Boatos e mentiras se movem em ondas, diz editor do Projeto Comprova
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Boatos e mentiras se movem em ondas, diz editor do Projeto Comprova

Leia a análise de Sérgio Lüdtke sobre a desinformação durante a campanha presidencial de 2018

Sérgio Lüdtke, editor do Comprova

05 Dezembro 2018 | 15h56

O Estadão Verifica republica abaixo a análise do editor do Projeto Comprova, Sérgio Lüdtke, sobre a desinformação nas eleições 2018. O Projeto Comprova foi uma coalizão de 24 veículos de mídia, entre eles o Estado, com o objeto de desmentir informações enganosas, inventadas e deliberadamente falsas durante a campanha presidencial. 

A desinformação nas eleições brasileiras de 2018 moveu-se em ondas e, tal como as marés, obedeceu a uma força gravitacional: a da agenda pública. Por 12 semanas, naveguei em um mar de desinformação tentando fisgar boatos e mentiras criados nas profundezas e que emergiram com impressionante rapidez e força, conduzidos pela malha e pelos nós das redes.

Em três meses, eu e um time de editores e repórteres participamos do Projeto Comprova, uma coalizão de 24 veículos de comunicação criada para verificar boatos e mentiras divulgados por fontes não oficiais durante as eleições presidenciais no Brasil. Monitoramos o ambiente das redes sociais em busca de conteúdos duvidosos que pudessem causar algum tipo de dano ao pleito eleitoral.

Desinformação durante período eleitoral se moveu em ondas, diz Sérgio Lüdtke. Ilustração: Gary Neill/Crosscheck International

Nesse período, pude perceber que os boatos e mentiras faziam um movimento similar ao das ondas. Depois de inundar um ambiente, essas mesmas histórias recuavam para voltar mais tarde com mais ou menos força e alcançar distintos espaços e pessoas. As correntes que comandavam esse fluxo seguiam a agenda pública e os temas morais que dominaram essa agenda. Por exemplo, conteúdo falso sobre pesquisas eleitorais apareciam logo antes ou depois da divulgação de uma pesquisa. Seu criadores provavelmente contavam com um ambiente em que havia um nível mínimo de informação, suficiente para que as pessoas soubessem da realização de uma pesquisa, mas sem que tivessem conhecimento do seu resultado real. Recebida nesse contexto e de pessoas próximas e de confiança, a mentira é aceita mais facilmente como verdade.

Pude perceber ao longo da campanha uma sofisticação crescente nos conteúdos criados para confundir e desinformar.

A desinformação também assume distintos formatos e pude perceber ao longo da campanha uma sofisticação crescente nos conteúdos criados para confundir e desinformar. Essa sofisticação tomou dois caminhos aparentemente opostos: o da complexidade e o da simplificação. Explico.

Enfrentamos desafios de verificação bastante complexos. Foi o caso de uma mentira que tinha o intuito de ligar o candidato de direita João Amoêdo a George Soros, a quem o boato acusava de “financiar a esquerda no mundo”. Para tal, o material propunha conexões forçadas (e mentirosas) de fatos verdadeiros e tirados de contexto. Para desmentir essa história, foi necessário abrir várias frentes de apuração a fim de identificar inconsistências nas narrativas que conectavam os fatos e que atribuíam veracidade ao boato.

Mais complexa ainda foi a apuração de uma teoria conspiratória materializada em um vídeo que alcançou mais de 1,5 milhão de visualizações em pouco mais de 24 horas. No vídeo, publicado dois dias antes do primeiro turno das eleições e produzido com uma linguagem de suspense e num cenário quase opressivo, um homem, pós-doutor em governo eletrônico, coloca em dúvida antecipadamente o resultado das eleições. Ele anuncia o dia em que irá divulgar uma análise, com base em uma lei matemática, do resultado contabilizado pelas urnas eletrônicas. Por seis dias, jornalistas de quatro veículos da coalizão investigaram o conteúdo para concluir que não seria possível determinar uma fraude a partir dessa lei matemática. É muito provável que a verificação feita pelo Comprova, publicada um dia antes da data prometida para divulgação da análise do potencial de fraude, tenha reduzido consideravelmente o impacto do boato.

Lidar com o WhatsApp é um desafio, diz editor do Comprova. Ilustração: Gary Neill/Crosscheck International

Por outro lado, alguns dos boatos de grande alcance verificados pelo Comprova buscaram a simplificação para enganar. Um dos expedientes mais utilizados foi o de baixar a resolução das imagens ou a qualidade dos áudios para dificultar a verificação e facilitar o uso de conteúdos antigos em boatos recentes. Um desses boatos reduziu a resolução de um vídeo gravado dois anos antes, ainda durante as manifestações contrárias ao impeachment da presidente Dilma Rousseff, para ilustrar uma denúncia de que um carro teria sido destruído por manifestantes do Partido dos Trabalhadores por portar um adesivo em favor de seu opositor, Jair Bolsonaro. Nada além de bandeiras vermelhas e uma multidão em torno de um carro branco era identificável no vídeo, mas os elementos foram suficientes para dar veracidade à narrativa em texto que fazia parte do boato. Nesse caso, que parecia de impossível solução, contamos com a sorte e conseguimos encontrar o conteúdo original com uma única busca no Google.

A escassez de informações verificáveis também possibilita a criação de mentiras por sugestionamento, quando faltam afirmações categóricas. Um caso não checado pelo Comprova devido à falta de informações que pudessem ser checadas foi a dúvida lançada nas redes sociais por uma jornalista que afirmava ter recebido de “uma fonte confiável” a informação de que “uma grande revista semanal” havia recebido 600 milhões, numa negociação feita por bitcoins, para destruir Jair Bolsonaro. O post alcançou enorme repercussão e, como era de se esperar, a primeira revista a publicar uma reportagem desfavorável ao candidato ficou com a pecha.

Algumas dezenas de verificações de conteúdo duvidoso feitas pelo Comprova deixaram de ser publicadas por não serem conclusivas. Tínhamos o compromisso de não cometer erros. Publicamos 147 histórias conclusivas nas 12 semanas de atividade do projeto. A maior parte das histórias, 135 (92%), eram falsas. Em alguns casos, conseguimos conter a disseminação dos boatos; em outros, os boatos retornaram em diferentes formatos. Lamentavelmente, foram muito poucos os conteúdos enganosos que foram corrigidos ou deletados por seus autores.

Há ainda alguns sérios desafios para quem investiga conteúdos duvidosos. Como lidar com o WhatsApp é um deles. O respeito à privacidade e à liberdade de expressão nos impedem de encontrar o DNA de conteúdos que trafegam pelo aplicativo mesmo se tiverem capacidade de criar tsunamis de desinformação. Como perceber essas ondas antes que causem estragos? Como encontrar os conteúdos originais e quem os criou? São as perguntas cruciais ainda sem resposta para os jornalistas que trabalham em verificação de conteúdos que trafegam pelo aplicativo.

No mar da desinformação, saber navegar é cada vez mais preciso.

Um outro desafio surgiu pela ação dos partidos políticos e exige nossa atenção. No Brasil, candidatos e partidos criaram seções de verificação próprias nos sites de campanha e alguns boatos de pouca repercussão foram “desmentidos” por eles. Esses desmentidos acabaram ganhando alcance e nos alertam para uma possível inversão de narrativas, de uma vitimização artificial que poderá ser usada no futuro em favor de candidaturas. E quem sabe teremos ainda que lidar com desmentidos publicados antes dos boatos.

A eterna vigilância e o compartilhamento de experiências entre os jornalistas me parecem fundamentais para se ter um ambiente informativo saudável e com algum controle. No mar da desinformação, saber navegar é cada vez mais preciso.