Analista da Fox News que projetou vitória de Biden no Arizona sofre ataques nas redes sociais
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Analista da Fox News que projetou vitória de Biden no Arizona sofre ataques nas redes sociais

Campanha de Donald Trump defende que a disputa pelo estado ainda está em aberto, mas emissora calcula que democrata manterá dianteira

Pedro Prata

06 de novembro de 2020 | 18h52

Um consultor do canal de televisão privado Fox News, Arnon Mishkin, se tornou alvo de desinformação após projetar a vitória do democrata Joe Biden no estado do Arizona. A decisão foi tomada ainda na terça-feira, 3, e recebeu críticas da campanha de reeleição do republicano Donald Trump, segundo a qual o estado ainda segue em disputa.

Postagens nas redes sociais acusam Mishkin de ter feito uma decisão enviesada por ser eleitor democrata. No entanto, ele é um dos consultores do “decision desk” da Fox News desde 1998. Isso quer dizer que ele projetou a vitória de Trump em 2016 e do republicano George W. Bush em 2004. As projeções de vitória feitas pela emissora não interferem na contagem de votos nos estados. Cada governo estadual é responsável por gerir suas eleições e declarar oficialmente os vencedores, em um processo que pode ir até dezembro.

Foto: Reprodução

A “decision desk” da Fox é um grupo de analistas independentes que faz projeções para o canal de televisão sobre a vitória ou derrota de cada candidato em cada estado a partir do andamento da apuração. Ele não é um funcionário do canal, mas sim um conselheiro do grupo de projeções.

A imprensa norte-americana tem repórteres em condados espalhados ao redor do país para coletar os dados publicados oficialmente sobre a votação e muitas vezes cruzam estes dados com mais de uma fonte. Informações sobre a escolha do eleitorado também podem ser obtidas por meio de pesquisas tanto antes quanto no dia da eleição. Este trabalho pode ser feito por coalizões da mídia e não interfere na contagem oficial dos votos.

Cada veículo de comunicação possui uma equipe de especialistas, muitas vezes graduados em ciência política que conhecem o histórico eleitoral, político e as condições sociais e demográficas de cada estado, que analisam os números coletados em campo. Esta equipe de especialistas é que avalia as estatísticas e a probabilidade de vitória de um candidato ou de outro.

Em uma reportagem publicada no dia seguinte à eleição, a Fox News explicou a decisão de dar a vitória para Biden no Arizona. Segundo a emissora, um terço do eleitorado estadual era composto por idosos. Nesta parte dos votantes, os votos estariam empatados entre os dois candidatos. A diferença a favor do Biden, portanto, seria consequência do aumento no número de latinos entre os eleitores e da condução do combate à pandemia pelo governo republicano, vista de forma negativa pela população do estado.

A Fox News é um canal conhecido por ser aliado ao presidente Donald Trump. Por isso mesmo, a decisão de dar a vitória no Arizona para Biden — e de manter a decisão, após consultar a decision desk — causou indignação na campanha republicana e em alguns dos eleitores do presidente. Em meio a este cenário, circulou nas redes sociais a informação — divulgada pelo próprio analista em entrevista ao jornal The New York Times em setembro deste ano — de que ele teria votado em Hillary Clinton em 2016.

Ainda na terça, Mishkin entrou no ar na emissora para afirmar que “o presidente não será capaz de assumir a liderança e vencer o estado levando-se em conta os votos restantes”, reforçando que mantinham a decisão de dar o estado como vitória de Biden. Na madrugada do dia 4, a Associated Press, responsável pela mais tradicional divulgação dos resultados eleitorais, também deu a vitória no Arizona para Biden. A margem entre Biden e Trump diminui, por isso outros veículos de comunicação mantêm a disputa em aberto.

Assim como nos Estados Unidos, a decisão do canal causou grande reação no Brasil. Um vídeo com mais de 160 mil visualizações no YouTube divulgado no dia 4 de novembro afirmava que “a FoxNews deu a vitória no Arizona para o Joe Biden enquanto as urnas ainda estavam abertas em Nevada”. Também disse que “descobriu-se que o principal funcionário por dar a vitória no Arizona faltando mais de um milhão de votos é um filiado ao Partido Democrata”, informação que não era novidade desde a entrevista de Mishkin para o New York Times.

Donald Trump ganhou a eleição?

O vídeo no YouTube contém outras informações falsas. O blogueiro aparece dizendo que “Donald Trump já é praticamente presidente eleito dos Estados Unidos”, o que não é verdade. O republicano de fato chegou a declarar sua vitória nas primeiras horas da quarta-feira, 4, com base na apuração até aquele momento. Apesar disso, a contagem dos votos estava longe de chegar ao fim. As leis norte-americanas permitem que os votos sejam contados até o dia 14 de dezembro (veja mais informações abaixo).

O historiador Michael Beschloss lembrou em seu Twitter que nas eleições de 1960, 1968, 1976, 2000, 2004 e 2016, o candidato vencedor só foi anunciado dias após a eleição. “Ninguém deve fingir que seria algo historicamente anormal se o mesmo acontecesse em 2020”, escreveu Beschloss. Este ano ainda houve um número muito maior de votos pelo correio por causa da pandemia de covid-19, o que atrasou a contagem.

Em outro momento, o vídeo viral afirma que “De repente, a contagem parou ainda mais, ficou extremamente lenta”, referindo-se à madrugada do dia 4. Esta informação está incorreta. Algumas postagens em redes sociais alegavam que a contagem havia sido interrompida na Pensilvânia, um importante estado para ambos os candidatos. Apesar disso, o comissário Al Schmidt, responsável pelo processo eleitoral na cidade da Filadélfia, afirmou que “NÃO pararemos a contagem”.

Em outro estado cuja apuração foi questionada, a Comissão Eleitoral do Wisconsin informou no Twitter que sua equipe “trabalhou incessantemente durante a noite” para garantir a contagem de cada voto válido. E publicou um recado: “Lembrete – resultados lentos não significam problema, mas sim que os funcionários eleitorais estão fazendo o seu melhor para garantir que cada voto seja contado da forma apropriada.”

Este ano, a contagem de votos deve demorar mais por causa do alto número de votos enviados pelo correio, que exigem etapas extras de registro e validação. Esta modalidade já ocorria em alguns estados, mas foi ampliada para muitos outros por causa da pandemia de covid-19.

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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