Vacinas são seguras e protegem contra casos graves de infecção com Ômicron, diferentemente do que diz negacionista americano

Vacinas são seguras e protegem contra casos graves de infecção com Ômicron, diferentemente do que diz negacionista americano

Em protesto antivacina nos EUA, Robert Malone distorceu informações sobre campanha de imunização

Jullie Pereira, especial para o Estadão

27 de janeiro de 2022 | 16h42

Grupos e políticos antivacinas têm compartilhado nas redes sociais um vídeo do negacionista norte-americano Robert Malone. Durante discurso em Washington, nos Estados Unidos, ele afirma que as vacinas não servem para combater a variante Ômicron. Mas isso não é verdade. Embora as evidências disponíveis até o momento indiquem que a maioria das vacinas não consegue impedir a infecção com a nova cepa — que é altamente contagiosa –, os imunizantes são eficientes em evitar casos graves da covid-19.

Um dia antes do discurso de Malone, o Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA publicou estudo comprovando que as doses de reforço das vacinas tiveram 81% de efetividade em evitar hospitalizações depois que a Ômicron se tornou predominante no país. 

Malone afirma ainda que as vacinas não são “completamente seguras” e que a “natureza completa dos riscos” permanece desconhecida. Isso também não é verdadeiro, uma vez que os imunizantes passam por diversos testes de segurança e continuam sendo monitoradas para verificação de possíveis eventos adversos. No Brasil, Ministério da Saúde, Anvisa e secretarias estaduais e municipais de Saúde desempenham essa vigilância e divulgam os resultados.

O vídeo foi enviado por leitores ao WhatsApp do Estadão Verifica (11-97683-7490) e viralizou nas redes sociais. Na gravação, o cientista fala a milhares de manifestantes em Washington, durante protesto contra obrigatoriedade da vacina. O vídeo é o recorte de uma transmissão do programa Special Report, da Fox News. 

Em sua fala, Malone diz que as vacinas foram projetadas para a primeira cepa de coronavírus encontrada em Wuhan na China — e que por isso elas não funcionariam contra a Ômicron. Em entrevista ao Estadão Verifica, o presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Juarez Cunha, explica que de fato as vacinas foram desenhadas com base no vírus original. No entanto, já se esperava o surgimento de outras variantes, e cientistas continuaram a monitorar a eficácia da vacina diante das modificações genéticas do Sars-CoV-2.

“Os resultados que temos desde lá (o início da vacinação) estão sendo supervisionados”, explicou Cunha. “Tivemos uma queda de proteção para 80% (com a Ômicron) e sabemos que não necessariamente se evita infecção, mas há uma grande redução de gravidade”.

Juarez Cunha ressalta que a maioria das pessoas internadas não estão com o esquema vacinal completo. Nesta terça-feira, 25, a Secretaria de Saúde do Distrito Federal informou que a taxa de ocupação de leitos de UTI para tratamento de Covid está em 100% e que 90% são de pessoas não vacinadas ou com ciclo vacinal incompleto. No Hospital Emílio Ribas, unidade de referência em São Paulo, situação semelhante: 76% dos internados em 16 de janeiro não estavam vacinados ou ainda não tinham tomado a segunda dose ou dose de reforço. No Amazonas, a Secretaria de Saúde também comunicou que 77% das pessoas internadas em leitos públicos e privados ainda não estavam completamente vacinadas. Esta realidade se repete em outros estados e municípios brasileiros. 

Imunidade natural ou da vacina?

Malone diz ainda que as vacinas não são seguras e que após infecção pela covid-19 os sistemas imunológicos “se desenvolvem” e criam uma “recuperação duradoura, ampla e altamente protetora de doença e morte causada por este vírus”. Em outras palavras, o cientista afirma que a imunidade provocada pela doença é melhor do que a da vacina — o que é contestado pela ciência. O presidente da SBIm lembra que há numerosos casos de reinfecção pela covid-19. “A imunidade natural tem uma queda após um tempo e se torna inviável contra a nova variante”, explica.

Pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (FioCruz), da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), do Instituto D’Or de Ensino e Pesquisa (Idor) e da empresa chinesa MGI Tech Co publicaram estudo indicando que pessoas infectadas pela primeira vez com sintomas leves ou assintomáticos podem não produzir resposta imunológica. Além disso, podem adquirir a mesma variante outra vez e ainda ter sintomas mais fortes do que na primeira infecção. Os cientistas fizeram acompanhamento semanal de um grupo de 30 pessoas, entre março e dezembro de 2020. 

Há ainda o fato de que é mais arriscado pegar covid-19 do que se vacinar. Vacinas passam por testes de segurança que demonstram que os benefícios superam em muito os riscos. Os efeitos adversos mais comuns das injeções são dor de cabeça, dor local e febre. Por outro lado, contrair a doença pode causar consequências mais graves. “Muitas pessoas saudáveis evoluíram para quadros graves e mortes. Não bastava ser saudável ou ser esportista para não ter a doença de forma letal”, lembra Juarez.

Imunidade de rebanho 

No vídeo, Malone também cita que não seria possível atingir a chamada “imunidade de rebanho” com a vacina. A expressão descreve o momento quando uma determinada porcentagem de indivíduos fica imune à uma doença transmissível de pessoa para pessoa e a infecção para de se alastrar. “Mesmo que todo homem, mulher e crianças nos Estados Unidos fossem vacinadas, estes produtos não podem atingir a imunidade de rebanho e parar a covid”, diz Malone.

O presidente da SBIm afirma que ainda é possível atingir a imunidade de rebanho com a vacinação, mas seria necessário um esforço maior para que a imunização avançasse em todo o mundo. No Brasil, 76,2% da população foi vacinada com uma dose e 69,29% com as duas doses. No Amapá, por exemplo, de 57% de pessoas vacinadas, somente 38% voltaram aos postos para receber a segunda dose. O Paraná tem 77% da população vacinada e 67% com duas doses. 

“Essa era uma ideia que tínhamos no início da utilização da vacina, de que se atingisse a imunidade de rebanho”, lembra Juarez Cunha. “A partir do momento que tivemos variantes e resposta menor à imunidade vacinal, tivemos que rever esse percentual (para a imunidade de rebanho). A imunidade coletiva continua sendo possível de ser alcançada, mas com percentuais mais altos a partir de uma alta taxa de vacinação”.

Malone costuma compartilhar conteúdos desinformativos

Não é a primeira vez que a equipe do Estadão Verifica checa frases ditas por Robert Malone. Em dezembro, outro vídeo dele começou a circular nas redes sociais. Neste caso, ele fez alegações sobre o perfil de segurança das vacinas infantis contra a covid-19 que utilizam o RNA mensageiro do vírus, que foram desmentidas por especialistas e estudos consultados pelo Estadão

Malone é conhecido por seus discursos antivacina e por espalhar desinformação. Após muitas alegações infundadas, o Twitter suspendeu a conta do médico, que foi desmentido diversas vezes por cientistas estrangeiros. Ele tinha mais de 500 mil seguidores em sua conta, que foi retirada do ar em dezembro. 

Malone é virologista e imunologista. Ele foi um dos primeiros a iniciar pesquisa com uso de RNA mensageiro em vacinas. A tecnologia posteriormente foi desenvolvida por outros pesquisadores e hoje é usada em vacinas contra a Covid-19. 

Situação nos EUA

O presidente americano, Joe Biden, determinou que as empresas com mais de cem funcionários façam exigência de vacinação para trabalhadores nos Estados Unidos, mas a Suprema Corte dos EUA suspendeu a medida, autorizando apenas que funcionários públicos da área da saúde sejam obrigados a vacinar. Além disso, o uso de máscaras também voltou a ser obrigatório no país.

Por isso, grupos antivacina realizam protestos e pedem liberdade individual. Enquanto isso, a variante Ômicron arrastou o país para um novo pico de casos, sendo responsável por mais de 95% das infecções. Em apenas um dia foram registrados mais de 1 milhão de novos casos.


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