Dados do CDC desmentem blogs sobre 12 mil mortes relacionadas a vacinas

Dados do CDC desmentem blogs sobre 12 mil mortes relacionadas a vacinas

Blogs divulgam dados reportados por qualquer profissional da saúde e que ainda carecem de investigação para confirmar ou descartar relação com imunizantes

Pedro Prata

02 de fevereiro de 2022 | 19h27

Blogs contrários à vacinação causam confusão ao dizer que os Estados Unidos teriam “registrado 12 mil mortes relacionadas a vacinas contra a covid-19”. A tática usada já é antiga: apresentar os números do sistema de notificação de eventos adversos de vacinas (VAERS, na sigla em inglês), sem a devida explicação.

O Centro de Controle de Doenças, responsável pela ferramenta, informou ao Estadão Verifica que foram confirmadas 9 mortes com causa atribuída aos imunizantes. Em contrapartida, o país já tinha aplicado 535 milhões de doses até janeiro de 2022.

O VAERS é uma ferramenta de farmacovigilância. As autoridades norte-americanas exigem que seja informada qualquer morte ocorrida depois da aplicação de uma vacina contra a covid-19. O CDC informa em seu site que recebeu 11.657 relatos de mortes (0,0022% do total de doses aplicadas). Mas isso não quer dizer que elas foram realmente causadas pelos imunizantes. Após serem recebidas, elas passam por uma investigação do CDC e da Food and Drugs Administration (FDA). São analisados o histórico médico da pessoa, o certificado de óbito e o resultado de autópsia, além dos detalhes clínicos do caso. Somente após esse processo rigoroso é que se confirma ou descarta que o evento adverso foi causado pela vacina.

“Até o momento, o CDC não identificou nenhum padrão que indicasse que as vacinas contra a covid-19 estariam causando mortes”, disse o órgão por e-mail.

Chamadas de blogs dão dados alarmistas sem contexto. Foto: Reprodução

Sistema serve de alerta para autoridades

Quando é observada a ocorrência não esperada de um evento adverso, os técnicos entram em ação. Foi assim que eles suspenderam temporariamente a aplicação da vacina da Janssen, em abril de 2021. Na ocasião, foram observados seis casos de trombocitopenia em vacinados. A investigação durou dez dias e concluiu que o evento adverso estava, sim, relacionado aos imunizantes da fabricante. Essa informação foi atualizada na bula. No entanto, a sua ocorrência é tão rara que a agência regulatória optou por retomar a aplicação dos imunizantes da Janssen. Também sugeriu que mulheres entre 30 e 49 anos evitassem a farmacêutica e se vacinassem com imunizantes de outras empresas, como Pfizer e  Moderna. Até 20 de janeiro de 2022, mais de 18 milhões de doses da Janssen foram aplicadas. Neste período, foram confirmados 57 casos de trombocitopenia (0,0003%) e 9 mortes.

O CDC também confirmou 1.233 casos de miocardite em pessoas imunizadas com vacinas da Pfizer-BioNTech ou Moderna. O risco raro para essas condições também foi adicionado nas bulas dos imunizantes. Nenhuma morte foi confirmada pelos órgãos regulatórios e as duas vacinas somam 513 milhões de doses aplicadas.

Por fim, o CDC também recebeu 302 relatos preliminares da ocorrência da síndrome de Guilain-Barré em pessoas vacinadas com o imunizante da Janssen. O órgão não informa quantos destes foram confirmados, mas afirma que são eventos raros diante do total de doses aplicadas.

Nas redes sociais

Nas redes, os textos sem a explicação sobre os dados do CDC causam confusão. No Twitter, um dos usuários escreveu: “Mais de 12 mil cadáveres vítimas das picadas!”, referindo-se às vacinas. Outro mencionou que os números seriam “ocultos pela indústria farmacêutica”, embora os dados sejam publicamente divulgados pelas agências regulatórias.


Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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