Corrigido: saída de investimento estrangeiro no Brasil foi de US$ 31,2 bilhões, segundo BC

Corrigido: saída de investimento estrangeiro no Brasil foi de US$ 31,2 bilhões, segundo BC

Valor que engloba aportes em ações, fundos de investimento e títulos da dívida pública representa recorde para um primeiro semestre na série histórica do BC, iniciada em 1995

Tiago Aguiar

31 de julho de 2020 | 16h00

CORREÇÃO (01/08/2020): Na última sexta-feira, 31, publicamos checagem de uma postagem que afirmava que a fuga de investimentos do Brasil havia superado R$ 150 bilhões em seis meses. Concluímos que o dado era falso a partir de um entendimento do conceito da “investimento estrangeiro” diferente do utilizado pelo autor. Consideramos em nossa análise dados da Anbima, do Tesouro Nacional e da B3 (bolsa de valores).

Na terça-feira, 28, porém, o Banco Central publicou um balanço que mostrava que a saída de investimentos em portfólio (feitos por não-residentes em títulos e ações) entre janeiro e junho deste ano no País foi de US$ 31,2 bilhões — o que, na cotação do dia 31 de julho, representa cerca de R$ 163,9 bilhões.

Diante dessas informações, retiramos a classificação de “falso” na postagem analisada no Instagram. Abaixo, o texto original da checagem: 

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Uma manchete falsa que circula no Instagram exagera o saldo negativo de investimento estrangeiro no Brasil. Uma imagem publicada pela página “Bolsominions arrependidos” afirma: “Com Bolsonaro, Brasil tem a maior fuga de investimentos estrangeiros da história do país, superando 150 bilhões de reais em seis meses”.

Não encontramos nenhum artigo que tivesse a manchete mostrada na imagem analisada. Mais importante, os dados apresentados no texto estão incorretos: apesar de alta, a fuga de investimento externo no governo do presidente Jair Bolsonaro não é de R$ 150 bilhões em qualquer intervalo de seis meses analisado.

A bolsa de valores brasileira, a B3, divulga mensalmente a movimentação de capital estrangeiro no Brasil. Para o cálculo do saldo, além da compra e venda de ações, é levada em conta a abertura de novos capitais e novas emissões de empresas já estabelecidas (IPOs e Follow Ons). O resultado consolidado de 2020 até o último dia 28 — período que soma quase sete meses — é de um déficit de R$ 70,9 bilhões. Excluindo janeiro, o saldo negativo passa para R$ 52,6 bilhões nos últimos seis meses.

Como é possível ver na tabela abaixo, o balanço de 2020 é pior do que qualquer período de seis meses do ano passado. Por isso, analisamos nesta checagem outros dados deste ano (leia mais abaixo).

Movimentação dos investidores estrangeiros. Foto: Divulgação/B3

O resultado em 2020 é de fato o pior em valores nominais da série histórica dos últimos 16 anos, mas analistas preveem que o déficit diminua até o final do ano.

Fundos e ‘títulos da dívida’

Apesar de a conta de saldo de investimento em um país normalmente ser feita apenas a partir de capital aberto, no texto da postagem é mencionado que o déficit seria a soma de “aplicações em ações, fundos de investimento e títulos da dívida”.

O boletim de fundos de investimento da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiros e de Capitais (Anbima) registra que a saída líquida de capital entre janeiro e junho deste ano foi de R$ 16,2 bilhões. O número engloba todos os tipos de fundo, incluindo os de ações. Não é possível, no entanto, discriminar a porcentagem de investimento estrangeiro nessa variação.

Títulos de dívida pública são emitidos pela Secretaria do Tesouro Nacional, do Ministério da Fazenda. Quando os pagamentos e recebimentos são realizados em moeda estrangeira (dólar, normalmente), o valor é classificado como dívida externa. No início de junho, o Tesouro emitiu US$ 3,5 bilhões no mercado externo, a primeira incursão do tipo desde novembro. A emissão contou com forte demanda e levou as taxas de retorno para baixo do inicialmente estimado. Ao final, o que ocorreu foi a entrada de cerca de R$ 15 bilhões de dinheiro externo.

Em relação à dívida interna (títulos negociados em real), houve queda de capital estrangeiro. Segundo o último relatório da dívida do Ministério da Fazenda, entre o final de dezembro de 2019 e junho deste ano, os não-residentes no Brasil retiraram R$ 48,7 bilhões do estoque de títulos públicos federais, que passou de R$ 425,8 bilhões para R$ 377,1 bilhões.

Relatório Mensal da Dívida Pública Federal de junho de 2020

Portanto, mesmo incluindo os últimos sete meses da B3, ao invés dos últimos seis, assumindo que todo o capital em fundo de investimentos que saiu seja estrangeiro, e excluindo a captação de dívida feita em junho, encontramos um valor inferior ao da postagem (70,9+16,2+48,7=135,8).

O economista Rodrigo Franchini disse ao Estadão Verifica que os números da postagem são errados, além de estranhar o método do cálculo da postagem. “A partir dos números disponíveis da B3 não é razoável estimar saída de 150 bilhões de reais”. O economista também avaliou a necessidade de mais pé no chão para análise comparativa. “Além da projeção de melhora, é mais razoável esperar o final do ano para comparações de ciclos”, concluiu.

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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