sofrido prejuízo de ‘R$ 900 bilhões’ com corrupção

É falso que Petrobras tenha sofrido prejuízo de ‘R$ 900 bilhões’ com corrupção

PF estimou perdas de R$ 42,8 bilhões em esquemas investigados pela Lava Jato, em 2015; empresa afirma ter recebido R$ 6,2 bilhões em devoluções até 2021

Samuel Lima e Victor Pinheiro

27 de maio de 2022 | 19h22

Não é verdade que a Petrobras tenha sofrido perdas de R$ 900 bilhões com corrupção nos governos do PT. A afirmação falsa aparece em um comentário do empresário Tomé Abduch, simpatizante declarado do presidente Jair Bolsonaro (PL), em um programa da Jovem Pan News. O trecho circula nas redes sociais e acumula mais de 500 mil visualizações no Facebook.

No vídeo, Abduch argumenta que a gasolina “está cara no mundo todo” e sugere que os preços dos combustíveis também estão elevados por conta de escândalos de corrupção na petroleira. “Foram roubados R$ 900 bilhões. Dava para fazer 10 vezes a transposição do Rio Amazonas (sic) no Nordeste”, em uma aparente tentativa de relacionar o valor às obras de transposição do Rio São Francisco.

Na realidade, a Polícia Federal estimou, em novembro de 2015, perdas de R$ 42,8 bilhões na Petrobras com irregularidades investigadas pela Operação Lava Jato. A força-tarefa revelou esquema que envolvia licitações fraudulentas com empreiteiras; em troca, o cartel pagava propinas para funcionários da empresa e operadores do esquema, além de financiar campanhas de partidos políticos como PT, PP e MDB. Já a Petrobras, oficialmente, divulgou rombo de R$ 6,2 bilhões em seu balanço financeiro na mesma época.

O Estadão Verifica entrou em contato com a Petrobras e perguntou qual é o valor apurado internamente hoje. A empresa encaminhou uma nota em que relata a devolução de R$ 6,17 bilhões em decorrência de acordos de colaboração, leniência, repatriações e renúncias até o final de 2021. Porém, não quis comentar sobre a alegação de “R$ 900 bilhões” supostamente roubados dos cofres da empresa — número que é 145 vezes maior do que o medido em relatório de 2015.

Endividamento

O mesmo valor é frequentemente citado pelo presidente Jair Bolsonaro em discursos e conversas com apoiadores, mas geralmente atribuindo os “R$ 900 bilhões” a endividamento — o que é diferente de dizer que esse montante foi “roubado”. 

Em um vídeo que viralizou no TikTok, por exemplo, Bolsonaro aparece em um evento no Rio Grande do Norte dizendo que “recurso desviado, mal aplicado e interferência do governo na Petrobras causou um endividamento de R$ 900 bilhões”. O presidente compara o valor com o custo total da transposição do Rio São Francisco, calculado em R$ 14,7 bilhões pelo governo federal.

A dívida bruta da Petrobras chegou a cerca de US$ 160 bilhões em 2014, segundo informações da empresa, considerando também os afretamentos, que passaram a ser considerados como dívida a partir de 2019. O número representa R$ 761 bilhões pela cotação do dólar nesta quinta-feira, 26 de maio (R$ 4,76).

Bolsonaro relaciona esse endividamento a problemas de gestão, mas parte dele decorre, por exemplo, da captação de recursos para financiar a exploração das áreas do pré-sal. Reportagem especial do UOL aponta que ao menos outros cinco fatores contribuíram para o aumento do endividamento da Petrobras: políticas de represamento do preço de combustíveis, subsídios ao gás de cozinha, aumento dos gastos com importações, queda do preço do petróleo no mercado internacional e efetivamente as perdas com corrupção.

Entre os investimentos que foram alvo de investigações na Justiça estão a construção da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, e do Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (Comperj).

Os informes financeiros da Petrobras mostram que, de 2003 a 2013, a empresa registrou lucro líquido. O recorde ocorreu em 2010, quando o balanço da petroleira fechou com um saldo positivo de US$ 19,2 bilhões. Já em 2014 e 2015, a Petrobras teve prejuízos de US$ 7,3 bilhões e US$ 9,4 bilhões, respectivamente. A empresa voltou a ter lucro somente em 2018. Desde outubro de 2016, a Petrobras adota uma política de preços que acompanha o custo do barril de petróleo em dólares no mercado internacional.

Outro lado

A reportagem tentou entrar em contato com Tomé Abduch por meio de um e-mail de contato de sua empresa e um número de WhatsApp cedido pela Jovem Pan. O Estadão Verifica perguntou qual foi a fonte da informação e a que exatamente se referiu ao citar os “R$ 900 bilhões”. Não houve resposta até a publicação desta checagem.

O empresário é um dos coordenadores do movimento “Nas Ruas” e costuma organizar manifestações em favor do presidente Jair Bolsonaro, como motociata em São Paulo e 7 de setembro na Avenida Paulista, no ano passado. Ele se filiou recentemente ao PTB, de Roberto Jefferson. O partido anunciou a sua pré-candidatura a deputado federal em São Paulo em março.


Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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