Foto de médico chinês morto em 2016 é tirada de contexto para criticar descaso com a quarentena
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Foto de médico chinês morto em 2016 é tirada de contexto para criticar descaso com a quarentena

Postagens no Facebook criticam “irresponsabilidade” das pessoas enquanto profissionais de saúde morrem no Brasil

Samuel Lima, especial para o Estado

18 de junho de 2020 | 17h14

Postagens com mais de 19 mil interações no Facebook criticam a “irresponsabilidade” das pessoas na quarentena ao mostrar a foto de um grupo de médicos fazendo reverência a uma pessoa morta no leito de um hospital. O conteúdo sugere que um profissional de saúde morreu de covid-19 tratando pessoas infectadas pelo novo coronavírus, ao mesmo tempo que a população frequenta lojas, centros e shoppings “como se nada estivesse acontecendo”. Porém, a imagem foi tirada de contexto para ilustrar a narrativa.

Postagens usam foto antiga para criticar ‘irresponsabilidade’ das pessoas enquanto médicos morrem no Brasil. Foto: Reprodução / Arte Estadão

Na verdade, a foto mostra uma homenagem ao médico chinês Zhao Ju, que morreu em setembro de 2016, aos 41 anos. A causa da morte foi a ruptura de um aneurisma cerebral, descoberto enquanto ele prestava serviços voluntários em Shannan, no Tibete, região autônoma chinesa ao norte do Himalaia. As informações constam em reportagem do canal de notícias internacional CGTN, com sede em Pequim, na China, publicada em 30 de setembro de 2016, mais de três anos antes do início da pandemia.

De acordo com a CGTN, os colegas médicos foram fotografados prestando homenagem a Zhao Ju em um hospital na cidade de Hefei, capital da província de Anhui, na China, onde trabalhava anteriormente. A família do médico respeitou seus últimos desejos e doou seus rins, fígado e córneas.

Apesar de usar uma imagem sem qualquer relação com a pandemia do novo coronavírus, é fato que profissionais de saúde brasileiros estão expostos ao risco de contaminação. Relatório divulgado pelo Ministério da Saúde aponta que, até 12 de junho, 83 mil trabalhadores da área testaram positivo e 169 morreram por covid-19.

No total, o Brasil registrou 960.309 casos confirmados e 46.665 óbitos até esta quarta-feira, 17, segundo levantamento realizado pelo consórcio formado por Estadão, G1, O Globo, Extra, Folha e UOL junto às secretarias estaduais de saúde. Foram contabilizados 31.475 novos casos e 1.209 mortes em 24 horas.

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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