Grupos antivacina usam morte de médico para espalhar desinformação

Grupos antivacina usam morte de médico para espalhar desinformação

Segundo Anvisa, óbito registrado em Sete Lagoas não está entre os notificados à agência; AVC é há anos a segunda maior causa de mortes no Brasil

Clarissa Pacheco

10 de janeiro de 2022 | 19h00

A morte de um médico de 42 anos, vítima de um AVC hemorrágico, está sendo relacionada em postagens nas redes sociais, sem evidências, às vacinas contra a covid-19. No entanto, não é possível afirmar que o óbito tenha relação com a vacinação. O médico Rangel Dionízio Magalhães foi encontrado morto pela mãe em casa, na cidade mineira de Sete Lagoas, no dia 27 de dezembro de 2021. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) informou ao Estadão Verifica que não há registro deste caso entre as notificações de possíveis eventos adversos recebidas pelo órgão.

A morte foi noticiada em sites locais, e em nenhum texto há qualquer menção à vacina. De acordo com a Prefeitura de Sete Lagoas, a causa da morte que consta na declaração de óbito de Rangel é AVC hemorrágico. Além disso, um irmão do médico descartou que o óbito tenha relação com imunizantes contra covid-19. Em um comentário deixado em um post no Facebook, o homem respondeu a um grupo de pessoas que o irmão dele não tinha se vacinado. Contactado pelo Estadão Verifica, ele confirmou ser irmão do médico, mas preferiu não se pronunciar.

Vacina Moderna é aplicada na Guatemala. Foto: AP Photo/Moises Castillo

A Prefeitura de Sete Lagoas informou que não tem autorização para informar se Rangel tinha se vacinado ou não sem aval dos familiares. Na conta pessoal do médico no Facebook, há diversas publicações contrárias às vacinas, mas em nenhuma delas ele afirma categoricamente que não recebeu a injeção.

AVC é a segunda maior causa de mortes no Brasil

O post verificado destaca a causa da morte do médico – AVC hemorrágico – e ironiza: “mas é só uma coincidência”. É uma prática que se observa em outras postagens que procuram, mesmo sem evidências, relacionar mortes por AVC às vacinas contra a covid-19.

O AVC, contudo, é a segunda principal causa de morte no Brasil, segundo dados do Ministério da Saúde — em 2017, último ano com dados consolidados, a doença matou mais de 100 mil pessoas. Entre o final de 2020 e outubro de 2021, a covid-19 passou a ser a principal responsável pelos óbitos no País, conforme números da Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen).

Números levantados de janeiro a outubro de 2020 pela Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) mostraram que 78.649 pessoas morreram por AVC nos primeiros dez meses do ano, número ligeiramente menor do que o contabilizado no mesmo período de 2019 – 79.984 casos.

As principais vítimas de morte por AVC são homens de 70 a 79 anos e mulheres de 80 a 89 anos, o que indica que a idade é um fator de risco para o quadro. Mas isso não significa que pessoas mais jovens não morram por AVC. Em 2017, conforme dados da plataforma DataSUS, do Ministério da Saúde, 1.143 pessoas que tinham entre 40 e 49 anos, mesma faixa de idade do médico Rangel Dionízio Magalhães, morreram por AVC hemorrágico ou isquêmico. A média nos dez anos anteriores — 2008 a 2017 — foi de 1.119 mortes por ano nesta faixa etária.

O maior estudo sobre trombose e AVC relacionados às vacinas contra a covid-19 apontou que, embora haja risco aumentado de eventos raros de coagulação sanguínea e trombose em pessoas que receberam a dose inicial da AstraZeneca ou a primeira dose da Pfizer, os riscos são muito  maiores entre pessoas não vacinadas que foram infectadas pelo SARS-COV-2. Ou seja, após a vacina, os riscos de AVC e trombose diminuem.


Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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