É falso que Al Gore tenha sido presidente eleito por 37 dias
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

É falso que Al Gore tenha sido presidente eleito por 37 dias

Post viral traz informações enganosas para contestar a vitória de Joe Biden nas eleições 2020

Pedro Prata

12 de novembro de 2020 | 16h53

É falso que o democrata Al Gore tenha sido considerado presidente eleito por 37 dias em 2000, quando disputava a Casa Branca com o republicano George W. Bush. Uma postagem que viralizou nas redes sociais faz comparação enganosa com o pleito atual, para contestar a vitória de Joe Biden sobre o republicano Donald Trump. Um leitor solicitou ao Estadão Verifica pelo WhatsApp (11 97683-7490) a checagem.

Desde a primeira contagem, George W. Bush esteve na frente na votação na Flórida. Foto: Reprodução

O post alega falsamente que “Al Gore foi presidente eleito por 37 dias e após recontagem Bush assumiu”. As eleições daquele ano foram uma das mais acirradas da história dos EUA, marcadas por uma disputa na Flórida que só terminou com uma decisão da Suprema Corte americana a favor do republicano George W. Bush.

Não é verdade que Al Gore tenha sido considerado presidente eleito por mais de um mês. A primeira contagem na Flórida deu a vitória para Bush com uma vantagem de apenas 1.784 votos. Com isso, ele já possuía o número de delegados necessários no colégio eleitoral para ser eleito presidente. Nos Estados Unidos, vence a disputa à Casa Branca quem obter ao menos 270 votos no colégio eleitoral — cada estado americano possui um número determinado de delegados. Como a margem entre Gore e Bush foi muito apertada, a lei da Flórida demandava uma recontagem automática. A campanha do democrata também pediu uma recontagem manual em quatro condados. A indecisão se estendeu por 36 dias, sem que se soubesse quem seria o presidente dos Estados Unidos.

Nos EUA, cada estado tem a obrigação de conduzir o processo eleitoral e também a apuração do resultado. Não há um órgão que centralize a contagem dos votos, como ocorre no Brasil com a Justiça Eleitoral.

Por isso, os veículos de imprensa formam consórcios que coletam os dados oficiais em cada estado, enquanto a apuração ainda está acontecendo. Isso é feito há centenas de anos. De posse dos dados, cada veículo possui sua equipe de especialistas políticos e eleitorais que fazem uma projeção de qual candidato vai ganhar a eleição. Isso explica porque alguns veículos podem informar a vitória de um candidato enquanto outros preferem aguardar.

Esse sistema é seguido rigorosamente e as equipes de especialistas de cada emissora só anunciam uma vitória quando acreditam ter certeza do resultado. Mesmo assim, erros podem acontecer em eleições muito acirradas — como foi o pleito de 2000.

Leia também: Veja todas as checagens do Estadão Verifica sobre as eleições americanas

Ainda na noite das eleições, em 7 de novembro, algumas emissoras anunciaram que Al Gore seria o vencedor na Flórida. Na mesma noite, porém, ficou claro para os especialistas que a votação seria mais apertada do que haviam previsto. Com isso, voltaram atrás pela primeira vez e retiraram a vitória de Al Gore.

Na madrugada do dia seguinte, algumas das emissoras passaram a dar a vitória no estado para George W. Bush, enquanto outras mantiveram a posição de que era muito cedo para dizer. A segunda posição acabou se mostrando a mais correta, tendo em vista que logo em seguida os veículos que haviam dado a vitória a Bush voltaram atrás pela segunda vez em menos de 24h.

Importante lembrar que essas projeções e anúncios das emissoras não têm poder de influenciar no resultado oficial do pleito, conduzido por cada um dos cinquenta estados norte-americanos. Nos Estados Unidos, não há eleição direta para presidente. Cada estado é representado por um número proporcional de delegados — estes, sim, comparecem à votação do colégio eleitoral e tradicionalmente votam conforme a maioria da população de seu estado votou.

Não há obrigatoriedade, porém, para que os representantes dos estados votem conforme a maioria do eleitorado, e há registros na história de “infiéis”. Isso causou preocupação na campanha de Bush em 2000, pois bastaria que dois delegados tomassem essa atitude e a vitória seria de Al Gore. Isso não aconteceu, e ele levou os votos dos 271 delegados conquistados nas eleições nacionais — um a mais do que o necessário para ser eleito presidente.

Estadão de 14 de dezembro de 2000.

Até o fechamento desta checagem, Joe Biden possuía entre 279 e 290 votos no colégio eleitoral, a depender das projeções. A diferença está no estado do Arizona, no qual algumas emissoras, como a Fox News, já dão a vitória ao democrata, ao passo que outras esperam o resultado definitivo. Em ambos os cenários, Biden já possui o número de delegados necessário para vencer a eleição, por isso foi declarado presidente eleito dos Estados Unidos.

O republicano Donald Trump, que disputava a reeleição, se recusa a aceitar a derrota e judicializou a votação em estados-chave. Apesar disso, levantamento do jornal The New York Times com os escritórios das principais autoridades eleitorais de cada Estado americano não encontrou nenhum indício de fraudes ou irregularidades que pudessem alterar o resultado final.

publicidade

publicidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.