É falso que potenciais vacinas contra o novo coronavírus não tenham passado por testes
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É falso que potenciais vacinas contra o novo coronavírus não tenham passado por testes

Publicação no Facebook espalha desinformação sobre imunizantes e sugere existência de 'vacina natural' para a covid-19

Victor Pinheiro, especial para o Estadão

29 de outubro de 2020 | 13h23

É falsa a afirmação de que nenhuma das potenciais vacinas contra o novo coronavírus tenha passado pela primeira fase de testes. O alegação foi feita pelo médico geriatra João Rosário Haddad em entrevista à Jovem Pan Maringá, em setembro. Uma reprodução do conteúdo no Facebook acumula mais de 38 mil compartilhamentos. 

Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que 44 potenciais vacinas contra a covid-19 estão em fase de ensaios clínicos e pelo menos dez dos compostos listados encontram-se na terceira etapa de testes. Os resultados de algumas dessas pesquisas já foram inclusive relatados em artigos científicos. 

Uma possível vacina contra a covid-19 poderá ser aprovada se tiver eficácia mínima de 50% Foto: Alex Silva/ Estadão

Os experimentos da fase 1 e 2 da potencial vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford com a farmacêutica sueca Astrazeneca foram publicados na revista Lancet, um dos periódicos mais prestigiados da área da medicina. Os estudos envolveram 1.077 voluntários no Reino Unido e sugeriram que a vacina é segura e capaz de induzir resposta imunológica do organismo. 

Em agosto, o governo federal editou uma Medida Provisória que prevê a destinação de R$1,9 bilhão para viabilizar a produção e aquisição de 100 milhões de doses do imunizante, com possível transferência de tecnologia para o Instituto Oswaldo Cruz (Fiocruz).

As informações sobre a primeira e a segunda etapa de ensaios clínicos da potencial vacina do laboratório chinês Sinovac foram descritos em uma pré-publicação, ainda sem revisão por pares, disponível no repositório MedArxiv. A pesquisa contou com 600 participantes e também apresentou evidências preliminares de que a vacina é segura e gera imunidade.

Em testes no Brasil, o imunizante é desenvolvido em parceria com o Instituto Butantã, do governo do Estado de São Paulo. A administração paulista assinou um acordo no valor de US$ 90 milhões (R$ 519 milhões, na cotação atual) com a Sinovac para fornecimento de 46 milhões de doses da vacina até dezembro. Resultados das etapas preliminares do imunizante desenvolvido pela empresa norte-americana Pfizer e a alemã BioNtech foram relatados em artigo na revista Nature

Procurado pelo Estadão Verifica, João Rosário Haddad ainda não se manifestou sobre os apontamentos da reportagem. 

Tempo de desenvolvimento de vacinas 

O médico acerta ao dizer que o desenvolvimento de vacinas pode demorar de cinco a dez anos, mas omite informações importantes sobre a pesquisa de potenciais imunizantes contra o novo coronavírus.

Os estudos de fato ocorrem em um ritmo acelerado diante da emergência global provocada pela pandemia. A OMS ressalta, no entanto, que isso não significa protocolos de segurança menos rigorosos. 

A entidade diz que a urgência de uma vacina contra a covid-19, investimentos financeiros sem precedentes e colaborações científicas mudaram a forma como as vacinas são desenvolvidas. Segundo a organização, algumas das etapas do processo de pesquisa ocorrem em paralelo, “mantendo ao mesmo tempo normas clínicas e de segurança rigorosas”.

O virologista do Centro de Tecnologia em Vacinas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Flavio Fonseca lembra que os imunizantes em desenvolvimento estão sujeitos a órgãos reguladores nacionais e internacionais. Ele ressalta que essas instituições verificam os dados gerados nos estudos para garantir que existam condições mínimas de segurança. “É incorreto imaginar que essas vacinas geram resultados e já serão colocadas no mercado”, afirma.

Fonseca pontua que a recente paralisação e posterior retomada dos estudos da potencial vacina de Oxford, por exemplo, atesta a seriedade do estudo. “Mostra que tem parâmetros de segurança muito bem estabelecidos, e se alguma coisa acontecer será interrompido”, completa. 

Não há cura ou vacina natural para a covid-19

A publicação também engana ao sugerir que há respostas para a pergunta “como curar a covid-19?”. O questionamento aparece na tarja utilizada pelo programa Estudo de Caso da Jovem Pan Maringá. Em outras partes da entrevista, João Haddad defende o uso da hidroxicloroquina, azitromicina e zinco quelato. Não há comprovação científica, no entanto, de que essas substâncias sejam eficazes para combater ou prevenir a doença.

No caso da cloroquina e da hidroxicloroquina, a Organização Pan-Americana da Saúde ressalta que as evidências disponíveis sobre o uso dos medicamentos “são insuficientes, a maioria das pesquisas até agora sugere que não há benefício e já foram emitidos alertas sobre efeitos colaterais dos medicamentos”. 

Em documento publicado em junho, a Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI) indicou que o potencial benefício clínico do efeito “antiinflamatório e imunomodulador¨ da azitromicina em pacientes com covid-19 ainda está por ser comprovado”. Um estudo recente coordenado por hospitais brasileiros, cujo resultados foram divulgados na Lancet, apontou que o antibiótico não tem eficácia contra a doença em pacientes graves

Documento

Vitamina D 

No vídeo, João Haddad ainda sugere que a suplementação de vitamina D pode ser uma “vacina natural” contra o novo coronavírus. A informação é insustentável. O documento da SBI citado anteriormente destaca que “Não há comprovação de benefício do uso de vitaminas C ou D, nem de suplementos alimentares, como zinco, exceto em pacientes que apresentam hipovitaminose ou carência mineral” para curar a covid-19. 

O médico infectologista e consultor técnico da SBI Hélio Bacha destacou ao Estadão Verifica que a vitamina D não garante imunidade contra o novo coronavírus e disse que a suplementação excessiva da vitamina pode ser tóxica. Segundo ele, “a única coisa que funciona [contra a covid-19] é o acompanhamento clínico”. 

O Estadão preparou um conteúdo especial para tirar dúvidas a respeito da vitamina D.

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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