É falso que casais tenham que se vestir como no casamento para pedir divórcio em Gana

É falso que casais tenham que se vestir como no casamento para pedir divórcio em Gana

Boato surgiu como piada em 2018 e traz uma foto de seis noivos orando em Uganda, manipulada digitalmente

Samuel Lima

29 de novembro de 2021 | 12h00

Não é verdade que os casais que desejam se divorciar em Gana precisem se vestir do mesmo jeito como celebraram o matrimônio, como alega uma postagem recente no Facebook com mais de 4,7 mil compartilhamentos. A foto, na realidade, retrata a preparação para um casamento de fato, em Uganda, há 12 anos. Já a suposta exigência aos ganeses não existe na legislação do país africano.

Apesar de a história ter se originado como uma piada, alguns usuários das redes sociais compartilham como se ela fosse verdadeira no Brasil. “Pra ver se bate o arrependimento de se divorciarem…”, comenta um perfil no post. “Tá correto, eu concordo”, afirma outro.

Por meio de uma busca reversa de imagens na plataforma TinEye, o Estadão Verifica encontrou a mesma foto que circula agora nas redes sociais no site da agência de fotografias britânica Alamy, creditada a Becky Matthews. O fotógrafo registrou a imagem em 29 de janeiro de 2009, na cidade de Pader, em Uganda.

Registro é de um casamento em um campo de deslocados internos em Uganda. Foto: Reprodução | Alamy

Na legenda, o autor da foto descreveu o momento como: “Amigos e familiares se encontram para o casamento coletivo de seis casais Acholi em um acampamento de deslocados internos de Lacekocot”. Ele acrescentou que as pessoas retratadas estão sentadas orando — e não lamentando o episódio, como sugerem as postagens que circulam agora nas redes sociais.

Os acholi são um grupo étnico que habita a região norte de Uganda e o Sudão do Sul. Já o termo “deslocados internos”, segundo o Alto-Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (Acnur), descreve pessoas forçadas a migrar dentro de seu próprio país, pelos mesmos motivos de um refugiado, mas que não atravessaram uma fronteira internacional para buscar proteção.

Uganda também está localizado na África, mas a uma distância de aproximadamente 3,8 mil quilômetros de Gana, em linha reta. Enquanto o primeiro fica na região central do continente, o segundo se situa no chamado Golfo da Guiné, na costa ocidental da África. 

As condições para o registro de divórcio em Gana estão descritas no Marriages Act (disponível no documento abaixo, em inglês). A legislação estabelece, por exemplo, que as partes façam uma declaração legal informando que o casamento foi dissolvido e exige que o documento seja apoiado pelos pais dos cônjuges. Não há exigências em relação a roupas para entrar com o pedido.

Documento

Origem da desinformação

Desde que a foto foi publicada, alguns sites passaram a atribuir um sentido diferente e negativo para a imagem na internet, sugerindo que aquelas pessoas estariam “infelizes”. Isso ocorreu porque os noivos aparecem na foto com as mãos no rosto ou olhando para o chão, com semblante sério, enquanto rezam.

Em dezembro de 2018, um site humorístico norte-americano chamado “There Is News” divulgou um relato completamente falso sobre a fotografia, segundo checagem do Snopes. A página inventou que a foto mostrava três casais em uma “sala de divórcio” em Gana e que a situação era fruto de uma condição imposta pelas autoridades para autorizar a medida: comparecer vestindo as mesmas roupas com que celebraram o casamento.

Para dar mais autenticidade para a história, a imagem foi manipulada digitalmente para mostrar uma inscrição em francês na parede atrás dos noivos: “Salle de Divorce, tous les coups sont permis” — algo como “Sala de Divórcio: todos os golpes são permitidos”, em tradução livre. O idioma usado na edição é outro indício de falsidade, pois a língua oficial de Gana é o inglês.

Apesar de seu nome invocar a palavra notícias, o “There is News” é assumidamente uma página de mentiras. Ela traz a expressão “Not real, but so funny” — “Não é real, mas é tão divertido” — embaixo do título principal e esclarece, em uma aba de apresentação, que a proposta é a do “entretenimento” e que todo o conteúdo publicado por ele “é ficção e não corresponde à realidade”.

Site de humor inventou história sobre divórcio em Gana. Foto: Reprodução | There Is News

Esse boato circulou em diferentes momentos e foi checado, além do Snopes, por Africa Check, AFP e Fato ou Fake.


Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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