É falso que governo de São Paulo tenha negado vacinas contra a covid-19 para Bauru
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É falso que governo de São Paulo tenha negado vacinas contra a covid-19 para Bauru

Boato inventa que cidade teria sido excluída de campanha de imunização com a Coronavac e depois socorrida por Bolsonaro

Samuel Lima, especial para o Estadão

30 de janeiro de 2021 | 16h13

É falso que Bauru, no interior de São Paulo, tenha sido excluída da campanha de vacinação com a Coronavac porque a prefeita da cidade, Suéllen Rosim (Patriota), não apoia o governador João Doria (PSDB). Também não é verdade que o município só tenha ganhado doses da vacina Oxford/Astrazeneca após encontro da prefeita com o presidente Jair Bolsonaro e com o ministro da Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes.

Bauru já tinha recebido ambos os imunizantes antes da viagem de Suéllen a Brasília. O Governo do Estado e a Prefeitura também negaram as alegações que circulam nas redes sociais.

Boato inventa que cidade do interior de São Paulo não recebeu vacinas do governo do Estado e foi socorrida por Bolsonaro. Foto: Reprodução / Arte Estadão

Bauru recebeu 8.680 doses da vacina CoronaVac em 20 de janeiro, segundo notícia publicada no site do governo municipal. O imunizante é produzido pelo Instituto Butantan, em parceria com a farmacêutica chinesa Sinovac. A entrega ocorreu três dias depois da autorização de uso emergencial pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e da primeira aplicação da vacina no Brasil, em São Paulo. “Não houve nenhuma negativa em relação ao governo estadual”, esclareceu a Prefeitura em resposta ao Estadão Verifica.

Seis dias depois, em 26 de janeiro, o município de Bauru informou, em nota, o recebimento de 6.660 doses da vacina desenvolvida pela Universidade de Oxford e pela farmacêutica Astrazeneca. A distribuição pelo Ministério da Saúde começou em 23 de janeiro, logo depois de concluída a importação de 2 milhões de doses da Índia pelo governo federal.

Já o encontro da prefeita Suéllen Rosim com o presidente Jair Bolsonaro em Brasília, mencionado pelo boato, ocorreu somente em 27 de janeiro e estava agendado desde o começo do ano, segundo a Prefeitura. Uma notícia divulgada pelo município sobre a reunião sequer aborda o assunto das vacinas. Ao Ministério da Saúde, a prefeita “falou sobre a necessidade de investimentos em Bauru e pediu apoio para a implantação do Hospital das Clínicas (HC) e seu futuro credenciamento como hospital universitário”, mostra o texto.

Além disso, ao contrário do que afirmam as postagens falsas, não foram citadas reuniões naquele dia com o ministro de Ciência, Tecnologia e Inovações, Marcos Pontes, — que realmente é bauruense — ou com a ministra da Agricultura, Tereza Cristina. A prefeita esteve apenas com os ministros Tarcísio Freitas, da Infraestrutura, e Damares Alves, da Mulher, Família e Direitos Humanos. As fotos não mostram a participação de nenhum deles no encontro com Bolsonaro, onde supostamente os ministros teriam exigido vacinas. Por fim, Suéllen Rosim tem 32 anos, e não 28, como afirma incorretamente a mensagem.

Procurado pela reportagem, o governo do Estado de São Paulo afirmou que a mensagem em circulação é falsa e citou o envio de 8,6 mil doses da CoronaVac e 6,6 mil doses da vacina de Oxford/Astrazeneca para a cidade de Bauru até o momento. “Novas doses serão encaminhadas na próxima semana para que os municípios completem a vacinação do público alvo da fase 1 e iniciem a vacinação dos idosos acima de 85 anos de idade”, respondeu em nota. A Secretaria Estadual da Saúde afirmou ainda que “está em contato frequente com gestores regionais e municipais para trabalhar estratégias a fim de salvar vidas”.

Bauru rejeitou regras de quarentena previstas no Plano SP

A cidade de Bauru foi uma das que se recusaram a adotar medidas mais restritivas depois do rebaixamento para a fase vermelha do Plano São Paulo de combate à covid-19. Pelas normas vigentes, somente atividades essenciais, como supermercados e farmácias, podem funcionar nessa situação. Bares, restaurantes, padarias e similares poderão trabalhar apenas com sistema de delivery, drive-thru e retirada, enquanto todas as demais atividades devem estar fechadas para atendimento ao público.

No dia 24, a prefeita Suéllen Rosim rejeitou as orientações do governo estadual e baixou decreto permitindo que atividades não essenciais funcionem por dez horas diárias, de segunda-feira a sábado, no máximo até as 20h e com ocupação de até 30% dos estabelecimentos. “A Prefeitura quer preservar a vida de todos e também manter de forma responsável as atividades econômicas e os empregos”, disse ao Estadão. Promotorias de saúde pública do Ministério Público de São Paulo (MP-SP) entraram com ações contra as prefeituras para garantir o cumprimento.

Nesta sexta-feira, 29, a Prefeitura foi notificada de uma decisão liminar concedida pelo Tribunal de Justiça de São Paulo (TJ-SP) que obriga o município a seguir o Plano São Paulo durante a pandemia. No mesmo dia, o Estado manteve a região de Bauru na fase vermelha em razão da ocupação média de 86,3% dos leitos de UTI destinados à covid-19. Um novo decreto já foi publicado no Diário Oficial informando que não está permitida a abertura de estabelecimentos não essenciais.

Conforme o boletim mais recente da Secretaria Municipal de Saúde, divulgado na desta sexta-feira, 29 de janeiro, Bauru está com 100% de ocupação dos leitos de UTI disponíveis para a covid-19. Foram registrados 25.132 casos e 354 óbitos pelo novo coronavírus na cidade até agora, pelos números oficiais.

Esse mesmo boato também foi desmentido por Aos Fatos e Boatos.org.

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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