É falso que Embraer tenha feito propaganda pedindo para a população ‘resgatar o Brasil’
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É falso que Embraer tenha feito propaganda pedindo para a população ‘resgatar o Brasil’

Empresa nega ter produzido vídeo com discurso político que viralizou nas redes; peça traz dados inverídicos e insustentáveis

Tiago Aguiar e Samuel Lima

04 de maio de 2021 | 16h03

Circula nas redes sociais um vídeo falso atribuído à empresa Embraer, com imagens de aeronaves decolando e aterrissando em pistas e legendas com discurso político. A companhia confirmou ao Estadão Verifica que não produziu o conteúdo. A peça ainda traz uma série de alegações que não se sustentam em dados consultados pela reportagem.

Leitores solicitaram a checagem deste conteúdo por WhatsApp, 11 97683-7490.

Boato inventa propaganda da Embraer com discurso político. Foto: Reprodução YouTube / Arte: Estadão

A peça de desinformação foi compartilhada no YouTube em 24 de maio de 2019 mas continua a circular no WhatsApp. O vídeo começa com a palavra “Brasil” seguida por uma série críticas, como “Os impostos mais caros do mundo”, “Os políticos mais corruptos do mundo” e “O país onde mais se mata policiais”.

Ao final, são mostradas as frases “Vamos resgatar o Brasil” e “Juntos somos mais fortes”, acompanhadas do logotipo da Embraer. O vídeo viralizou na mesma época em que ocorreram manifestações favoráveis ao governo de Jair Bolsonaro em dezenas de cidades brasileiras.

Procurada pelo Estadão Verifica, a fabricante brasileira de aeronaves afirmou que “não se trata de um vídeo produzido pela Embraer” e que ela jamais divulgou o conteúdo em seus canais oficiais. “Portanto, é um vídeo falso”, acrescentou a companhia, que de fato é apontada como a terceira maior fabricante de aviões comerciais do mundo.

Além da origem falsa, as alegações da postagem também não batem com dados disponíveis sobre economia, política e segurança pública. A reportagem pesquisou todas as frases apresentadas ao longo do vídeo e detalha abaixo.

Impostos, juros e desemprego

O Brasil não é o país com os impostos mais caros do mundo. A carga tributária foi calculada em 31,6% do PIB em 2020, percentual abaixo da média das nações que fazem parte da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), de 33,9%, segundo o Tesouro Nacional. 

Ainda assim, o Brasil enfrenta críticas por apresentar taxas próximas a países desenvolvidos, estando quase 10 pontos percentuais acima da média da América Latina, enquanto permanece estagnado em indicadores de qualidade de vida, como o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), da Organização das Nações Unidas (ONU).

Também é falso que o Brasil tenha os juros mais altos do planeta. De acordo com ranking do site Trading Economics, o Brasil é o 94º país com a taxa de juros básica mais alta do mundo e o 16º na América Latina. A Selic está em 2,75% ao ano desde março, quando o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu subir os juros pela primeira vez em seis anos.

O vídeo afirma ainda que o desemprego no Brasil seria o 7º maior do mundo em um ranking de 51 países. Essa informação foi retirada de uma notícia do G1, publicada em 2016, e que portanto está desatualizada. Um estudo recente da consultoria Austin Rating com dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) aponta que o Brasil foi o 22ª país com maior taxa de desemprego em 2020, fechando o ano com 13,9%. Em 2021, a previsão é de alta para 14,5% — o que colocaria o Brasil em 14º nas estimativas do grupo.

Combustível e energia

A peça de desinformação alega ainda que o Brasil teria o combustível e a energia mais caros do mundo, o que não é verdade. Um levantamento do site Global Petrol Prices coloca o país na 105ª colocação quanto ao preço da gasolina e 123ª no preço do diesel, além da 74ª posição na tarifa de energia elétrica. Os valores foram convertidos e comparados em dólar.

O Estadão Verifica não encontrou bases de dados sólidas sobre tarifas de pedágio e preço de automóveis no mundo.

Morte de policiais

Outra alegação contida no vídeo é que o Brasil é o país que mais mata policiais. O Estadão Verifica também não encontrou comparativos amplos sobre o número de mortes de policiais no mundo. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública aponta que o Brasil teve 172 mortes violentas de policiais em 2019, além de 91 suicídios entre agentes da ativa. 

O mesmo documento alerta para o índice de letalidade policial no País, ou seja, a quantidade de pessoas mortas em operações das forças de segurança. Foram 6.357 casos em 2019, o maior patamar da série histórica do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, iniciada em 2013. Esse número é cerca de seis vezes maior que nos Estados Unidos.

Corrupção e política

Sem apresentar fonte, a falsa propaganda sugere que o Brasil teria os políticos mais caros e mais corruptos do mundo. Novamente, o Estadão Verifica não encontrou pesquisas amplas e confiáveis que permitam fazer essa afirmação.

Uma fonte disponível é o Índice de Percepção da Corrupção (IPC), publicado pela Transparência Internacional. Porém, como o próprio nome anuncia, esse indicador mede a percepção de diferentes instituições sobre o País, e não a corrupção em si — até porque a descoberta de ilícitos também está relacionada ao nível de atuação contra a prática e ao aparato investigativo empregado.

Nesse ranking, o Brasil aparece em 94º lugar entre 180 países, que são avaliados em uma escala que vai entre 0 (percebido como altamente corrupto) e 100 (muito íntegro). O País tinha 38 pontos em 2020 — próxima à média das nações emergentes (39) e abaixo dos índices gerais da América Latina (41), do mundo (43), do G20 (54) e dos membros da OCDE (64). A margem de erro é de 4 pontos.

Em relação ao custo dos políticos, novamente não foi encontrada uma pesquisa abrangente sobre o assunto. Em 2018, a Agência Pública checou uma alegação parecida. A verificação mostrou que em outros países como Colômbia e República Dominicana a relação entre salário de parlamentares sobre a renda média é maior do que no Brasil.

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