É falso que e-mails de Anthony Fauci mostrem plano de Zuckerberg e Gates para criar o coronavírus

É falso que e-mails de Anthony Fauci mostrem plano de Zuckerberg e Gates para criar o coronavírus

Vídeo no Facebook distorce conversas de infectologista conselheiro da Casa Branca, obtidas em junho por jornalistas dos Estados Unidos

Samuel Lima

17 de junho de 2021 | 16h06

É falso que um compilado de e-mails de Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos (NIAID), mostre uma conspiração envolvendo Mark Zuckerberg, CEO do Facebook, e Bill Gates, co-criador da Microsoft, para criação do novo coronavírus no Instituto de Virologia de Wuhan, na China. A alegação infundada aparece em um vídeo que teve quase 400 mil visualizações no Facebook.

“Anteontem foi descoberto uma troca de e-mails entre laboratório de Wuhan, Anthony Fauci, Bill Gates, Mark Zuckerberg, agências de fact-checking e outros agentes, virologistas”, afirma o autor da gravação. “Está comprovado que esse vírus foi criado em laboratório. E que o Dr. Fauci foi investidor para o ganho de função”. Em outro trecho, o homem alega que o dono do Facebook teria se oferecido para ser um “censor” e não deixar as pessoas conspirarem sobre isso, enquanto Gates seria “o cara que está por trás de todo esse processo”.

O documento a que o boato se refere é uma série de e-mails obtidos recentemente por jornalistas de veículos como The Washington Post, Buzzfeed e CNN. Eles foram publicados na íntegra pelo Buzzfeed, em 1º de junho, e descrevem algumas ações tomadas por Fauci contra a pandemia no primeiro semestre do ano passado. 

O Estadão consultou o arquivo original e constatou que as afirmações do vídeo são falsas. Veja abaixo o resultado da checagem.

Documentos não provam que origem do vírus seja um laboratório

Não existem evidências até o momento de que o novo coronavírus tenha sido “criado em laboratório” ou tenha vazado do Instituto de Virologia de Wuhan. Os e-mails de Fauci divulgados pela imprensa norte-americana não trazem nenhuma informação nova nesse sentido. 

Como mostrou uma checagem recente do projeto Comprova sobre esses mesmos documentos, sites norte-americanos tiraram de contexto uma conversa entre Fauci e o pesquisador Kristian Andersen, do laboratório Scripps Research, da Califórnia, para investir nessa narrativa.

Nela, Andersen afirma que o SARS-CoV-2 parecia “potencialmente manipulado”, acrescentando que ainda teria “que examinar com muito mais cuidado” essa questão antes de chegar a uma conclusão. Esse e-mail, no entanto, é 1º de fevereiro de 2020. A opinião do cientista mudou desde então.

Em 17 de março do ano passado, Andersen e outros cientistas dos Estados Unidos, Reino Unido e Austrália publicaram um artigo na revista Nature Medicine indicando que as “análises mostram claramente que o SARS-CoV-2 não é uma construção de laboratório ou um vírus manipulado propositadamente”. A conclusão foi corroborada posteriormente em outras publicações de renome, como a Cell e Nature Microbiology.

Portanto, o e-mail não prova que o vírus tenha sido manipulado em laboratório. Apenas reflete as considerações iniciais do cientista sobre o tema. Após a divulgação dos e-mails com Fauci, Andersen escreveu no Twitter que a reflexão inicial faz parte do processo científico, ressaltando que as análises posteriores não confirmaram aquela hipótese. Ele também esclareceu esse ponto em entrevista ao jornal The New York Times.

Suposto ‘plano’ de Fauci, Zuckerberg e Gates não existe

Os documentos não mostram qualquer indício de que Fauci, Zuckerberg ou Gates tenham investido em pesquisas de “ganho de função”. O termo se refere a um tipo de experimento controverso que busca potencializar patógenos para estudar maneiras de contê-los em um ambiente controlado.

Com o CEO do Facebook, Mark Zuckerberg, até existem duas trocas de e-mails, mas elas tratam apenas de uma oferta de recursos para acelerar o desenvolvimento de vacinas nos Estados Unidos e de um convite para Fauci participar de um projeto da rede social para trazer informações confiáveis sobre o novo coronavírus aos usuários da plataforma.

No caso de Gates, sequer existem registros de conversas. O nome do fundador da Microsoft é citado por terceiros em diferentes contextos, mas o mais próximo que se chega de um contato real são três trocas de e-mails entre Fauci e funcionários da Fundação Bill e Melinda Gates, de filantropia. Nelas, discute-se o financiamento de vacinas contra a covid-19 e um projeto de ampliação da testagem em Seattle.

Não houve e-mails com o Instituto de Virologia de Wuhan

Também não há registro de trocas de e-mails entre Fauci e o Instituto de Virologia de Wuhan. O que existe é uma conversa entre o conselheiro da Casa Branca e o presidente da EcoHealth Alliance, o zoólogo Peter Daszak. 

Essa organização médica recebeu uma bolsa do NIAID de US$ 3,4 milhões em 2014 e manteve uma parceria com o laboratório chinês para fazer análises genéticas de coronavírus (vírus da mesma família do SARS-CoV-2) originados em morcegos. Cerca de US$ 600 mil foram destinados ao Instituto de Virologia de Wuhan por meio dessa pesquisa nos cinco anos seguintes, segundo checagem do Politifact.

Tanto Fauci quanto a EcoHealth Alliance, no entanto, negam que esse dinheiro tenha sido utilizado para fazer experimentos de ganho de função no laboratório da China. “O NIH nunca financiou, nem financia agora, pesquisas de ganho de função no Instituto de Virologia de Wuhan”, afirmou Fauci em uma audiência no Senado, em 11 de maio deste ano.

A conversa com Daszak não permite concluir o contrário. O presidente da EcoHealth elogiou Fauci, em abril de 2020, por ter sido “corajoso” ao dizer publicamente que as evidências científicas sugeriam uma origem natural do vírus, e não um vazamento de laboratório. A resposta da Fauci segue um padrão de outras conversas: “Peter, muito obrigado por sua gentil mensagem”.

Em entrevista para a CNN, em 4 de junho deste ano, Fauci rebateu publicações que associavam o e-mail a algum tipo de relação de proximidade ou de acobertamento. “Não faz sentido. Eu não consigo nem entender como eles tiraram isso daquele e-mail”, respondeu. 

“Era uma pessoa dizendo ‘obrigado’ por qualquer coisa que ele pensou que eu disse, e o que eu disse era que a origem mais provável era um salto entre espécies”, prosseguiu o médico. “Ainda acredito nisso, ao mesmo tempo que mantenho a mente aberta para a hipótese de vazamento de laboratório.”

Máscaras são eficazes; mensagem é de fevereiro de 2020

O autor do vídeo ainda sustenta que “a máscara que você e eu utilizamos por um ano, danificando o nosso próprio organismo, ela nunca resolveu nada. Mas não sou eu que estou dizendo: é o próprio e-mail do Dr. Fauci com todo mundo”. Essa afirmação também é enganosa e foi rebatida em uma checagem anterior do projeto Comprova.

Em 5 de fevereiro de 2020, Fauci retorna uma consulta feita pela presidente da Universidade Americana de Washington, Sylvia Burwell, sobre a necessidade de levar uma máscara em uma viagem. Ele desaconselha o uso do equipamento de proteção, dizendo que deveria ser utilizado apenas por pessoas infectadas e que as máscaras vendidas em farmácia não seriam muito eficientes em barrar o vírus.

Essa troca de e-mails, portanto, ocorreu no início da pandemia de covid-19, quando nem a OMS, nem o Centro de Controle de Doenças (CDC) dos Estados Unidos recomendavam a prática ainda. O órgão norte-americano, por exemplo, passou a pedir o uso geral de máscaras apenas em abril do ano passado, diante de fartas evidências científicas de que o equipamento protege contra o novo coronavírus e não causa nenhum dano à saúde.

Assim como no caso de Andersen, a opinião de Fauci hoje é outra. “Claro (que recomendaria o uso de máscaras), se soubéssemos naquela época que uma quantidade substancial de transmissão era de pessoas assintomáticas, se soubéssemos que os dados mostram que usar máscaras fora do ambiente hospitalar funciona”, disse ele, na mesma entrevista à CNN.

Onde encontrar os documentos

Os e-mails de Fauci não são fruto de um vazamento, e sim uma resposta a um pedido feito por jornalistas norte-americanos através do Freedom of Information Act. Essa ferramenta de transparência pública é garantida a qualquer cidadão e também existe no Brasil, desde 2011, com o nome de Lei de Acesso à Informação. O governo é obrigado a respondê-la, a menos que aquela informação esteja sob sigilo, e qualquer pessoa pode acessar o conteúdo.

Além do trabalho mencionado acima, o Estadão Verifica ainda pesquisou termos como “ganho de função”, “Instituto de Virologia de Wuhan” e “arma biológica” nos documentos disponibilizados, por exemplo. Nenhuma dessas tentativas trouxe as supostas provas de que o vírus teria sido criado em laboratório ou de financiamento de pesquisas de ganho de função, como alega o boato. A busca retornou apenas breves comentários sobre artigos científicos e outras informações irrelevantes para esse contexto.

Você pode conferir por conta própria as datas e o teor dos e-mails de Fauci. A lista abaixo mostra onde encontrar as páginas citadas nesta checagem:

  • Kristian Andersen: 3187.
  • Mark Zuckerberg: 243, 1700, 2065, 2067 e 2068. 
  • Fundação Bill e Melinda Gates: 1684, 2318, 2913 e 2914.
  • Peter Daszak: 1150.
  • Sylvia Burwell: 3027 e 3028.

Esse boato também foi analisado por Aos Fatos e Agência Lupa.


Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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