Drenagem postural para pacientes de covid-19 com falta de ar é ineficaz e pode causar danos; cuidado com dicas enganosas

Drenagem postural para pacientes de covid-19 com falta de ar é ineficaz e pode causar danos; cuidado com dicas enganosas

Segundo especialistas, procedimento caseiro não deve ser visto como alternativa à suplementação de oxigênio

Letícia Simionato, especial para o Estadão

28 de fevereiro de 2021 | 17h43

Uma postagem publicada no Facebook indica a drenagem postural – um procedimento antigo, que permite que a secreção dos brônquios escorra por ação da gravidade – como alternativa no tratamento de pacientes com covid-19 que sintam falta de ar e que não tenham acesso a oxigênio hospitalar. O Estadão Verifica conversou com especialistas que esclareceram que a publicação é enganosa e que a técnica não tem eficácia para pacientes com o vírus e, muito menos, pode substituir o uso de oxigênio em casos de falta de ar.

O boato viraliza desde o começo do ano, quando pessoas morreram em hospitais do Amazonas pela falta de oxigênio, e já teve ao menos 56,2 mil compartilhamentos. O texto acompanha uma imagem com dois desenhos de como a pessoa poderia se posicionar utilizando alguns utensílios domésticos, como cadeira e travesseiros. A publicação ainda traz instruções: “Se sentir alguma dificuldade para respirar ou muita mucosidade, inale e exale lentamente nesta posição, de 15 a 20 minutos, 3 vezes por dia ou todo o tempo que precisar.”

Técnica pode agravar quadro de falta de ar. Foto: Reprodução

Segundo Evaldo Marchi, pneumologista e diretor da Faculdade de Medicina de Jundiaí, é errado indicar a drenagem postural – um método antigo e raramente usado em hospitais – como tratamento para pacientes com o novo coronavírus, já que a técnica não tem eficácia para reduzir a falta de ar. “A covid-19 é uma doença que atinge os alvéolos, e não a árvore brônquica. A falta de ar acontece por causa de um infiltrado no parênquima pulmonar que obstrui os alvéolos e dificulta a troca de oxigênio, ou seja, não é um problema brônquico de acúmulo de secreção que poderia ser resolvido pela posição do corpo.”

Para Marchi, a drenagem pode até ser perigosa se realizada em domicílio, da maneira como é representada na imagem em circulação, e sem auxílio médico. “Se uma pessoa obesa ficar nessa posição, por exemplo, o peso do abdômen pode pressionar e causar até mais falta de ar.”

De acordo com José Eduardo Afonso Jr, pneumologista do Hospital Israelita Albert Einstein, o que vem sendo usado nos hospitais é a pronação, que é uma manobra de fisioterapia em que o paciente é colocado de barriga para baixo para que as áreas posteriores do pulmão possam se abrir e tenham maior ventilação.

Mas até a pronação é uma manobra de fisioterapia complementar, ou seja, é utilizada em casos específicos e não pode substituir o tratamento realizado no hospital. “Não são todos os pacientes que respondem à pronação”, afirmou José Eduardo Afonso Jr. “É um tratamento complementar para ajudar na ventilação, mas, antes de ser aplicado, é necessária a realização de análise pela equipe médica. Não tem cabimento fazer qualquer manobra dessas em casa sem ir ao hospital. O quadro pode se agravar e levar a uma insuficiência respiratória aguda.”

Para Raquel Stucchi, infectologista da Unicamp e Consultora da Sociedade Brasileira de Infectologia, toda pessoa com covid-19, mesmo se sentindo bem, deve ir ao hospital para fazer monitorização com oximetria de dedo. “Em adultos e idosos, pode ocorrer a hipóxia silenciosa – condição em que a pessoa tem falta de oxigênio e não percebe. Sempre que a oximetria ficar menor que 95%, ou se a pessoa sentir cansaço para fazer atividades corriqueiras, ela deve procurar o atendimento médico presencial, tendo ou não oxigênio no hospital onde ela está.”

Segundo a infectologista, a orientação de fazer a pronação pode ser adotada até por consulta virtual. Mas a oximetria é necessária. “Se no atendimento não houver indicação de internação nem de oxigênio suplementar, deitar de bruços favorece uma melhor oxigenação do pulmão para pacientes com covid, mas isso só pode ser feito depois de avaliação médica.”

Raquel Stucchi esclarece ainda que a técnica é utilizada na área médica em crianças com quadro de resfriado, não de covid-19. “Quando a criança está com muito catarro, a gente deita de bruços e fica dando tapinha nas costas dela para soltar a secreção.”

Caso o paciente esteja com falta de ar e, por algum motivo, tenha demora no atendimento, é recomendável que ele preserve energia e evite ao máximo fazer esforço até que a equipe médica consiga atendê-lo. Dessa forma, deve-se evitar qualquer tipo de manobra em casa, recomendou José Eduardo Afonso Jr.

Este conteúdo também foi verificado pela agência Polígrafo, de Portugal.

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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