É falso que vacinas contra a covid-19 utilizem tecnologia nunca antes testada em humanos
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É falso que vacinas contra a covid-19 utilizem tecnologia nunca antes testada em humanos

Produtos passaram por etapas rigorosas de testes até a aprovação pelas autoridades sanitárias de diversos países, ao contrário do que afirma farmacêutica bioquímica em vídeo viral

Samuel Lima, especial para o Estadão

12 de fevereiro de 2021 | 12h41

Um vídeo divulgado por uma página chamada “TVCH” viralizou nas redes sociais com uma série de alegações falsas sobre a segurança das vacinas contra a covid-19, entre elas a de que não foram “devidamente testadas” antes de serem aplicadas na população. Ao contrário do que sugere o conteúdo, os imunizantes passaram por testes rigorosos com milhares de pessoas até obter a aprovação de uso emergencial ou definitivo por órgãos regulatórios de diversos países. Especialistas também descartam a possibilidade de as vacinas causarem alterações genéticas, boato recorrente ao longo da pandemia. 

Vídeo viral sugere que vacinas contra a covid-19 não foram testadas, o que não é verdade. Foto: Reprodução / Arte Estadão

O vídeo mostra um diálogo entre duas pessoas e foi publicado no Facebook em 8 de janeiro. As afirmações partem de Patrícia Caram, que não é médica. Na internet, ela se apresenta como farmacêutica bioquímica e “especialista em suplementação, medicina preventiva, longevidade e epigenética”. Patrícia coloca em dúvida a segurança das vacinas aprovadas contra a covid-19 sob o argumento de que elas teriam sido feitas “numa forma de RNA trans, que é totalmente feito em laboratório, totalmente sintético, e que nunca foi testado em humanos”. Embora a tecnologia das chamadas vacinas mRNA esteja sendo usada em larga escala pela primeira vez na história no atual combate à pandemia de convid-19, a afirmação de que nunca houve testes em humanos é falsa. Desde 2011 pessoas são inoculadas com  vacinas mRNA, em caráter experimental, para combater câncer, raiva, zika e outras doenças. 

Laboratórios de todo o mundo investem em diferentes tipos de vacinas contra a covid-19. Entre as 67 que já foram testadas em humanos, somente sete funcionam por meio da tecnologia de RNA mensageiro, ou mRNA, de acordo com levantamento da Organização Mundial da Saúde (OMS). É o caso dos produtos da BioNTech/Pfizer e da Moderna, aprovados em caráter emergencial nos Estados Unidos pelo Food and Drug Administration (FDA) ainda em dezembro. 

A Coronavac, por outro lado, uma das vacinas que estão sendo usadas no Brasil, utiliza um método diferente para “ensinar” o sistema imunológico a combater o coronavírus. Os pesquisadores usam um vírus inativado, que não pode se replicar dentro das células, mas que continua sendo eficiente para gerar uma resposta imune do corpo. Essa é considerada uma abordagem tradicional, que aparece em vacinas desde a década de 1950 para diferentes tipos de doenças, como poliomielite, raiva e hepatite A.

O fato é que todos os potenciais imunizantes, seja qual for a base de produção, passam obrigatoriamente por uma série de testes até a aprovação pelos órgãos de vigilância sanitária. O processo envolve a pesquisa inicial e testes em animais e em seres humanos, geralmente em três etapas, com milhares de voluntários. E, mesmo depois de aprovada, cientistas e autoridades de saúde continuam acompanhando a aplicação em larga escala da vacina para detectar possíveis efeitos adversos (veja nesta reportagem do Estadão o passo a passo). 

No caso das vacinas americanas, por exemplo, 15.210 voluntários receberam o produto da Moderna e 21.720 pessoas, a vacina da Pfizer, considerando apenas a etapa final de ensaios clínicos. Esses participantes foram monitorados, em média, por mais dois meses após a aplicação da segunda dose. As reações adversas mais comuns foram dores no braço, febre, cansaço, dores de cabeça e dores musculares — sintomas semelhantes aos causados por outras vacinas estabelecidas há décadas no mercado. Não foram registrados eventos inesperados. Os resultados foram publicados na revista científica The New England Journal of Medicine em dezembro.

O mesmo vale para as duas vacinas que estão sendo aplicadas hoje no Brasil. A vacina de Oxford/Astrazeneca teve 23.848 participantes imunizados na etapa final das pesquisas, segundo artigo publicado na revista The Lancet. A Coronavac, do laboratório Sinovac, contou com a participação de 30 mil voluntários, conforme informações prestadas pelo Instituto Butantan, e cerca de 50% receberam de fato as doses do produto (os dados da fase 3 ainda não foram publicados em artigo científico). No início de janeiro, a Anvisa analisou os resultados clínicos de ambas e concluiu que são eficazes e seguras para a população, autorizando o uso em todo o território nacional no dia 17 de janeiro.

Não há indícios de que vacinas possam causar alterações genéticas

Em outro trecho do vídeo, Patrícia Caram diz conhecer pareceres de médicos e cientistas que concluíram que a tecnologia de RNA mensageiro jamais poderia interferir no DNA humano, mas que duvida disso. “Eu não sei, porque uma vacina de RNA trans entra em contato direto com o nosso DNA e algum tipo de alteração vai causar”, afirma ela. A alegação também não é verdadeira e já foi desmentida várias vezes pelo Estadão Verifica e por outras agências de checagem nos últimos meses. Não há qualquer evidência de que as vacinas contra a covid-19 possam causar alterações genéticas.

As substâncias contidas nas vacinas de mRNA, por exemplo, sequer chegam perto do núcleo das células, onde fica armazenado o DNA. O RNA mensageiro é uma espécie de “receita” sintetizada em laboratório para que o organismo produza uma proteína do novo coronavírus chamada spike. A mensagem é lida por estruturas que ficam localizadas fora do núcleo das células, os ribossomos, em uma área denominada citoplasma, e se degrada rapidamente. Essas proteínas produzidas a partir das instruções acabam “treinando” o sistema imunológico a combater o vírus. É a primeira vez que esse tipo de vacina está sendo usada no mundo, mas a tecnologia é estudada há mais de duas décadas.

Existe um outro tipo de vacina genética baseada em DNA que precisa, de fato, entrar no núcleo das células para funcionar. Nesse caso, a proteína spike está codificada em um gene e precisa antes ser transcrita em RNA mensageiro para ser produzida. Esse processo ocorre exclusivamente no núcleo das células. Depois disso, o processo é idêntico, com a fabricação da proteína a partir da “receita” fora do núcleo e a esperada resposta imunológica. Apesar da diferença, os especialistas destacam que a presença da sequência genética estranha no núcleo não significa que ele seja capaz de integrar o código genético humano. 

“Dentro do núcleo há uma série de enzimas que fazem, entre aspas, o patrulhamento da qualidade do nosso DNA para evitar exatamente que aconteçam mutações indesejadas”, explicou o virologista da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Flávio Fonseca em checagem recente. O Estadão Verifica e o Projeto Comprova já conversaram com cinco especialistas sobre o mesmo assunto anteriormente e todos refutaram a possibilidade de as vacinas apresentarem algum risco de modificação do DNA.

Leitores solicitaram a checagem deste conteúdo pelo WhatsApp do Estadão Verifica: (11) 9 7683-7490. A reportagem tentou contato com Patrícia Caram por e-mail nesta terça-feira, 9 de fevereiro, mas não obteve resposta.

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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