Não há evidências que 80% da população seja imune ao novo coronavírus
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Não há evidências que 80% da população seja imune ao novo coronavírus

OMS espera que a maioria dos pacientes com covid-19 desenvolva resposta de anticorpos que proporcione proteção, mas ainda não se sabe qual o nível dessa proteção nem quanto tempo ela duraria

Alessandra Monnerat e Pedro Prata

26 de junho de 2020 | 16h25

Não há evidências que 80% da população seja imune ao novo coronavírus, ao contrário do que afirmam posts que circulam no Facebook. A Organização Mundial de Saúde (OMS) espera que a maioria dos pacientes com covid-19 desenvolva uma resposta de anticorpos que proporcione algum tipo de proteção, mas ainda não se sabe qual o nível dessa proteção nem quanto tempo ela duraria. Segundo a OMS, “nenhum estudo respondeu a essas importantes questões ainda”.

A microbiologista Natalia Pasternak, presidente do Instituto Questão de Ciência (IQC), explica que essa porcentagem tão alta não faz sentido. Para se ter uma ideia, 85% é a taxa estimada de imunização da população mundial para a poliomielite. A covid-19 é uma doença nova, que ainda não tem tratamento ou vacina comprovadamente eficaz. “80% de uma população imune é o que a gente quer atingir com uma vacina ou com imunidade de rebanho”, explica Pasternak. “Se isso fosse verdade, o vírus nem circulava”.

A informação falsa foi impulsionada pelo influenciador bolsonarista Winston Ling no Twitter e passou a circular também no Facebook. Ling afirma que “descobrimos que 80% da população é imune porque o sistema imunológico consegue reagir à covid-19 como se fosse um resfriado comum”, mas essa justificativa também não é verdadeira. As duas doenças são causadas por agentes infecciosos distintos, que têm características diferentes entre si.

Natália Pasternak: ‘Se isso fosse verdade, o vírus nem circulava’. Foto: Reprodução

Pasternak aponta que um estudo publicado no periódico científico Cell em maio analisou a resposta de amostras de sangue coletadas entre 2015 e 2018, quando ainda não circulava o SARS-CoV-2 — o vírus que causa a covid-19. O que os cientistas observaram é que, quando essas amostras de sangue foram expostas ao novo coronavírus, muitas delas apresentaram reatividade em células ligadas à resposta imune do corpo. 

Os autores do estudo, do La Jolla Institute for Immunology, nos Estados Unidos, inferiram que essas pessoas que doaram sangue provavelmente já tinham entrado em contato com os coronavírus que causam resfriados comuns. O nome “coronavírus” se refere à família de agentes infecciosos do qual o SARS-CoV-2 faz parte. Ainda que uma reação cruzada tenha sido observada, os pesquisadores ainda não sabem se essa reatividade fornece algum tipo de imunidade.

“Os coronavírus em geral vão ter características em comum, proteínas parecidas”, explica Pasternak. “É normal que [pessoas expostas a diferentes tipos de coronavírus] tenham algum tipo de reação cruzada, que o sistema imune reconheça o que viu no SARS-CoV-2. Agora, não é correto extrapolar isso para dizer que essas pessoas têm algum tipo de proteção. Isso precisa ser investigado”.

Taxa de 80% foi citada por neurocientista britânico como ‘estimativa otimista’

O boato que circula no Facebook distorce uma estimativa feita pelo neurocientista Karl Friston, da University College London, do Reino Unido. Em entrevista a um site, ele disse calcular que até 80% da população não seja suscetível ao novo coronavírus. Consultado pelo Estadão Verifica, Friston esclareceu que o número foi mencionado como uma “estimativa otimista” e que, posteriormente, publicou uma análise com maior nuance (leia mais sobre abaixo).

Friston faz parte de um grupo independente para produzir estudos e recomendações sobre a pandemia no Reino Unido chamado Independent SAGE. Eles realizam seu trabalho paralelamente ao Grupo de Aconselhamento Científico em Emergências (SAGE, na sigla em inglês) do governo britânico.

O neurocientista trabalha em modelos matemáticos das funções cerebrais e agora aplica seu conhecimento para fazer projeções da disseminação do novo coronavírus. Em entrevista ao jornal The Guardian publicada no final de maio, ele afirma que as projeções oficiais consideram que 100% da população estaria suscetível a ser contaminada. Segundo seu método de projeção, uma infinidade de fatores fazem com que nem todos os habitantes de um país estejam expostos ao vírus — e isso teria influência no número final de infectados.

O novo coronavírus é diferente do vírus influenza, causador da gripe. Foto: CDC/Divulgação

Friston comentava ao The Guardian a diferença nas taxas de mortalidade entre o Reino Unido e a Alemanha. O governo alemão foi elogiado pela rápida resposta ao novo coronavírus — o país adotou uma estratégia de medidas drásticas de isolamento social e testagem em massa. O neurocientista, no entanto, especula que haveria algo como uma “matéria escura imunológica” na Alemanha: “pessoas que não estão suscetíveis à infecção, talvez porque estejam geograficamente isoladas ou porque possuem algum tipo de resistência natural”, entre outras possibilidades.

Recentemente, Friston publicou uma análise técnica com cientistas do Reino Unido, Austrália, Dinamarca e França. Este documento ainda está em versão pré-print, ou seja, ainda não foi revisado por outros acadêmicos ou aceitado em um periódico científico. Os autores se baseiam em equações diferenciais para estimar a porcentagem imune da população e calcular a segunda onda de contágios pelo novo coronavírus. No cálculo, os cientistas estimam uma série de fatores, como a probabilidade de a população sair de casa, a eficácia do sistema de testagem e até a demora em adicionar novos casos à estatística de infectados.

Dessa forma, a análise apontou que a porcentagem da população brasileira imune à covid-19 (que já se recuperou da doença após apresentar sintomas leves) seria de 7%; a parcela não-suscetível ao coronavírus (que têm algum tipo de “resistência” natural) seria de 61%. No entanto, os próprios autores admitem que há “muitas limitações” ao modelo, e que as porcentagens calculadas dependem dos dados disponíveis até a data do cálculo (8 de junho de 2020). 

Os cientistas acrescentam que o objetivo da análise não é oferecer “respostas definitivas”, e sim ilustrar como questões relacionadas à pandemia podem ser respondidas usando o modelo desenvolvido por Friston.

Tedros Adhanom, diretor-geral da OMS, disse que estudos tentam determinar a porcentagem de contágios oriundos de pessoas assintomáticas. Foto: EFE/EPA/Salvatore Di Nolfi

Boato também distorce informações da OMS sobre taxa de assintomáticos

O boato no Facebook afirma ainda que a OMS teria admitido que assintomáticos não transmitem o novo coronavírus. Isso também não é verdade. O diretor-geral da instituição, Tedros Adhanom, disse em 10 de junho que pessoas assintomáticas podem sim transmitir o vírus. No entanto, são necessárias mais informações sobre o comportamento da doença para se afirmar a porcentagem de contágios com origem em pessoas assintomáticas. “Estas pesquisas estão sendo feitas em número cada vez maior”, falou.

A OMS faz questão de ressaltar a diferença entre pacientes assintomáticos – ou seja, aqueles infectados e que não desenvolvem qualquer sintoma — e os pré-sintomáticos — isto é, aqueles que foram infectados mas ainda não desenvolveram nenhum sintoma. Testes para se determinar a transmissão por pessoas assintomáticas são difíceis de serem conduzidos, mas a evidência disponível até o momento sugere que elas possuem menos chance de transmissão do que pessoas com os sintomas.

“Alguns pesquisadores tentam estimar a proporção de pessoas assintomáticas que virão a transmitir a doença. Os números variam muito dependendo das projeções feitas em cada país, mas algumas estimativas apontam que até 40% da transmissão se dê por pacientes assintomáticos”, explicou a OMS ao Estadão Verifica.

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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