Medicamentos comprados no Uruguai custaram R$ 1,5 milhão; remédios não foram ‘cedidos’
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Medicamentos comprados no Uruguai custaram R$ 1,5 milhão; remédios não foram ‘cedidos’

Post viral afirma que cerca de 55 mil remédios foram enviados pelo governo uruguaio ao Rio Grande do Sul e a Santa Catarina de forma gratuita

Pedro Prata

21 de julho de 2020 | 13h09

Atualizada às 14h06 de 21 de julho de 2020.

É falso que o Uruguai tenha cedido 55 mil medicamentos ao Brasil para tratamento da covid-19. Na verdade, os remédios foram comprados pelo Ministério da Saúde a um custo de US$ 298,5 mil (cerca de R$ 1,5 milhão) e distribuídos aos Estados do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, que estavam com seus estoques baixos. O Estadão Verifica checa conteúdos virais nas redes sociais e fez a verificação deste post no Facebook, publicado em 18 de junho, após ele receber 1,4 mil compartilhamentos em 24 horas.

“O Povo Uruguaio merece nossa mais sincera gratidão”, diz a publicação na rede social. O texto também fala que o povo uruguaio “cedeu” os medicamentos ao Brasil. “Não estamos sozinhos, e se há algo a dizer sobre o Uruguai, é que ‘aqui no sul, só pisam buenos!’”

A compra foi divulgada pelo Ministério da Saúde em seu portal de notícias na sexta-feira, 17. O texto explica a compra de 54.867 unidades de medicamentos usados no auxílio da intubação de pacientes em UTI que se encontram em estado grave ou gravíssimo pela covid-19. A compra também foi divulgada pela Secretaria de Saúde do Rio Grande do Sul e pelo governo de Santa Catarina.

Foto: Pixabay/@MonicaVolpin/Reprodução

Os medicamentos comprados são anestésicos, analgésicos e neurobloqueadores, segundo informação de seus registros na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). São eles:

  • 48.867 unidades de propofol (anestésico geral injetável);
  • 5.000 unidades de priaxim (analgésico);
  • 1.000 unidades de dexmedetomidina (neurobloqueador).

Exército fez o transporte em solo brasileiro

A carga com os medicamentos saiu de Montevidéu, capital do Uruguai, e percorreu cerca de 400 km até a Ponte Internacional Mauá, na fronteira com o Brasil. Eles entraram em território brasileiro por volta das 7h de sexta-feira, 17.

Exército apoio medicamentos. Foto: Comunicação Social/Comando Militar do Sul/Divulgação

A partir de então, dez viaturas do Exército Brasileiro fizeram o transporte da carga. Primeiro até o porto seco de Jaguarão, onde foi feito o processo alfandegário necessário para a liberação da carga. Depois, parte dos remédios foi levada para Nova Santa Rita, na região metropolitana de Porto Alegre, e a outra parte para Florianópolis. As informações foram compartilhadas em vídeo gravado pelo Exército, que também foi divulgado no Twitter pelo presidente Jair Bolsonaro (sem partido).

Estoques baixos de medicamentos

No final de junho, o Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) disse que fracassos em licitações estariam deixando Estados à beira de zerar seus estoques de medicamentos essenciais. Empresários alegam escassez mundial dos remédios. O quadro se repete no setor privado: a Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp) informou que 81% das suas unidades têm dificuldade para compra de bloqueadores musculares.

Os sedativos e relaxantes musculares são usados na intubação de pacientes graves com covid-19. Sem estes remédios, a ventilação mecânica não pode ser feita de forma adequada e o paciente corre maior risco de morrer.

Até esta terça-feira, 21, o Brasil acumulava 2.118.646 casos confirmados de covid-19 e 80.120 óbitos. A região Sul tinha 157.772 infectados e 3.336 mortos, segundo dados do Ministério da Saúde. Os números triplicaram na região em um mês.

Em Santa Catarina, o governo dividiu o Estado em 16 regiões, classificadas de 1 a 4 em escala de risco potencial para a covid-19. Destas, sete entraram no risco “gravíssimo”, o mais alto, e outras sete em estado “grave”. As regiões com quadro mais crítico tiveram o transporte coletivo de passageiros suspenso por 14 dias por decreto do governador Carlos Moisés (PSL) na sexta-feira, 17. A medida também proíbe a permanência de pessoas em parques, praças e praias.

Para contingenciar e controlar os estoques dos remédios, todas as cirurgias eletivas que necessitavam de anestesia geral foram suspensas. A Secretaria de Saúde estima que os medicamentos comprados no Uruguai sejam suficientes para um período de 10 a 15 dias.

Situação por regiões no Estado. Foto: Governo de Santa Catarina/Reprodução

Já no Rio Grande do Sul, as cidades foram divididas em 20 regiões organizadas pelo Modelo de Distanciamento Controlado. Elas também seguem um padrão de quatro níveis para determinar o risco da pandemia e, consequentemente, o grau das restrições vigentes. Nesta segunda-feira, 20, 8 regiões eram de “risco altíssimo” (o maior grau de perigo) e as 12 restantes eram consideradas “risco alto”.

O Estado aguarda também o envio de medicamentos por parte do Ministério da Saúde. Para contornar a escassez dos medicamentos, sem os quais a secretária de Saúde Arita Bergmann afirmou “ser impossível vencer o coronavírus”, o governo fechou parceria com o Conselho Regional de Medicina Veterinária (CRMV) para doação de itens liberados pela Anvisa para uso tanto em animais quanto em humanos.

Situação por regiões no Estado. Foto: Governo do Rio Grande do Sul/Reprodução

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

publicidade

publicidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: