Citação é falsamente atribuída a George Orwell para criticar medidas de isolamento social

Citação é falsamente atribuída a George Orwell para criticar medidas de isolamento social

Escritor inglês não disse que governos podem 'controlar o povo' impondo o 'medo da morte'; frase que viralizou não aparece na obra '1984'

Carla Melo, especial para o Estadão

19 de outubro de 2021 | 19h39

É falso que o inglês George Orwell tenha escrito no livro 1984 que governos podem “controlar o povo” impondo “medo da morte”. Não há qualquer registro da frase na obra. A citação que circula nas redes sociais tem sido usada por grupos conservadores para justificar críticas a medidas de isolamento social na pandemia.

Um dos posts com a frase falsamente atribuída a Orwell teve 21 mil compartilhamentos e 925 comentários no Facebook. O trecho que aparece na postagem é o seguinte: “Para controlar um povo e tomar o poder, tem que conhecer seus medos, e o maior medo das pessoas é da morte. Quando se tornam escravos do medo, é fácil convencê-los que o Estado irá salvá-los”. 

O Estadão Verifica procurou por essa citação na versão brasileira de 1984, publicada pela Companhia das Letras, mas não encontrou qualquer registro. Também consultamos o gerente de programa da The Orwell Foundation, Jeremy Wikeley, que negou relação da frase com o escritor inglês. A Orwell Foundation é uma instituição sediada em Londres que preserva o legado do autor.

“Como você descobriu, não acho que haja uma conexão entre esta frase e o livro”, disse Wikeley. “Eu pesquisei alguns pedaços da frase no e-book e não encontrei nada e, além disso, simplesmente não parece nada que eu reconheço. Acho que você pode ter certeza ao dizer que a frase não é autêntica. Existem muitas citações falsas circulando hoje em dia e são frequentemente tiradas do contexto.”

As postagens contendo a citação foram compartilhadas geralmente por grupos conservadores na defesa de que ações de lockdown, isolamento social e uso de máscara não são eficazes contra a covid-19 — o que não é verdade. 

Nos comentários do post, algumas pessoas chegam a afirmar que a obrigatoriedade do uso da máscara e o distanciamento social são “perdas de liberdade individual” e que o “governo, a comunicação social e alguns médicos” são responsáveis por impor uma “ditadura sanitária” na população.

1984, de George Orwell

Segundo Wikeley, além de a frase não estar presente na obra, não há passagem no livro que se conecte com o conteúdo ou até mesmo com o pensamento de Orwell.

“É importante enfatizar que o livro é um romance, não uma obra de história ou teoria, mas mesmo assim Orwell nunca destaca nosso ‘medo da morte’ como sendo o meio pelo qual Ingsoc, o partido governante, assumiu ou mantém o controle da Oceânia”, explicou. “Quando Orwell descreve o medo que o Ingsoc provoca em seus membros, a emoção quase sempre se confunde com outras, como raiva, ódio ou repulsa.”

Publicado em 1949, o livro 1984 é uma crítica ao totalitarismo. O protagonista é Winston Smith, funcionário de um dos quatro ministérios que governam a Oceânia. Sua função é reescrever os editoriais do Times no Ministério da Verdade, para que os textos se adequem à versão que o Partido que controla a sociedade tem dos eventos. Os personagens do livro vivem sob a vigilância do Grande Irmão, a mais famosa personificação literária de um poder totalitário. 

Wikeley mencionou ao Estadão Verifica outra passagem com a palavra ‘medo’ na obra, que se aproxima mais adequadamente do que o autor realmente alertava em seu pensamento no romance: “No ‘livro dentro de um livro’, que Winston lê para Julia, e que é considerada a filosofia fundadora do partido, afirma-se que: ‘Até o membro mais humilde do Partido deve ser competente, trabalhador e até inteligente dentro de limites estreitos, mas também é necessário que ele seja um fanático crédulo e ignorante cujos humores predominantes são o medo, o ódio, a adulação e o triunfo orgiástico’. Isso — ‘medo, ódio, adulação e triunfo orgiástico’ – parece-me uma representação muito melhor da combinação tóxica de emoções contra a qual Orwell estava alertando”.


Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

publicidade

publicidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.