É falso que Europa tenha ‘interditado’ vacinas chinesas
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É falso que Europa tenha ‘interditado’ vacinas chinesas

Agência reguladora ainda não recebeu nenhum pedido de autorização de imunizantes desenvolvidos na China

Pedro Prata

16 de dezembro de 2020 | 12h21

São falsas postagens nas redes sociais que afirmam que “a vacina chinesa” — sem citar qual — teria sido “interditada em toda a comunidade europeia”. A agência reguladora European Medicines Agency (EMA), análoga à Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), informou ao Estadão Verifica que ainda não recebeu o pedido de análise de nenhuma vacina contra a covid-19 produzida por laboratórios chineses. Este conteúdo foi compartilhado ao menos 1,7 mil vezes no Facebook.

Por meio de e-mail enviado em 16 de dezembro de 2020, a agência reguladora informou que “até o momento, a EMA não recebeu o pedido (de análise) para autorização a nenhuma vacina chinesa”.

As informações sobre análises de pedidos de autorização de vacinas na Europa estão disponíveis na internet. Até o momento, a EMA avalia os imunizantes das empresas Janssen (Bélgica), Oxford-AstraZeneca (Reino Unido), Moderna (EUA) e BioNTech (EUA). Esta última foi autorizada e está sendo aplicada no Reino Unido e nos Estados Unidos, o que motivou a agência reguladora europeia a marcar uma reunião extra em 21 de dezembro para agilizar o processo da possível aprovação.

Agência reguladora europeia negou a informação. Foto: Reprodução

Vacinas chinesas

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), atualmente cinco vacinas de laboratórios chineses estão na fase 3 de testes clínicos, a mais avançada. São elas:

  • Laboratório Sinovac — conhecida como CoronaVac, usa a tecnologia do vírus inativado (sem capacidade de causar infecção). Tem parceria de testes e produção com o Instituto Butantan, de São Paulo, em 17 centros de pesquisa.
  • Laboratório Sinopharm/Instituto de Produtos Biológicos de Wuhan — usa a tecnologia do vírus inativado (sem capacidade de causar infecção).
  • Laboratório Sinopharm/Instituto de Produtos Biológicos de Pequim — usa a tecnologia do vírus inativado (sem capacidade de causar infecção).
  • Laboratório CanSino/Instituto de Biotecnologia de Pequim — utiliza um vírus geneticamente modificado para conter trechos do DNA do coronavírus que serão reconhecidos pelo corpo humano para criar anticorpos.
  • Laboratório Anhui Zhifei Longcom/Academia Chinesa de Ciências — baseia-se na tecnologia de “proteínas subunitárias”. Isso quer dizer que ela utiliza uma proteína específica do novo coronavírus (S) para gerar os anticorpos.

A vacina Coronavac foi politizada em meio à disputa entre o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e o governador de São Paulo, João Doria (PSDB). Bolsonaro chegou a comemorar a paralisação dos testes por causa da morte por suicídio de um voluntário e desautorizou o ministro da Saúde, general Eduardo Pazuello, a assinar um memorando de intenção de compra da Coronavac.

Doria, por sua vez, passou na frente do Ministério da Saúde e anunciou o início da vacinação no Estado para 25 de janeiro, mesmo que o Instituto Butantan ainda não tenha apresentado os resultados da fase 3 dos testes. O Butantan diz que vai apresentar os resultados juntamente com o pedido de autorização até 23 de dezembro.

O Estadão Verifica fez esta checagem baseado em informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 16 de dezembro de 2020.

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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