Funcionário do Datafolha agiu corretamente ao recusar pedido de participação em pesquisa
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Funcionário do Datafolha agiu corretamente ao recusar pedido de participação em pesquisa

Não entrevistar pessoas que se candidatam a participar é protocolo padrão de levantamentos de intenção de voto, para evitar viés nos resultados; vídeo que circula nas redes sociais é antigo, mas voltou a ser compartilhado

Victor Pinheiro

14 de maio de 2021 | 14h23

É enganoso um vídeo no qual um homem questiona a validade de pesquisas do Datafolha porque um entrevistador não aceitou seu pedido para participar do questionário. Segundo especialistas consultados pelo Estadão, o funcionário da empresa agiu corretamente e seguiu um protocolo comum no setor para evitar desvios nos resultados do levantamento. 

A mesma gravação circulou em plataformas digitais durante o período eleitoral de 2018. Em reportagem publicada na Folha naquele ano, o Datafolha destacou que o procedimento de entrevistadores recusarem a participação de quem se autocandidata era padrão no mercado de pesquisas de opinião.

O conteúdo, no entanto, voltou a ganhar tração nas redes sociais e aplicativos de mensagens na esteira de uma nova pesquisa do instituto que indicou uma possível vitória do ex-presidente Lula sobre Jair Bolsonaro no segundo turno da disputa presidencial de 2022. Uma publicação do pastor Silas Malafaia, no Facebook, acumulava mais de 26 mil compartilhamentos até a manhã desta sexta-feira, 14.  Leitores também sugeriram a verificação do vídeo por meio do WhatsApp do Estadão Verifica (11) 97683-7490

Procedimento padrão

No vídeo, um rapaz filma um entrevistador do Datafolha na rua e reclama: “eu quero entrevistar e o cidadão não quer. Por quê? Porque eu não sou petista?”. O professor de Ciência Política da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Felipe Nunes afirma que as críticas do vídeo são infundadas.

Segundo o especialista, que também é fundador do instituto de pesquisas Quaest, é uma regra em todo o campo de pesquisa nunca entrevistar pessoas que se oferecem para participar. “Se a própria pessoa aborda o pesquisador, provavelmente ela tem o interesse de influenciar o resultado de algum jeito”, explica Nunes. 

O coordenador do Centro Brasileiro de Estudos e Pesquisas sobre a Democracia (Cebrad) da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, Geraldo Monteiro, também destaca que cabe ao entrevistador, e não ao entrevistado, escolher quem vai responder ao questionário. 

Ele pontua que a escolha dos participantes obedece a parâmetros estatísticos e a um plano de trabalho definido anteriormente pelo instituto de pesquisa. “Este plano contempla um número de entrevistas que obedece às proporções entre homens e mulheres, faixas etárias, níveis de escolaridade, renda, entre outros quesitos. A escolha de cada entrevistado passa pelos princípios da neutralidade e da aleatoriedade”, afirma Monteiro.

O princípio da neutralidade consiste em nunca entrevistar pessoas que manifestam explicitamente preferências políticas. Por exemplo, indivíduos com roupas com marcas de partido ou pessoas próximas a atos de campanha eleitoral. Já o princípio da aleatoriedade, significa que a escolha dos participantes deve ser casual. 

“Se preciso entrevistar uma mulher entre 34 e 45 anos, devo escolher qualquer mulher que se encaixe nesse perfil. Assim, garantimos a representatividade da amostra e a confiabilidade dos resultados.”, destaca. 

Amostragem

Nunes afirma que os planos de pesquisa de intenção de voto nacionais levam em conta as características socioeconômicas da população do País, incluindo fatores como escolaridade e renda, para definir a amostragem da pesquisa. Com base nisso, os institutos sorteiam os locais de pesquisa e definem uma proporção para a quantidade de pessoas de diferentes perfis socioeconômicos que devem ser entrevistadas.

Essas proporções são distribuídas em cotas para os pesquisadores. Um entrevistador, por exemplo, recebe a missão de perguntar a intenção de voto a um determinado número de pessoas com renda de até dois salários mínimos. Um segundo funcionário em outra região pode ser incumbido de questionar um outro número de pessoas de uma outra faixa de renda.

O especialista destaca que, no caso do Datafolha, os pesquisadores são distribuídos em pontos de passagem de pessoas nos locais selecionados. Outros institutos de pesquisa optam por entrevistar os participantes diretamente em domicílios sorteados, seguindo os parâmetros do plano de pesquisa.

Na matéria do jornal Folha de S. Paulo publicada em 2018 sobre o vídeo, o Datafolha afirmou que faz uma divisão de municípios brasileiros por porte e então realiza sorteios para selecionar as cidades e os pontos de entrevista. Os funcionários são orientados a abordar as pessoas de forma aleatória na rua. 

Todos esses procedimentos são adotados exatamente para balancear proporcionalmente os diferentes perfis socioeconômicos no país e chegar a uma amostra mais representativa possível da população brasileira. Ou seja, a acusação do vídeo de que as pesquisas selecionam uma parcela pobre de brasileiros para favorecer um partido é insustentável.

O relatório do último levantamento de intenção de voto que indica a vitória do ex-presidente Lula no segundo turno contou com 2.071 participantes. Os dados da amostra segmentados por sexo, idade, escolaridade, renda, entre outras divisões, estão descritos na página dez do documento.

Guerra de narrativas

Para Nunes, existe no Brasil uma disputa de narrativas em torno de pesquisas eleitorais. Ele argumenta que os estudos de opinião pública não são conduzidos para acertar exatamente o resultado das eleições. 

“As pesquisas de opinião são feitas para nos ajudar a entender as tendências na mudança de opinião pública ao longo de um governo, das eleições”, destaca. 

O Estadão Verifica já desmentiu outros boatos que envolvem pesquisas de opinião. No ano passado, mostramos que uma postagem usava dados falsos para alegar que a rejeição de Bolsonaro chegava a 85%. No ano anterior, uma reportagem desmentiu artigos que manipulavam dados para sugerir um aumento na popularidade do presidente. Já em 2018, alertamos sobre uma pesquisa falsamente atribuída ao Datafolha.

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