Em vídeo, comentarista tenta negar o golpe de 1964 com informações distorcidas e enganosas

Em vídeo, comentarista tenta negar o golpe de 1964 com informações distorcidas e enganosas

Gravação feita em 2019 e compartilhada por Jair Bolsonaro deturpa fatos sobre exílio de João Goulart no Uruguai e Campanha da Legalidade

Clarissa Pacheco

31 de março de 2022 | 20h50

Um vídeo com afirmações enganosas sobre o golpe militar de 1964 voltou a circular nas redes nesta quinta-feira, 31, data que marca 58 anos do início da ditadura militar no Brasil. Gravado em 2019 e compartilhado pelo próprio presidente Jair Bolsonaro (PL) em seu canal no YouTube, o vídeo é um comentário feito pelo jornalista gaúcho Paulo Martins. Ao se colocar como testemunha dos acontecimentos, porém, Martins erra datas e apresenta informações enganosas.

O comentarista diz que os militares não deram um golpe, e sim assumiram o governo, porque o então presidente João Goulart havia fugido do País — isso não é verdade, já que Jango estava em Porto Alegre no dia 1º de abril e só chegou ao Uruguai três dias depois. O jornalista afirma ainda ter participado da Campanha da Legalidade em 1964 — mas o ano em que ela ocorreu é 1961.

Leia abaixo a checagem das falas do comentarista.

Brasil, São Paulo, SP. 14/10/1968. Policial observa manifestação do Movimento Estudantil contra a censura imposta pela ditadura militar, meses antes da aprovação do AI-5 (Ato Institucional Nº5), que concedia poderes absolutos ao presidente durante o regime militar. Crédito: ARQUIVO/ESTADÃO CONTEÚDO/AE/Codigo imagem:31227Policial o Foto: Arquivo/Estadão Conteúdo

Jango fugiu do País?

Martins diz que os militares só assumiram o governo do Brasil porque o então presidente, João Goulart, fugiu do país em direção ao Uruguai e deixou a Presidência da República vaga. Isso não é verdade, segundo explica o historiador e professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA) Carlos Zacarias, pesquisador do Centro de Estudos e Pesquisas em Humanidades. “A historiografia sabe por documentos que João Goulart se encontrava no País, em Porto Alegre (RS). Sim, ele sai de Brasília (DF), vai para Porto Alegre quando há o movimento, mas ele permanecia em solo nacional, ele não deixou vaga a Presidência da República.”

O professor acrescenta que esta circunstância caracteriza o golpe de 1964. “Jango estava em Porto Alegre quando Auro de Moura Andrade (presidente do Congresso Nacional) declarou a vacância da Presidência da República, do dia 1º para o dia 2 de abril de 1964. Aí sim Ranieri Mazzilli (presidente da Câmara dos Deputados) assume e depois empossa os militares. Isso caracteriza um golpe, porque não havia vacância da Presidência da República, já que o presidente estava no Brasil.”

Segundo o Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Goulart viajou no dia 1º do Rio para Brasília. De lá, partiu para Porto Alegre. Ele só chegaria a Montevidéu, no Uruguai, no dia 4 de abril de 1964, como mostra a historiadora Célia Maria Leite Costa em texto publicado pelo CPDOC.

Houve participação civil no golpe?

Outra declaração enganosa do autor do comentário é de que os militares não tiveram atuação no golpe e que este teria sido gestado, na verdade, por civis, que foram às ruas pedir pela intervenção com movimentos como a Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Carlos Zacarias explica que o golpe teve, sim, articulação de setores empresariais, da imprensa e de civis, mas isso não exime os militares de participação – e nem indica que a população participou dos atos porque desejava uma ruptura institucional.

De acordo com o pesquisador, o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipes) e o Instituto Brasileiro de Ação Democrática (Ibad) foram fundamentais para o movimento conspiracionista. Segundo o CPDOC, o primeiro foi criado em 1961 e o segundo, em 1959. As duas instituições promoveram campanhas para associar ao comunismo o governo Goulart e seu programa de reformas de base.

Zacarias ressalta ainda que a Marcha da Família com Deus pela Liberdade só ocorreu uma vez antes do golpe. De acordo com o CPDOC, a primeira das manifestações foi organizada em 19 de março de 1964, em São Paulo. Já depois da derrubada de Goulart ocorreram as chamadas “Marchas da Vitória”, em diferentes capitais.

O professor cita também pesquisas de opinião do Ibope realizadas antes do golpe, que indicam que a maioria não rejeitava o governo Goulart. Essas pesquisas foram divulgadas em 2003 pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), com base em acervo do Ibope doado ao Arquivo Edgard Leuenroth (AEL).

Segundo publicou a Unicamp, nos últimos dez dias de governo civil antes do golpe, uma pesquisa feita na cidade de São Paulo sob encomenda da Federação do Comércio do Estado de São Paulo mostrou que 7% dos entrevistados consideravam o governo ótimo, 29% o viam como bom e 30% o  achavam regular. Outros 7% apontavam o governo como ruim, 12% como péssimo e 9% não quiseram ou não souberam opinar.

“A pesquisa mencionada no início, aparentemente, visava perscrutar junto à população o impacto de uma derrubada do governo. Uma maioria acima de 80% dos entrevistados tinha conhecimento dos recentes decretos de João Goulart, que determinavam a encampação das refinarias de petróleo, a desapropriação das terras que margeiam açudes, ferrovias e rodovias federais, e o tabelamento dos aluguéis – medidas aprovadas por 64% e reprovadas por 20%”, diz texto publicado na época pelo Jornal da Unicamp.

Goulart era comunista?

Um dos principais argumentos usados por apoiadores da ditadura, inclusive na atualidade, é de que o golpe militar foi necessário para impedir a implantação do comunismo no Brasil. Para Zacarias, este é outro argumento mentiroso, porque Jango não era comunista.

João Goulart passa em revista as tropas que o derrubariam Foto: Acervo Estadão – 23/10/1962

Segundo o professor, não havia nenhum risco de implementação do comunismo no Brasil. “João Goulart era um político nacionalista, da tradição trabalhista, ligado ao brizolismo, vinculado aos interesses de uma burguesia brasileira, sempre associada ao capitalismo internacional”, comenta.

Zacarias ressalta que o Partido Comunista Brasileiro (PCB) e sua dissidência, o Partido Comunista do Brasil (PCdoB), eram pequenos àquela época. Outras organizações de esquerda – a Polop e a AP – também tinham pouca representação, diz o pesquisador. “É uma grande farsa, nenhum historiador aponta que havia risco de comunismo e só os anticomunistas empedernidos é que dizem isso”, completa.

Em 2019, em entrevista ao site Café História, o historiador Carlos Fico, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), também negou a possibilidade de uma ameaça comunista no Brasil e acrescentou que Jango não era comunista. “Os comunistas tinham pouca força política naquele momento, embora houvesse, de fato, muitas greves e manifestações lideradas por comunistas”, disse. “Mas isso está muito longe de permitir a suposição de que houvesse qualquer possibilidade de uma revolução comunista no Brasil.”

Ao UOL, também em 2019, João Goulart Filho afirmou que o pai “nunca foi comunista”. Para ele, o principal objetivo de Jango era a reforma agrária. “A reforma agrária era o pesadelo das elites rurais brasileiras, que não paravam de afirmar, caluniar, denegrir o governo classificando-o de ‘comunista’. A reforma agrária de Jango era uma reforma capitalista.”

A Campanha da Legalidade ocorreu em 1964?

No comentário, Paulo Martins se coloca como testemunha ocular da história – mas a memória parece tê-lo traído. Isso porque, ao afirmar que Jango não sofreu um golpe, e sim que fugiu do País, ele cita a chamada Campanha da Legalidade, na qual afirma ter atuado de maneira forçada quando trabalhava na Rádio Farroupilha, no Rio Grande do Sul.

Mas a Campanha da Legalidade não ocorreu em 1964, às vésperas do golpe, e sim em 1961. Naquele ano, o presidente Jânio Quadros renunciou, levando o País a momentos de instabilidade. Havia os que defendiam a manutenção da ordem jurídica, com a posse do vice-presidente João Goulart. Deste lado, a maior representação política era do então governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, que promoveu a Campanha da Legalidade.

“Brizola ameaçou pegar em armas, mobilizou o terceiro exército para lutar contra os militares golpistas que não queriam a posse de Goulart, e essa mobilização foi o que garantiu o acordo que deu origem ao parlamentarismo e, em seguida, à votação que restituiu o presidencialismo no Brasil”, aponta Carlos Zacarias.

A Campanha da Legalidade foi abordada pelo jornalista Juremir Machado da Silva no livro Brizola, Vozes da Legalidade – política e imaginário na era do rádio (Editora Sulina, 2011). No livro-reportagem, Juremir tratou da ideia de Brizola de requisitar a Rádio Guaíba para montar uma rede de transmissão de discursos a fim de convencer a população da legalidade da posse de Jango.

Vídeo foi publicado por Bolsonaro em 2019

O vídeo completo tem quase seis minutos de duração e foi transmitido em março de 2019 pela TV Tarobá, de Cascavel (PR), onde Paulo Martins atua como comentarista. Bolsonaro republicou o comentário no YouTube no dia 30 de março de 2019, com legenda em alusão a “quem viveu por dentro” de 1964. Também naquele ano, a Secretaria de Comunicação da Presidência divulgou uma campanha em comemoração ao golpe, sugerindo que os mais jovens consultassem os que viveram o período para saber o que realmente aconteceu.

Na ocasião, o professor Guilherme Wisnik, da Universidade de São Paulo (USP), disse que a campanha da Secom era uma tentativa de reescrever a história do Brasil. “Evidentemente, eles estão tentando reescrever a história considerando que todo mundo é burro, porque é de uma leviandade atroz”, disse, em entrevista à Rádio USP. “Depois de tanto tempo de denúncias dos horrores da ditadura, das várias fundações que foram criadas ligadas às famílias das pessoas que foram mortas, que foram torturadas, depois da Comissão da Verdade, depois de todo um processo que envolveu décadas de reabertura democrática, a gente chega nesse ponto”, completou.

O Estadão Verifica procurou o autor do vídeo, Paulo Martins, por e-mail, mas não recebeu resposta até a publicação deste texto.


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