Deputado bolsonarista espalha inverdades sobre produção de vacinas pela Fiocruz no Ceará

Deputado bolsonarista espalha inverdades sobre produção de vacinas pela Fiocruz no Ceará

Instituição nega participação de unidade de Eusébio na fabricação do imunizante; Ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA) nacional será feito na planta industrial de Bio-Manguinhos, no Rio de Janeiro

Samuel Lima, especial para o Estadão

26 de março de 2021 | 11h15

Não é verdade que um novo complexo tecnológico da Fiocruz na cidade de Eusébio, no Ceará, será capaz de “quadruplicar” a produção de vacinas contra a covid-19 a partir da metade do ano. A alegação falsa aparece em vídeo gravado pelo deputado estadual cearense Delegado Cavalcante (PSL), que distorce a finalidade e o andamento de um projeto da instituição para fazer elogios à atuação do presidente Jair Bolsonaro durante a pandemia. O conteúdo teve mais de 40 mil visualizações e 2,3 mil compartilhamentos no Facebook.

A peça de desinformação analisada pelo Estadão Verifica mostra o político em frente aos portões fechados da sede da Fiocruz/Ceará, localizada em Eusébio. Em uma sequência de frases confusas, Cavalcante primeiro aponta para o prédio e fala em “fabricação de vacina contra a covid-19”. Depois, alega que a unidade seria responsável por fabricar insumos, que seriam então enviados ao Rio de Janeiro para acelerar o ritmo de trabalho. “A partir do meio do ano, mais ou menos, quando o complexo ficar pronto, vai quadruplicar a produção. Nós vamos ter na faixa de 4 milhões de vacinas por dia.”

Deputado cearense espalha desinformação sobre produção de vacina contra a covid-19. Foto: Reprodução / Arte: Estadão

Diferentemente do que sugere o deputado, o Complexo Tecnológico em Insumos Estratégicos (CTIE) a que ele se refere nem começou a ser construído ainda, e não há previsão para que entre em funcionamento. Além disso, a Fiocruz afirmou ao Estadão que não pretende utilizar essa estrutura para a produção do Ingrediente Farmacêutico Ativo (IFA) das vacinas contra a covid-19 — pelo menos, não a curto e médio prazo. “O IFA da vacina contra a covid-19 será produzido no Rio de Janeiro, na planta industrial de Bio-Manguinhos, que se encontra em adaptação para esta finalidade”, destaca a instituição. 

A Fiocruz também esclareceu que a construção da fábrica de insumos no CTIE não está incluída na primeira parte da obra, com previsão de início até o final do ano. A equipe está elaborando hoje o projeto executivo das áreas administrativas, de desenvolvimento tecnológico e do almoxarifado. “Em paralelo, estão em discussão os projetos das instalações de produção de IFAs, que serão construídas em etapa posterior”. O investimento total do projeto é estimado em R$ 950 milhões, e não R$ 3 bilhões, como também sugere erroneamente o deputado. 

Atualmente, a Fiocruz está produzindo a vacina desenvolvida pela farmacêutica AstraZeneca em parceria com a Universidade de Oxford, usando insumos importados. A produção em larga escala teve início em 8 de março deste ano, e a tendência é que a capacidade de processamento de Bio-Manguinhos chegue a 1 milhão de doses por dia nas próximas semanas, segundo a instituição de pesquisa. 

O cronograma mais recente divulgado pela Fiocruz prevê a entrega de 3,9 milhões de doses do imunizante neste mês de março, 18,8 milhões em abril, 21,5 milhões em maio, 34,2 milhões em junho e 22 milhões em julho, totalizando 100,4 milhões de doses para distribuição aos brasileiros pelo Sistema Único de Saúde (SUS). O investimento é de R$ 1,99 bilhão para compra, processamento e distribuição da vacina.

O IFA ainda não é fabricado nacionalmente, como mostra outra checagem publicada recentemente pelo blog. De acordo com o Bio-Manguinhos/Fiocruz, a produção desse insumo deve iniciar depois de maio. “As instalações para produção nacional do IFA estão em fase de adequação, deverão ser inspecionadas pela Anvisa entre abril e maio, e após isto iniciaremos a produção do ingrediente em nossas instalações”, informou a entidade na terça-feira, 23.

Sobre a alegação de que o CTIE no Ceará poderia “quadruplicar” a produção de insumos para a vacina contra a covid-19, a Fiocruz indica que o autor do vídeo pode ter se confundido com outro complexo industrial que está nos planos em Santa Cruz, no Rio de Janeiro. A estrutura pode aumentar em quatro vezes a capacidade de produção de vacinas e biofármacos do Bio-Manguinhos como um todo, mas só deve ficar pronta em 2025. O edital da obra foi publicado em fevereiro.

Vacina funciona; ‘tratamento precoce’, não

Além de desinformar sobre a unidade da Fiocruz no Ceará, o deputado Delegado Cavalcante (PSL) faz outras declarações infundadas no vídeo para propagandear o suposto “tratamento precoce”, defendido pelo presidente Jair Bolsonaro e seus apoiadores na contramão de especialistas. O kit de remédios composto por hidroxicloroquina, ivermectina, azitromicina, zinco e outras drogas não tem validade científica e pode trazer graves prejuízos para a saúde.

O deputado espalha inverdades ao afirmar que o combo de remédios “já está comprovado cientificamente, publicado em várias revistas científicas do mundo todo” e que o uso seria capaz de prevenir internações em hospitais. Os principais órgãos mundiais de saúde afirmam justamente o contrário, como mostrou o Estadão Verifica em várias outras checagens desde o início da pandemia.

Nenhuma dessas drogas é recomendada como forma de tratamento ou prevenção contra o novo coronavírus. Algumas apresentaram resultados promissores em testes de laboratório e pesquisas iniciais, mas falharam em comprovar qualquer benefício em estudos científicos mais amplos e de metodologia mais robusta — as chamadas pesquisas “padrão ouro”, que determinam a eficácia clínica de uma droga com o mínimo de interferência externa. 

A Organização Mundial da Saúde (OMS) destaca que não existe nenhum tratamento precoce contra a covid-19. O incentivo ao uso dessas drogas também é repudiado por mais de 80 entidades médicas e científicas brasileiras, que recentemente pediram o banimento da prescrição do “kit covid” nos hospitais. As melhores formas de se prevenir contra o novo coronavírus são o uso de máscara, distanciamento social e a higienização das mãos. 

Já as vacinas aprovadas no Brasil realmente funcionam. São três os imunizantes autorizados pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) até o momento: Coronavac (desenvolvida pela farmacêutica Sinovac e produzida pelo Instituto Butantan), Covishield (produto da Universidade de Oxford e da empresa Astrazeneca, produzida pela Fiocruz) e Cominarty (desenvolvida pelas indústrias Pfizer e BioNTech).

As três vacinas passaram por uma série de experimentos, incluindo testes com milhares de voluntários, e provaram em estudos publicados nas revistas The Lancet e New England Journal of Medicine e por dados analisados pela Anvisa que são eficientes e seguras para serem aplicadas na população. A campanha de vacinação é importante tanto para reduzir o nível de contágio quanto para diminuir a chance de o paciente desenvolver quadros graves em caso de contaminação pelo vírus.

Esta checagem foi feita com informações científicas e dados oficiais sobre o novo coronavírus e a covid-19 disponíveis no dia 26 de março de 2021.

Outro lado

A reportagem procurou o deputado Delegado Cavalcante (PSL), mas não conseguiu contato até a publicação desta checagem. O espaço está aberto.

 

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