BNDES investiu mais em obras no Brasil do que no exterior, ao contrário do que diz postagem
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BNDES investiu mais em obras no Brasil do que no exterior, ao contrário do que diz postagem

Valor de contratos firmados durante governos petistas para realização de serviços de engenharia em países estrangeiros é de R$ 9,6 bilhões

Tiago Aguiar

16 de outubro de 2020 | 17h31

Postagens que viralizaram no Facebook acusam o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) de ter investido “mais em países comunistas do que no próprio Brasil” durante os governos do PT. A alegação é falsa porque, em qualquer período analisado dos governos petistas, o BNDES desembolsou mais para apoiar a infraestrutura dentro do território brasileiro do que no exterior.

As publicações checadas também enganam ao sugerir que o financiamento para exportação de serviços e bens brasileiros é equivalente a “investir em outros países”. Na verdade, o banco tem três linhas de financiamento para estimular operações de comércio entre empresas brasileiras e importadores estrangeiros. Não há remessa de divisas para o exterior — quem fica com o dinheiro financiado pelo BNDES é a empresa brasileira, e quem tem que pagar a dívida ao banco é o importador estrangeiro.

As operações de financiamento também podem incluir empréstimo de recursos para que uma empresa de engenharia brasileira execute obras no exterior. Nesse caso, o importador é o governo do país estrangeiro, que torna-se o responsável pelo pagamento ao BNDES.

O BNDES financia a exportações de bens e serviços realizados por empresas brasileiras desde 1998. O maior importador do Brasil de bens financiados pelo BNDES são os Estados Unidos — US$ 17,8 bilhões nos últimos 22 anos.

Qual o valor emprestado para realização de serviços de engenharia no exterior?

O cálculo do valor total de financiamento pelo BNDES de exportações de serviços de engenharia depende dos critérios usados. Utilizamos como referência as datas da contratação entre 1º de janeiro de 2003 (quando o ex-presidente Lula assume o primeiro mandato) e 12 de maio de 2016 (data do afastamento da ex-presidente Dilma Rousseff ), já que as publicações referem-se a “160 meses de governos PT”.

O valor total dos contratos de financiamento para exportação de serviços de engenharia firmados no período é de U$ 9,67 bilhões (aproximadamente R$ 54,3 bilhões na cotação desta quinta-feira, 15). No mesmo período, as operações de crédito do BNDES com governos municipais e estaduais do Brasil chegaram a R$ 75,6 bilhões. Ou seja, mesmo com uma conta que exclui milhares de operações indiretas domésticas, o valor de crédito para exportação já é superado.

Os dados para estas contas foram obtidos na Central de Downloads do BNDES.

Países comunistas receberam dinheiro?

Os países contratadores de serviços de engenharia brasileiros por meio do BNDES são os seguintes: Angola, Argentina, Costa Rica, Cuba, Equador, Gana, Guatemala, Honduras, México, Moçambique, Paraguai, Peru, República Dominicana, Uruguai e Venezuela. As postagens no Facebook não deixam claro a quais países fazem referência.

A seção de perguntas e respostas do banco afirma que há duas razões para que os maiores clientes sejam países latinos e africanos. “São regiões em desenvolvimento e, nessa condição, têm obras complexas de infraestrutura a serem realizadas, com poucas empresas locais aptas a executá-las. E é nesses mercados que as empresas exportadoras brasileiras conseguem ser mais competitivas”, explica o BNDES.

Em maio de 2016, o BNDES suspendeu os desembolsos para exportações de bens e serviços de engenharia de empreiteiras envolvidas em casos de corrupção e estabeleceu critérios adicionais para que fossem retomadas.

O que diz o BNDES?

Procurado pelo Estadão Verifica, a assessoria do BNDES negou o conteúdo da postagem e destacou que desde o início dos programa de apoio à exportação, em 1998, o banco “desembolsou o equivalente a US$ 274 bilhões para apoiar a infraestrutura no Brasil, em torno de 27 vezes o valor destinado a financiar vendas de bens e serviços usados em obras de empreiteiras brasileiras no exterior (US$ 10,5 bilhões).”

Qual a origem da foto compartilhada no Facebook?

A imagem usada nas publicações com o conteúdo falso não tem relação com nenhuma atividade do BNDES. De autoria do fotógrafo Ricardo Stuckert e divulgada pelo Instituto Lula, a foto foi tirada em Cuba em dezembro de 2016, quando figuras políticas brasileiras e representantes políticos de países latino-americanos prestaram homenagens nas cerimônias fúnebres a Fidel Castro. Na ocasião, o candidato a prefeito em São Paulo pelo PSOL Guilherme Boulos, destacado na legenda de algumas publicações, estava representando o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST).

Ano passado, o Projeto Comprova verificou uma publicação que misturava dados verdadeiros com números incorretos sobre financiamentos do BNDES nos governos do PT.

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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