É falso que Ney Matogrosso tenha afirmado que orgulho gay é uma ‘coisa estúpida’
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É falso que Ney Matogrosso tenha afirmado que orgulho gay é uma ‘coisa estúpida’

Boato circula desde o ano passado e voltou a ser compartilhado com conteúdo fabricado misturado a entrevista verdadeira do cantor

Samuel Lima, especial para o Estado

03 de agosto de 2020 | 18h01

Não é verdade que o cantor Ney Matogrosso tenha afirmado que o “orgulho de ser gay” é uma “coisa estúpida”, como alega boato no Facebook. A suposta crítica ao movimento LGBTQIA+ circula desde 2019 e recebeu mais de 33,5 mil compartilhamentos desde a semana passada, quando surgiu em novo formato nas redes sociais. 

Posts falsos no Facebook atribuem declaração ao cantor Ney Matogrosso. Foto: Reprodução / Arte Estadão

A autoria da frase foi desmentida pelo próprio artista. No dia 3 de outubro de 2019, Ney Matogrosso postou o conteúdo em sua página oficial no Instagram, com a inscrição “fake news” sobre a imagem. O Estadão Verifica não encontrou a declaração falsa em sites de notícias ou qualquer outra fonte confiável na internet.

A versão recente do boato estabelece uma falsa relação com trecho verdadeiro de uma entrevista do cantor, cedida ao jornal Folha de S. Paulo e publicada em 19 de julho de 2017. Na conversa, entre outros assuntos, ele conta que enfrentou preconceito ao longo da carreira, diz que acha interessante a geração de novos artistas que levam a sexualidade ao palco e que é “um homem que apenas não respeitou os limites, que transita com liberdade entre uma ponta e outra do espectro”. 

O trecho citado na postagem analisada aparece no final da reportagem. Ao ser questionado se havia se considerado representante de uma minoria em algum momento, Ney Matogrosso responde que não tinha interesse em levantar a bandeira do movimento LGBTQIA+, porque também defende outras: “Me enquadrar como ‘o gay’ seria muito confortável para o sistema. Que gay o caralho. Eu sou um ser humano, uma pessoa. O que eu faço com a minha sexualidade não é a coisa mais importante na minha vida. Isso é um aspecto, de terceiro lugar”.

O entrevistador, então, pergunta o que é mais importante na vida do cantor. “Ter caráter, ser uma pessoa honesta, de princípios, que trata bem as outras. Ser uma pessoa afetuosa, amorosa. Isso é mais importante do que com quem eu trepo. Sou benquisto e recebo isso nas ruas, das pessoas”, completa Matogrosso.

Em livro publicado em novembro de 2018, o artista abordou novamente o assunto. “Já transei com muitas mulheres e com muitos homens, sou livre para me relacionar com quem eu quiser”, escreve ele. A seguir, diz que se nega a ser “estandarte do movimento gay” porque acredita e defende “direitos diversos, não somente da liberdade sexual”. 

Já em novembro de 2019, em entrevista à BBC News Brasil, Matogrosso afirma que não concorda com as pessoas que o cobram por mais protagonismo no movimento LGBTQIA+: “Eles dizem que eu não carrego a bandeira. A bandeira sou eu. Ou não sou? Eu sou a bandeira, eu não preciso carregar uma. A minha maneira de pensar, de me comunicar, de me apresentar. Eu sou a bandeira. Parem de me cobrar isso porque isso não tem fundamento.”

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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