Bolsonaro tira fala de Merkel de contexto e motiva desinformação sobre lockdown nas redes

Bolsonaro tira fala de Merkel de contexto e motiva desinformação sobre lockdown nas redes

Primeira-ministra alemã se desculpou por anunciar confinamento rígido para a Páscoa de forma de forma apressada, sem tempo para organizar medidas

Pedro Prata

29 de março de 2021 | 13h21

Circulam nas redes sociais postagens enganosas que dizem que a primeira-ministra da Alemanha, Angela Merkel, teria se desculpado por decretar um lockdown nacional. A chanceler de fato se desculpou e voltou atrás na decisão de decretar um confinamento de Páscoa, mas o recuo se deu por Merkel ter tomado a decisão de forma precipitada e sem tempo suficiente para adequação das regras. A frase da política alemã foi tirada de contexto pelo presidente Jair Bolsonaro durante conversa a apoiadores no Palácio do Planalto.

Um comunicado do governo da Alemanha diz: “As várias questões que surgiram não poderiam ser atendidas de forma satisfatória no curto espaço de tempo disponível”. Portanto, Merkel não se desculpou por decretar o lockdown, mas sim por tê-lo feito de forma apressada.

Após uma reunião de mais de 12 horas com todos os governadores dos 16 estados alemães nesta terça-feira, 23, a primeira-ministra decretou um lockdown rígido que estava programado para ocorrer no feriado da Páscoa. O bloqueio nacional estenderia em dois dias o feriado e fecharia até os serviços essenciais, sendo que as lojas de alimentos poderiam abrir apenas no sábado de Páscoa.

No entanto, a medida sofreu muitas críticas de empresários e setores da sociedade. Epidemiologistas questionaram que abrir lojas apenas em um dia causaria aglomerações, que poderiam ajudar a espalhar o vírus. A repercussão negativa levou Merkel a voltar atrás e suspender a decisão.

O recuo não interfere em restrições sociais que já estavam em vigor, como a proibição a reuniões privadas com mais de cinco pessoas de casas diferentes. “É preciso reconhecer os erros de erros e acima de tudo, precisamos corrigi-los”, disse a chanceler ao se desculpar pela incerteza que causou com seu pronunciamento.

O governo está sob forte pressão para conter os números da covid-19, que voltaram a crescer no país, e para impedir a disseminação da variante britânica do novo coronavírus. Merkel falou que os alemães precisam “simplesmente quebrar a terceira onda da pandemia” e que o lockdown de Páscoa foi pensado “com as melhores intenções”.

Bolsonaro usou o assunto para atacar lockdown

As publicações enganosas ganharam tração nas redes após o presidente Jair Bolsonaro usar o assunto para criticar prefeitos e governadores que adotaram medidas de isolamento social em meio à escalada nos casos e mortes por covid-19 no País.

Um apoiador reclamou com Bolsonaro na última quinta-feira, 25, de a cidade do Rio de Janeiro fechar os serviços não essenciais de 26 de março a 4 de abril. O presidente então respondeu: “A Angela Merkel ia ter um lockdown rigoroso lá, ela cancelou e pediu desculpas. Ela falou que os efeitos de fechar tudo são muito mais graves do que os efeitos do vírus”, citando um argumento que não foi usado pela primeira-ministra.

Não é a primeira vez que a eficácia do lockdown é contestada por grupos bolsonaristas nas redes sociais. O Estadão Verifica já mostrou que falas de representantes da Organização Mundial da Saúde (OMS) foram tiradas de contexto para falsamente alegar que a organização seria contra lockdowns. Outras postagens citam um estudo israelense que foi publicado em redes sociais, não aparece em revistas científicas e não foi revisado por pares.

Por outro lado, um estudo do Imperial College de Londres publicado na revista científica Nature comparou medidas de lockdown aplicadas em 11 países europeus entre fevereiro e maio de 2020 e concluiu que elas tiveram um forte efeito na redução da transmissão do vírus. Medidas de isolamento social enfraquecem a pandemia na medida em que cortam a cadeia de transmissão do novo coronavírus.

A Secretaria de Comunicação da Presidência foi procurada, mas não comentou a fala de Bolsonaro.

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