Para atacar lockdown, blog tira de contexto entrevista de representante da OMS
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Para atacar lockdown, blog tira de contexto entrevista de representante da OMS

Na verdade, entidade internacional reconhece importância de lockdowns para frear transmissão do coronavírus, mas ressalta que medida tem impacto negativo profundo na economia e não é sustentável a longo prazo

Pedro Prata

03 de março de 2021 | 13h03

É enganoso o texto de um blog que afirma que a “OMS condena o lockdown”, que a medida “não salva vidas” e que um representante da organização teria dito que “a única coisa que os lockdowns conseguiram foi pobreza”. O conteúdo distorce a fala de David Nabarro, enviado especial da Organização Mundial da Saúde, durante entrevista para a revista britânica The Spectator.

O texto do blog The Frontliner, compartilhado ao menos 8,5 mil vezes no Facebook, foi publicado em outubro de 2020, dias depois de a revista britânica publicar a entrevista original. O conteúdo enganoso voltou a viralizar após o Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal citá-la em nota que critica o lockdown decretado pelo governador Ibaneis Rocha (MDB).

Rua em São Paulo fechada à circulação. Foto: Marcia de Chiara/Estadão

No vídeo original, Nabarro diz que é preciso encontrar uma forma de retomar a vida social e a atividade econômica sem que isso signifique aumento no número de casos e mortes pela covid-19. Ele aponta que isso só será possível com alto nível de organização das autoridades sanitárias para rastrear casos de infecção e isolamento dos doentes, além da cooperação da população em aderir ao distanciamento social, ao uso de máscaras e à higiene das mãos.

Ele chega a pedir que líderes globais “parem de usar lockdowns como fonte primária de combate ao vírus” e que os governantes não subestimem a forma com que as medidas de fechamento da economia afetam desproporcionalmente os mais pobres. Apesar disso, em nenhum momento Nabarro aconselha que governos “deixem de confiar nos lockdowns para combater surtos” e para salvar vidas, como dá a entender o texto publicado no The Frontliner. O título do artigo enganoso é “OMS condena o lockdown: não salva vidas e faz os pobres muito mais pobres”.

Na realidade, Nabarro diz que o lockdown diminui a velocidade de contágio do vírus. Com isso, ele deve ser utilizado para “ganhar tempo” no combate à covid-19 e fortalecer os sistemas de saúde para diagnosticar doentes, isolá-los e rastrear seus contatos.

Sobre o lockdown, ele diz: “Um ponto realmente importante (…). Eu gostaria de afirmar novamente: nós, da Organização Mundial de Saúde, não defendemos o lockdown como o primeiro meio de controle do vírus. O único momento em que nós acreditamos que o lockdown é justificado é para ganhar tempo para reorganizar, reagrupar e rebalancear seus recursos; proteger seus profissionais de saúde que estão exaustos. Mas, em geral, nós preferimos não fazer isto”.

E reforça: “O lockdown tem uma consequência que jamais deve ser subestimada: tornar os pobres mais pobres”.

O que a OMS pensa sobre lockdown?

Em seu site, a OMS informa que reconhece a importância de lockdowns para frear a transmissão do coronavírus, tendo em vista que o contato entre pessoas é restringido. A organização aponta que em determinados momentos, alguns países “não tiveram opção a não ser decretar lockdowns para ganhar tempo”.

A OMS ressalta que tais medidas têm um “impacto negativo profundo”  nos indivíduos, comunidades e sociedades. E lembra que os mais afetados são os “mais pobres, imigrantes e refugiados, que dependem do trabalho do dia-a-dia para subsistir”. No entanto, termina dizendo que “espera que os países utilizem intervenções onde e quando forem necessárias, baseados na situação de cada local”.

Quatro dias após a entrevista de Nabarro, o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom, leu um comunicado criticando a ideia de deixar as pessoas expostas ao vírus para atingir a imunidade de rebanho. “Não é uma escolha entre deixar o vírus livre para circular e fechar nossas sociedades. O vírus é transmitido entre contatos próximos e causa surtos que podem ser controlados através de medidas direcionadas. Prevenir eventos amplificadores; proteger os mais vulneráveis; empoderar, educar e engajar comunidades. E persistir com as mesmas ferramentas que nós temos defendido desde o primeiro dia: encontrar, isolar, testar e cuidar dos casos, encontrar e pôr em quarentena seus contatos”, afirmou.

Naquela época, o Projeto Comprova procurou a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS, braço da OMS nas Américas) para comentar o seu posicionamento sobre lockdowns. Embora veja essa medida como “insustentável”, a OPAS entende que ela pode ser necessária para suprimir rapidamente o vírus e evitar que o sistema de saúde do país seja sobrecarregado. “Lockdowns não são soluções sustentáveis devido a seus impactos econômicos, sociais e de saúde mais amplos. No entanto, durante a pandemia de covid-19, houve momentos em que as restrições foram necessárias e pode haver outros momentos no futuro”, afirma.

O Comprova também entrevistou a epidemiologista Denise Garrett, que atua há mais de 20 anos no Centro de Controle e Prevenção de Doenças, em Atlanta, nos Estados Unidos. Ela explicou por que as adoções de lockdowns foram importantes no início da pandemia: “Foram importantes para nos dar mais tempo de aprender a tratar melhor os pacientes e preparar o sistema de saúde. Salvaram milhões de vidas e temos vários estudos científicos mostrando esse impacto.”

The Frontliner

Por e-mail, o The Frontliner reforçou ao Estadão Verifica que Nabarro afirmou que “‘lockdowns tem apenas uma consequência’: tornar os pobres mais pobres”. O site ainda falou que foi a revista britânica (The Spectator) que deu destaque para o fato de não haver nenhuma menção ao potencial de vidas salvas.

“Naturalmente, é importante ‘ganhar tempo para reorganizar, reagrupar, reequilibrar seus recursos, proteger seus profissionais de saúde que estão exaustos’ mas a OMS questiona e não recomenda lockdown como primeira opção dos governantes para atingir esses objetivos”, segue o e-mail. “Ainda assim, apenas se esse tempo for empregado para efetivamente melhorar os sistemas de saúde poderá existir expectativa de vidas salvas do vírus, embora com custo de vidas perdidas devido ao lockdown.”

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