É falso que comércio de produtos chineses tenha caído 30% em Santa Catarina
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É falso que comércio de produtos chineses tenha caído 30% em Santa Catarina

Boato no Facebook não cita fonte alguma para alegar boicote depois da pandemia; entidades do setor empresarial catarinense desconhecem pesquisas sobre o tema

Samuel Lima, especial para o Estado

30 de julho de 2020 | 20h24

Um boato nas redes sociais inventa que o comércio de produtos chineses em Santa Catarina teria registrado queda de 30% nas vendas porque a população catarinense estaria rejeitando “os selos made in China”. A mensagem, compartilhada mais de 18 mil vezes no Facebook, não cita fonte alguma e contém erros de português. Não há registro de notícias sobre boicotes a produtos chineses no Estado. 

O Estadão Verifica consultou três entidades do setor empresarial de Santa Catarina sobre o suposto boicote a produtos chineses. A Federação das Câmaras de Dirigentes Lojistas (FCDL/SC) respondeu que desconhece esse tipo de dado. O Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae/SC) também afirmou que não possui nenhuma pesquisa a respeito. A reportagem tentou contato ainda com a Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (Fecomércio/SC), mas não houve retorno até a publicação desta checagem.

Post inventa que boicote a produtos chineses em Santa Catarina reduziu vendas em 30%. Foto: Reprodução / Arte Estadão

Apenas no primeiro semestre de 2020, Santa Catarina comprou mais de US$ 2,7 bilhões em produtos da China, segundo informações do Ministério da Indústria, Comércio Exterior e Serviços. A participação chinesa nas importações catarinenses é de 38%. A variedade de produtos é grande: quase 3,7 mil itens, como painéis solares, laminados, peças automotivas, conversores elétricos, cartuchos, roupas, tecidos e eletrodomésticos.

Em comparação com o mesmo período do ano passado, houve recuo de 5% nas importações da China, percentual que equivale a US$ 144 milhões. O número, porém, serve apenas como parâmetro e não pode ser atribuído ao comércio de produtos chineses em Santa Catarina. Parte dos produtos importados tem como destino as indústrias ou pode formar estoques no varejo, por exemplo. Além disso, os valores negociados com os fornecedores tendem a ser diferentes daqueles praticados com o consumidor final e não há garantias de que as mercadorias serão comercializadas, de fato, em Santa Catarina.

A Pesquisa Mensal do Comércio do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que Santa Catarina teve aumento de 18,1% no volume de vendas no varejo em maio (na comparação com abril). O índice apontou tendência de recuperação em relação aos períodos anteriores. Em abril, houve redução de 7% e em março, de 3,5% (ambos em comparação com o mês anterior). 

A recuperação do comércio em maio acompanhou a tendência nacional. Em todo o Brasil, o varejo teve crescimento recorde de 13,9%, em relação ao mês anterior. Analistas ouvidos pelo Estadão citaram as flexibilizações de quarentena, as medidas tomadas para preservação de empregos e a distribuição do auxílio emergencial para desempregados e informais de baixa renda como fatores para o número positivo. No entanto, a variação não é suficiente para reverter as perdas econômicas da pandemia de covid-19 no setor. O varejo brasileiro ainda está 7,3% pior do que em fevereiro, segundo o IBGE. 

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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