É falso que Rancho Queimado, em Santa Catarina, tenha zero mortes por covid-19

É falso que Rancho Queimado, em Santa Catarina, tenha zero mortes por covid-19

Informação aparece em vídeo viral que promove tratamento precoce sem comprovação científica

Pedro Prata

10 de março de 2021 | 17h37

É falso que o município de Rancho Queimado, em Santa Catarina, não tenha nenhum registrado óbito por covid-19. A afirmação enganosa foi dita por um homem em vídeo que circula nas redes sociais para promover o tratamento precoce contra o novo coronavírus, grupo de medicamentos que já foi considerado ineficaz pela comunidade científica mundial. Leitores solicitaram a checagem deste conteúdo pelo WhatsApp do Estadão Verifica, 11 97683-7490.

O homem no vídeo diz: “Rancho Queimado fica no vale de Itajaí, próximo de Blumenau. A prefeita adotou o tratamento precoce com hidroxicloroquina, ivermectina, azitromicina e zinco. Sabe qual é o índice de mortalidade? Zero, ninguém morreu de covid-19 lá”.

Ele fala que as informações foram passadas pela prefeita da cidade, Cleci Veronezi (MDB), durante entrevista para o programa Conexão ND, da emissora NDTV, afiliada da Record News em Santa Catarina. Apesar disso, a própria prefeita diz que haviam sido registrados dois óbitos pela doença — dos quais um usou o tratamento precoce e o outro, não.

Dados da secretaria estadual de saúde mostram que em 2 de março, data em que a entrevista foi ao ar, Rancho Queimado na verdade tinha três óbitos por covid-19, dentre 274 casos confirmados. No momento de publicação desta checagem, 10 de março, o município ainda registrava três mortes, mas os casos confirmados haviam subido para 281. A cidade possui 2.887 habitantes, segundo estimativa do IBGE para 2020, mas a prefeita disse na entrevista que eram 5 mil os habitantes.

Na entrevista, Veronezi explica que o kit de tratamento consiste de azitromicina, ivermectina, hidroxicloroquina e zinco e que 1,7 mil pessoas receberam as medicações. Indagada sobre o posicionamento da Organização Mundial da Saúde (OMS) em negar a eficácia da cloroquina para prevenir e tratar a covid-19, Veronezi disse que “a ciência do dia-a-dia comprova que deu certo”.

A prefeita, no entanto, não detalha se as 1,7 mil pessoas que foram atendidas com o “tratamento precoce” efetivamente fizeram uso dos remédios, nem se todos esses pacientes haviam sido diagnosticados com a covid-19 ou se haviam sido expostos ao vírus. Não há como concluir, portanto, que o tratamento “deu certo”.

Em 2020, a OMS realizou um estudo com mais de 11 mil voluntários em 30 países para avaliar o uso da hidroxicloroquina e outros remédios no tratamento da covid-19. Após seis meses de análises, a organização identificou que o remédio tinha pouco ou nenhum impacto no número de mortos pela doença. Este ano, a OMS estendeu sua conclusão para o uso preventivo do medicamento, e recomendou que ele “deixe de ser prioridade de estudos”. Sua nova conclusão foi baseada com estudos que envolveram mais de seis mil voluntários.

Nenhum dos outros medicamentos e substâncias disponíveis no kit de Rancho Queimado possuem eficácia comprovada contra a covid-19, seja para tratamento ou para a prevenção. As agências regulatórias dos Estados Unidos (FDA) e do Brasil (Anvisa), por exemplo, alertam que é preciso mais estudos antes de se permitir a prescrição off label desses medicamentos, isto é, o uso para outras doenças que não aquelas descritas nas bulas. Atualmente, o único meio disponível para controlar a pandemia é a vacinação.

Até esta quarta-feira, 10, 8,73 milhões de brasileiros haviam sido vacinados com ao menos a primeira dose da vacina contra a covid-19, segundo o consórcio de veículos de imprensa. Este número representa 5,43% da população adulta do País.

Esta checagem foi feita com informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 10 de março de 2021.

Estadão Verifica tentou contato com a prefeitura de Rancho Queimado, mas não obteve resposta até o momento de publicação desta checagem. O espaço está aberto.

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