Médico usa argumentos enganosos e fora de contexto para desincentivar vacinação infantil

Médico usa argumentos enganosos e fora de contexto para desincentivar vacinação infantil

Número de crianças mortas pela covid-19 não é baixo quando comparado com outras doenças

Daniel Tozzi Mendes, especial para o Estadão

17 de fevereiro de 2022 | 15h57

Está fora de contexto uma postagem que apresenta números considerados “baixos” da mortalidade de covid-19 em crianças como argumento contra a vacinação desse público.  A covid-19 é hoje uma das principais causas de óbito no público infantil, apesar de crianças representarem menos de 1% do total de mortos pela doença no País. Além disso, ao contrário do que indica a mesma postagem, os estudos clínicos feitos pela farmacêutica Pfizer com crianças são suficientes para atestar a segurança e eficácia dos imunizantes, de acordo com parecer técnico emitido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e a opinião de especialistas ouvidos pelo Estadão Verifica.

As informações aqui checadas estão em uma postagem do Facebook que já soma mais de 160 mil visualizações e compartilha um trecho em vídeo da participação do neurocirurgião Paulo Porto de Melo no programa Opinião no Ar, da emissora RedeTV!. O programa estava discutindo a autorização para vacinação infantil no Brasil. 

No vídeo, Melo afirma que a mortalidade da covid-19 é de “apenas 0,000475%”, sem especificar se esse número se refere ao Brasil, ao mundo, à população adulta ou à população infantil. Esse tipo de afirmação é contestada por especialistas porque as taxas de mortalidade e letalidade da covid-19 em crianças são bastante altas quando comparadas com a de outras doenças para a mesma faixa-etária. A vacinação de cada vez mais pessoas também é essencial para a redução das taxas de transmissão do novo coronavírus

O Estadão Verifica tentou contato com o médico, pedindo maiores esclarecimentos sobre as informações que foram feitas no programa, mas não houve retorno até o fechamento da reportagem. 

Mortalidade de crianças pela covid-19

Taxas de mortalidade se referem ao número de óbitos registrados em relação ao total da população (diferente da letalidade, que é a proporção de mortes em relação ao total de diagnosticados pela doença). Tanto o vídeo quanto a legenda da postagem fazem menção a uma taxa de mortalidade por covid-19 de 0,000475%. 

De acordo com números da Fundação Osvaldo Cruz (FioCruz) fornecidos à reportagem pelo pesquisador Raphael Guimarães, em 2020 a taxa de óbitos por covid-19 para a faixa-etária de 0 a 11 anos foi de 2,06 a cada 100 mil crianças, ou 0,00206%. Em 2021 a taxa foi de 2,14 a cada 100 mil crianças, o que representa 0,00214%. Nos dois casos, a taxa é quase 5 vezes maior do que a mencionada na postagem, caso o recorte apresentado pelo médico seja o de crianças brasileiras de 0 a 11 anos.  

Além disso, a covid-19 apresenta números absolutos de mortalidade no público infantil superiores a outras doenças, conforme já apontou, por exemplo, o Conselho Nacional das Secretarias de Saúde (Conass). “Hoje a covid-19 é a doença que mais mata crianças brasileiras entre as doenças imunopreveníveis”, afirmou o pediatra e infectologista Renato Kfouri, da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) em checagem recente do Estadão Verifica

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De acordo com a FioCruz, só no ano de 2021 o número de óbitos confirmados por covid-19 no Brasil na faixa-etária de 0 a 11 anos foi de 734. Ao longo de todo o ano de 2019 (último ano com dados disponíveis), para a faixa-etária de 0 a 14 anos, a soma de todas as doenças “reduzíveis pelas ações de imunizações ou imunoprevenção” levou a 51 óbitos, de acordo com números do Sistema de Informações de Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde. Entre as doenças reduzíveis pelas ações de imunização, no cálculo do Ministério da Saúde, estão tuberculose do sistema nervoso, tuberculose miliar, tétano neonatal, difteria, coqueluche, sarampo, caxumba, meningite por haemophilus, síndrome da rubéola congênita e hepatite viral congênita. 

“Embora seja numericamente inferior ao número de mortes entre adultos, é eticamente questionável e moralmente condenável que crianças sejam hospitalizadas e morram por doença para a qual há vacina eficaz e segura”, comenta o epidemiologista e pesquisador Fiocruz Rapahel Guimarães. “A covid-19 sozinha correspondeu a 2% de todos os óbitos em crianças até 11 anos, em um universo de dezenas de causas incluídas. Ter esse número de mortes anuais é bastante preocupante”, acrescenta. 

Estudos de eficácia e segurança da Pfizer

Até o momento, de acordo com recomendações da Anvisa, estão liberadas para ser aplicadas em crianças no Brasil as vacinas da Pfizer (5 a 17 anos) e da Coronavac (6 a 17 anos). A postagem faz referência apenas às vacinas da Pfizer, dizendo que o imunizante não seria confiável por ter “apenas dois meses de estudo”, e que os resultados de eficácia e eficiência seriam publicados “somente em 2026”. Essas informações também são mencionadas pelo médico Paulo Porto de Melo no vídeo. Ele diz que chegou a elas ao consultar o estudo protocolado pela Pfizer no site “Clinical Trials”, do governo dos Estados Unidos. 

Em nota enviada à equipe do Estadão Verifica, a Pfizer informou que o estudo completo sobre a aplicação do imunizante em crianças pode ser acessado aqui. De acordo com a fabricante, os estudos das fases 2 e 3 (que possibilitam a aprovação das agências reguladoras) da vacinação infantil foram realizados em 2.268 crianças de Estados Unidos, Finlândia, Polônia e Espanha, com avaliação de eficácia de 90,7% e “perfil de segurança favorável”. 

Na mesma nota, a Pfizer citou ainda que a segurança das vacinas está sendo comprovada também no “mundo real”, apresentando dados do Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos (CDC, na sigla em inglês), que indicam que, em um universo de 8,7 milhões de doses administradas nessa faixa-etária, 98% dos efeitos adversos relatados foram considerados “não graves”. 

Além do parecer técnico da Anvisa pela aprovação dessas vacinas no público infantil, em pelo menos 32 países a vacina Pfizer também já foi aprovada para esse público, com base no mesmo estudo clínico.  

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Em relação aos resultados que devem ser publicados em 2026, a Pfizer esclareceu que “por protocolo, os participantes [dos estudos clínicos] continuarão sendo monitorados quanto a proteção e segurança a longo prazo após a aplicação da segunda dose, o que inclui também a análise e revisão de dados coletados nesse período para a publicação de novas avaliações”. Ainda segundo a fabricante, esses novos estudos, que são da fase 4, “não são parte da fase de desenvolvimento de vacinas e são feitos após comercialização de qualquer medicamento ou vacina para acompanhamento do produto”. 

Na avaliação de Isabella Ballalai, pediatra e atual vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações, isso quer dizer que a empresa se compromete a acompanhar por mais tempo as crianças que participaram dos estudos clínicos, assim como está sendo feito com os adultos. “Ou seja, significa mais segurança para todos, mas não quer dizer que a vacina é experimental”, explica. 

Eficácia sobre a Ômicron 

Um dos pontos levantados pelo médico no vídeo da postagem é de que os estudos da vacinação infantil em crianças teriam sido feitos no momento em que a variante do novo coronavírus que circulava com maior predominância era a Delta, diferentemente do momento atual, em que a principal variante é a Ômicron. De acordo com Isabella Ballalai, no entanto, esse tipo de relação não faz sentido para contestar a eficácia das vacinas contra a atual cepa.  “Os estudos clínicos nos mostraram que as crianças apresentaram uma resposta imunológica melhor do que os adultos ao receber a vacina. E hoje estamos vendo na prática que a vacinação da população adulta reduziu o número de mortes e casos graves com a Ômicron. Não há motivo plausível para entender que essa mesma vacina não irá proteger a criança, é o contrário: a criança tende a responder melhor à vacina. Seria algo muito arriscado esperar mais tempo até termos um estudo clínico em crianças exclusivamente em meio à Ômicron”, explica Isabella.  

“Estamos vivendo uma pandemia que não foi controlada ainda, e a principal arma que temos para proteção individual e coletiva, evitando adoecimento, internação, óbitos e transmissão, são as vacinas atuais. Esses imunizantes já tiveram sua segurança garantida em adultos e crianças, e eficácia comprovada, reduzindo internações e óbitos em pacientes, mesmo com a variante Ômicron”, acrescenta o epidemiologista Guilherme Spaziani, do Instituto Emílio Ribas. 

Em relação à eficácia sobre as diferentes variantes, a Pfizer afirmou que os estudos clínicos iniciais demonstram que a aplicação de duas doses em crianças se demonstrou eficaz no período do pico de contágio pela variante Delta, mas que, assim que a existência de uma nova variante é confirmada, a empresa começa estudos de impacto da nova cepa na eficácia da vacina atualmente distribuída. “A partir das informações desses estudos, é avaliada a necessidade de desenvolvimento de um novo imunizante”, afirma a empresa. “Até o momento, os dados laboratoriais mostram que três doses da vacina da Pfizer-Biontech induziram produção de anticorpos que neutralizam a variante Ômicron, e a vacina continua a oferecer forte proteção contra doença grave e hospitalização causada por essa variante”, acrescentou a farmacêutica. Segundo a Pfizer, a necessidade de uma terceira dose para a população infantil ainda não está definida, mas a empresa segue fazendo estudos e coletando dados para avaliar a possibilidade. 

A vacina da dengue

No mesmo vídeo, o médico ainda menciona o caso da vacina da dengue no Brasil — que teve a bula alterada anos depois de seu registro oficial pela Anvisa — para dar a entender que ainda é cedo para atestar a segurança dos atuais imunizantes contra a covid-19. Em 2018 houve alteração na bula da vacina da dengue por conta de uma pesquisa que demonstrou que a vacina gerava benefícios de proteção apenas quando aplicada em pessoas que já tinham contraído dengue. 

Para Guilherme Spaziani, a analogia da vacina da dengue com a de covid-19 foi “infeliz”. “São doenças diversas causadas por vírus muito diferentes, que levam a complicações diferentes”, pontua.  A infectologista Isabella Ballalai considera ainda que a revisão da bula da vacina da dengue só aconteceu por conta do acompanhamento contínuo da população vacinada e da produção de novos estudos, o que reforça a segurança de todo processo que envolve a imunização. “O que a gente faz é sistematizar todos os dados e estudar se são robustos o suficiente para autorizar a imunização, ainda que possa haver mudanças ao longo do tempo, justamente porque os estudos são contínuos. Ninguém fica 30 anos só fazendo estudos. Não existe. A gente não teria os tratamentos que existem hoje, e as vacinas não teriam evoluído tanto se não houvesse a aplicação em larga escala e os estudos contínuos”, resume a pesquisadora. 

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