É falso que agência americana tenha ‘confessado’ que teste RT-PCR é ineficaz para detectar covid

É falso que agência americana tenha ‘confessado’ que teste RT-PCR é ineficaz para detectar covid

Na realidade, CDC encorajou laboratórios dos EUA a adotarem exame da mesma tecnologia que consegue detectar tanto o novo coronavírus como o vírus da gripe

Victor Pinheiro

02 de agosto de 2021 | 15h00

É falso que o centro de controle e prevenção de doenças infecciosas dos Estados Unidos (CDC) tenha afirmado que os exames RT-PCR para diagnosticar covid-19 são ineficazes e incapazes de diferenciar o novo coronavírus do vírus da gripe, como afirmam postagens nas redes sociais. O boato distorce um comunicado no qual o CDC informa que pretende retirar a recomendação de um exame RT-PCR específico licenciado pelo órgão. 

A decisão da agência não tem relação com o desempenho do exame. O comunicado também não afirma que o diagnóstico seja ineficaz ou que possa confundir diferentes tipos de vírus. Trata-se de uma orientação para que laboratórios usem testes RT-PCR mais modernos. Este tipo de exame analisa sequências genéticas específicas do SARS-CoV-2, de modo que o resultado do diagnóstico não sofre interferência de outros vírus. 

Uma postagem viral no Instagram, entretanto, engana ao afirmar que a agência teria “confessado” a ineficácia dos exames RT-PCR e que os testes não conseguem diferenciar diferentes tipos de vírus. Até esta segunda-feira, o conteúdo acumulava mais de 19,8 mil curtidas na plataforma. 

A origem do boato está em uma interpretação equivocada do seguinte trecho do comunicado da agência: “O CDC incentiva os laboratórios a considerar a adoção de um método multiplexado que possa facilitar a detecção e diferenciação dos vírus SARS-CoV-2 e influenza”. 

O alerta do CDC orienta que os laboratórios devem substituir o exame “CDC 2019-Novel Coronavirus (2019-nCoV) Real-Time RT-PCR Diagnostic Panel” por uma alternativa certificada pela agência sanitária dos Estados Unidos. Conforme painel do FDA, há uma série de outros exames RT-PCR, desenvolvidos por diferentes instituições, autorizados no país. 

Em resposta por e-mail ao Estadão Verifica, o CDC explicou que, desde a implantação do exame, fabricantes comerciais desenvolveram outros testes mais rápidos e eficientes. Isso diminuiu significativamente a demanda pelo produto. O alerta da agência recomenda que os laboratórios adotem uma alternativa multifuncional que, além de detectar o vírus da covid, também pode diagnosticar infecções por vírus gripais. 

“O CDC Novel Coronavirus (2019 nCoV) Real-Time RT-PCR é um teste altamente preciso; a decisão de descontinuar sua recomendação nos EUA não foi baseada na performance do ensaio”, assegurou o CDC na resposta enviada ao Estadão

A instituição afirma estar encorajando laboratórios da rede pública de saúde americana a adotar o ensaio “Multiplex CDC Influenza SARS-CoV-2 (Flu SC2)”, para permitir a vigilância contínua tanto para a gripe quanto para a SARS-CoV-2. Segundo o CDC, a medida deve “economizar tempo e recursos”. O produto é licenciado no FDA, agência regulatória norte-americana, desde novembro de 2020.

A resposta do CDC sublinha o equívoco do boato negacionista. O exame Flu SC2 também é um teste do tipo RT-PCR. A diferença é que, com uma única amostra de material recolhido das vias respiratórias do paciente, o produto pode ser aplicado para diagnosticar infecções do novo coronavírus, da influenza A e influenza B.

O RT-PCR ou teste molecular é considerado o padrão ouro dos exames de diagnóstico de covid-19. Foto: Andrea Rego Barros/ Prefeitura de Recife

O pesquisador do Instituto de Medicina Tropical da USP José Eduardo Levi ressaltou ao Estadão Verifica que não há chance de um teste RT-PCR para covid confundir diferentes vírus, uma vez que o exame é baseado na sequência do material genético do microorganismo analisado. 

“Além de existir muito pouca semelhança na sequência do RNA da gripe (Influenza) quando comparada à do SARS-CoV-2, quando se desenha o PCR se evita regiões do RNA com semelhança a qualquer outro vírus ou organismo. A tecnologia é altamente específica”, destaca Levi. 

Com a palavra, o site responsável pela postagem

Em resposta ao Estadão Verifica, o site Brasil Sem Medo defendeu que a decisão do CDC por recorrer a alternativas mais eficientes indica que havia um grau de imprecisão no teste RT-PCR que será descontinuado, embora o órgão tenha assegurado que o ensaio é altamente eficaz. “A imprecisão do teste RT-PCR, portanto, é o principal motivo do alerta do CDC, que recomenda a utilização de um novo teste que identifique tanto o Sarscov2 quanto o vírus Influenza, o que significa que o teste atual não tem essa capacidade. Ou seja, é INEFICAZ para as novas condições”.

Sem apresentar fontes, o site também afirmou que a ineficácia do RT-PCR é uma opinião de parte da comunidade médica, que acredita que o teste não é adequadamente específico e pode dar margem a falsos positivos. “A opinião dessa parcela de médicos não é uma opinião proibida”, argumenta o site.

Alvo recorrente de desinformação

Os exames RT-PCR são alvos recorrentes de boatos que procuram minimizar a pandemia de covid-19 e espalhar teorias da conspiração. Em outubro, uma reportagem do Estadão Verifica mostrou que uma ação coletiva contra a Organização Mundial da Saúde (OMS) propagada nas redes sociais era baseada em alegações falsas e infundadas sobre exames RT-PCR e o número de mortes por covid mundial.

O projeto Comprova também desmentiu um conteúdo semelhante, que afirmava que a pandemia era uma fraude. Na ocasião, especialistas reforçaram que os exames RT-PCR têm um grau de confiabilidade para detectar casos positivos de covid acima de 90%. Outro boato desmentido espalhou alegações enganosas de que os ensaios poderiam provocar inflamação no cérebro. 

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