Postagem faz comparação enganosa entre média de mortes por covid-19 no Brasil e nos EUA

Postagem faz comparação enganosa entre média de mortes por covid-19 no Brasil e nos EUA

Para criticar presidente norte-americano, Joe Biden, posts nas redes sociais comparam óbitos registrados em períodos de tempo distintos

Daniel Tozzi Mendes, especial para o Estadão

15 de outubro de 2021 | 13h20

Circulam no Facebook, Instagram e TikTok postagens que dizem que a média diária de mortes por covid-19 durante o governo de Joe Biden nos Estados Unidos é maior do que a do Brasil do presidente Jair Bolsonaro. A alegação é enganosa, porque a comparação não utiliza períodos de tempo equivalentes.

De acordo com números da plataforma Our World in Data, mantida pela Universidade de Oxford, entre 21 de janeiro de 2021 (data da posse de Biden como presidente dos EUA) e 13 de outubro foram registradas 301.683 mortes nos Estados Unidos. No Brasil esse número foi de 387.427 — 85.744 mortes a mais. 

Ou seja, nesse período a média de mortes diárias do Brasil foi de 1.461, patamar superior ao registrado nos Estados Unidos, que foi de 1.138 mortes em decorrência da doença por dia. 

Vale lembrar, no entanto, que a população norte-americana é maior que a brasileira. São 329,5 milhões de habitantes nos EUA, contra 212,6 milhões no Brasil. Isso faz com que, proporcionalmente, o desempenho do Brasil no período seja ainda pior.

Até agora, no período Biden, os Estados Unidos apresentam um número de 915 mortes em decorrência da covid-19 a cada milhão de habitantes. No Brasil, esse número é praticamente duas vezes maior: são 1.822 óbitos por covid para cada 1 milhão de brasileiros.

Com 601.574 mortes, o Brasil é o segundo país com mais óbitos registrados em decorrência da doença no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, que somam 719.558 mortes. Em números proporcionais (mortes por milhão de habitantes), no entanto, o Brasil ocupa a 7ª posição no ranking de países com mais mortes, enquanto os EUA aparecem em 17º. 

Veja abaixo o gráfico que compara o número de mortes por covid a cada milhão de habitantes nos Estados Unidos (linha azul) e no Brasil (linha vermelha). O período mostrado é a partir do dia 21 de janeiro de 2021.

O que causou a distorção

A postagem enganosa contrapôs dados de períodos distintos. O número de mortes diárias por covid-19 nos Estados Unidos de Joe Biden — que é presidente há 265 dias — só é superior ao do Brasil se comparado ao tempo total de pandemia no País — 575 dias, desde o registro da primeira morte por covid-19 em solo brasileiro. 

Tal comparação, no entanto, não faz sentido. Além de serem períodos de tempo muito distintos, a disseminação do novo coronavírus evoluiu com muito menos velocidade nos primeiros meses de pandemia. Biden, por sua vez, quando assumiu o mandato nos Estados Unidos, enfrentou um dos momentos mais críticos do enfrentamento à covid-19 no país, com o surgimento de novas variantes da doença.

Atualmente, considerando a média móvel de novas mortes por covid-19, a situação nos Estados Unidos é pior do que no Brasil. A média móvel é calculada com base nos óbitos registrados nos últimos sete dias e é um indicativo atual da letalidade e do ritmo da pandemia. No Brasil, atualmente, a média móvel de novas mortes por milhão de habitantes está em 1,48, enquanto nos Estados Unidos, o índice registrado é de 4,91, também de acordo com os números da Our World in Data. 

Abaixo, o gráfico que demonstra a média móvel de mortes por covid-19 nos Estados Unidos (linha azul) e no Brasil (linha vermelha). O período mostrado é a partir do dia 21 de janeiro, e os números são relativos à população de cada país.

O gráfico aponta que, entre março e agosto deste ano, o Brasil apresentava, proporcionalmente, uma média móvel de mortes superior à dos EUA. No dia 1º de abril, a disparidade entre os dois países era tão grande que o índice registrado nos Estados Unidos foi de 2,67 novos óbitos por milhão de habitantes, ante 14,57 no Brasil. Este cenário começou a se inverter a partir do último dia 26 de agosto, quando os dois países registraram médias móveis próximas a 3,4 mortes por milhão de habitantes. A partir daí, a tendência foi de queda acentuada no Brasil e de aumento nos Estados Unidos. 

Esse movimento coincide com o momento em que o ritmo de vacinação no Brasil passou a ser mais acelerado do que nos EUA. Na última quarta-feira, 13, o Brasil atingiu a marca de 100 milhões de pessoas totalmente imunizadas (com as duas doses da vacina ou dose única), o que corresponde a 47% da população. Os EUA atualmente têm 56% da população completamente imunizada, mas essa porcentagem vem crescendo lentamente — o índice de 50% foi atingido há mais de dois meses, no início de agosto.

Em relação ao total de vacinados com uma dose, o Brasil já supera os Estados Unidos. São pouco mais de 70% de brasileiros que iniciaram o esquema vacinal, contra cerca de 65% dos norte-americanos. Embora os EUA tenham começado o programa de vacinação em larga escala antes do Brasil, e contem com vacinas disponíveis a todos os habitantes, o país tem encontrado dificuldade para aumentar o número de pessoas dispostas a se imunizar. O governo de Biden tem enfrentado um movimento anti-vacinação no país.

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