É falso que falta de investimento brasileiro impeça acesso a anticorpo contra covid-19
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É falso que falta de investimento brasileiro impeça acesso a anticorpo contra covid-19

Posts no Facebook confundem diferentes iniciativas de pesquisa para tratamento do novo coronavírus

Pedro Prata

22 de maio de 2020 | 17h47

Postagens no Facebook misturam informações de diferentes pesquisas internacionais para encontrar possíveis tratamentos para a covid-19 e causam confusão na rede social sobre a ausência da participação do Brasil. Os posts espalham que o País não terá acesso no futuro a medicamentos atualmente em testes porque abriu mão de contribuir com as pesquisas. O Estadão Verifica identificou ao menos três iniciativas de pesquisa envolvidas no boato.

Uma das versões do texto enganoso diz: “Está rodando uma notícia que diz que um laboratório farmacêutico teria os anticorpos para o combate do coronavírus e ele é 100% eficaz, interessante né? Tem 127 países na lista. Todos que sofrem pandemia da covid-19, e sabe quem não está na lista? O Brasil! Sabe por que ele não está na lista? Porque o excelentíssimo senhor presidente não contribui para o fundo de pesquisas.”

Foto: Pixabay/@Visuals3D/Divulgação

O trecho sobre anticorpos faz referência a uma pesquisa da Universidade de Utrecht (Holanda), do Centro Médico Erasmus (Holanda), da Harbour BioMed (Holanda) e da Universidade de Medicina Veterinária de Hanôver (Alemanha). Os autores encontraram um anticorpo humano capaz de impedir que o vírus da covid-19 infecte células cultivadas em laboratório. O estudo foi publicado na revista online Nature Communications em 4 de maio. Os pesquisadores utilizaram anticorpos já estudados contra o vírus da Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS) e não possuem relação com uma coalizão global de países.

O tratamento que envolve a participação de 127 países, na verdade, se refere ao medicamento Remdesivir, desenvolvido pela empresa norte-americana Gilead Sciences. A companhia abriu mão de sua patente para facilitar o acesso ao fármaco, que apresenta bons resultados em testes para o tratamento da covid-19. Portanto, trata-se de outra medida particular.

O Brasil ficou de fora da lista de países que teriam acesso ao remédio. De acordo com a revista Exame, a Gilead se baseou em critérios do Banco Mundial para contemplar “quase todos os países de baixa e média renda, bem como vários de alta e média renda que enfrentam obstáculos significativos de acesso à saúde”. O Estadão Verifica tentou contato por e-mail com a empresa, mas não obteve resposta.

O Brasil realmente optou por ficar de fora de uma aliança global em busca de uma vacina e tratamento eficaz contra a covid-19. Em maio, 40 países anunciaram a doação de 7,4 bilhões de euros na tentativa de formar uma aliança mundial pelo desenvolvimento de uma vacina e de um tratamento contra o novo coronavírus.

“Nosso compromisso compartilhado é garantir que todas as pessoas tenham acesso a todas as ferramentas para derrotar a covid-19. O acelerador reúne o poder combinado de várias organizações para trabalhar com velocidade e escala”, afirmou Tedros Adhanom, diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS).

No dia de lançamento da ação, foi firmado o compromisso de tornar uma eventual vacina acessível a todos os países, inclusive aos mais pobres e mais vulneráveis.

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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