Boato inventa crítica da TV Globo e resposta do Flamengo sobre retorno do futebol na pandemia
As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Boato inventa crítica da TV Globo e resposta do Flamengo sobre retorno do futebol na pandemia

Partida entre rubro-negro e Bangu, que marcou a volta do campeonato carioca, sequer é mencionada em telejornal; clube nega texto atribuído nas redes ao presidente Rodolfo Landim

Samuel Lima, especial para o Estado

25 de junho de 2020 | 21h04

É falsa a corrente no Facebook que atribui ao presidente do Flamengo, Rodolfo Landim, uma resposta ao Jornal Nacional, da TV Globo, a respeito de um suposto comentário sobre o retorno do Campeonato Carioca de Futebol em meio à pandemia do novo coronavírus. As alegações foram inventadas e ganharam repercussão nas redes em meio à disputa jurídica entre clube e emissora sobre os direitos de transmissão de partidas do estadual.

Corrente inventa declarações do Jornal Nacional, da TV Globo, do presidente do Flamengo, Rodolfo Landim. Foto: Reprodução / Arte Estadão

Segundo a mensagem falsa, o executivo teria dito que “é repugnante o jornalismo cadavérico” da TV Globo e que a emissora faz “terrorismo informativo” com objetivos financeiros durante a crise do novo coronavírus. O texto seria uma resposta a um suposto comentário no Jornal Nacional, sem indicação de autoria, de que foi “melancólico e repulsivo o Flamengo comemorar gols enquanto dois pacientes morriam no hospital de campanha ao lado do estádio” — referência à partida contra o Bangu, disputada em 18 de junho, no Maracanã, que terminou três a zero para o rubro-negro

Procurada pelo Estadão Verifica, a assessoria de comunicação do Flamengo afirmou que a mensagem é “fake” e, portanto, nunca foi dita por Rodolfo Landim. Além disso, a reportagem consultou a íntegra das edições do Jornal Nacional de 18 e 19 de junho e constatou que a partida que marcou o retorno do futebol brasileiro após semanas de paralisação por conta da pandemia sequer é mencionada. O telejornal preferiu noticiar apenas a medida provisória que altera os direitos de transmissão de jogos de futebol na data do jogo e não teve reportagens esportivas no dia seguinte.

A suposta declaração também não foi encontrada em nenhuma reportagem de outro programa da TV Globo ou de qualquer outro veículo, ainda que o fato de que duas pessoas morreram no hospital de campanha naquele mesmo dia tenha sido mencionado em reportagens de veículos como o jornal Extra, do Rio de Janeiro, e pelo jornalista esportivo Mauro Cezar Pereira. O Estadão também publicou reportagem com a informação de que 258 pessoas com covid-19 estavam sendo atendidas do lado de fora do estádio enquanto ocorria a partida.

MP de Bolsonaro e disputa entre Flamengo e Globo

O boato nas redes sociais aproveita a disputa recente entre o clube e a emissora para espalhar desinformação. Em 18 de junho, o presidente Jair Bolsonaro assinou a Medida Provisória 984/2020, que flexibiliza contratos dos clubes com os jogadores de futebol durante a pandemia do novo coronavírus. O texto causou polêmica ao determinar que os direitos de transmissão dos jogos pertencem ao mandante da partida. Anteriormente, as emissoras precisavam ter contrato vigente com as duas equipes envolvidas. 

A Globo é detentora dos direitos de transmissão do Campeonato Carioca de Futebol até 2024 e acertou com 15 clubes, com exceção do Flamengo. Após a publicação da MP, Rodolfo Landim disse que o clube estava livre para negociar os jogos em que o Flamengo é mandante com qualquer emissora, e que as partidas poderiam ser transmitidas em canal próprio, a FlaTV, independentemente do adversário.

A Globo, por outro lado, divulgou nota defendendo que a medida não afeta as competições cujos direitos já foram cedidos pelos clubes e ameaçou “tomar medidas legais contra qualquer tentativa de violação de seus direitos adquiridos”. A posição jurídica é compartilhada por advogados do direito esportivo independentes ouvidos em reportagem do Estadão.

Na quarta-feira, 24 de junho, a emissora entrou com pedido de liminar na Justiça, para impedir que o Flamengo transmita ou ceda os direitos de transmissão do jogo contra o Boavista, válido pela quinta rodada da Taça Rio. A partida está marcada para 1º de julho, depois que o Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) acatou pedido de Fluminense e Botafogo e adiou os jogos dos dois times na quarta rodada para 28 de junho, obrigando a Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro (Ferj) a revisar o calendário do estadual.

A MP foi publicada por Bolsonaro cerca de um mês depois de o presidente tratar do assunto com representantes de Flamengo e Vasco, em compromisso fora da agenda oficial. Os dois clubes cariocas defenderam a volta da competição esportiva, ao contrário de Fluminense e Botafogo, que se manifestaram contra o retorno do estadual. Em 17 de junho, um dia antes da medida, Landim acompanhou a posse do ministro das Comunicações, Fábio Faria, em Brasília. Na solenidade, o presidente da República usou um broche com o escudo do clube. Entre os parlamentares, o despacho ganhou o apelido de “MP do Flamengo”.

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

publicidade

publicidade

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.