Em vídeo viral, meteorologista confunde conceitos e distorce informações sobre aquecimento global

Em vídeo viral, meteorologista confunde conceitos e distorce informações sobre aquecimento global

Entrevista de 2010 volta a circular com informações equivocadas sobre aumento da temperatura do planeta, derretimento de geleiras e mar congelado no Ártico

Clarissa Pacheco

11 de janeiro de 2022 | 10h00

Uma entrevista concedida há 11 anos durante um debate sobre aquecimento global voltou a circular nas redes sociais e continua a espalhar desinformação sobre o tema. No trecho viral, que acumula quase 800 mil interações no Facebook, o meteorologista Luiz Carlos Molion afirma falsamente que o derretimento de geleiras no Ártico não tem relação com o aquecimento global e não aumenta o nível dos oceanos. Ele ainda diz, erroneamente, que a temperatura do Ártico, mesmo no verão, nunca é superior a -20°C. Na verdade, em 2020 atingiu o recorde de 38ºC.

No vídeo, gravado em 2010, Molion afirma, de modo equivocado, que nos próximos cinco anos – ou seja, por volta de 2015, de acordo com a época da entrevista – correntes marítimas levariam água fria ao Ártico e o gelo derretido iria se recuperar, como se o problema não tivesse relação com mudanças climáticas e se resumisse a um processo sazonal. Na realidade, a extensão de gelo no Ártico vem diminuindo rapidamente — em 2020, chegou à segunda menor marca já registrada.

A entrevista foi ar ao em 29 de novembro de 2010 pelo Canal Livre, da TV Band. A fala que viralizou é dita após o jornalista Fernando Miltre, um dos entrevistadores, afirmar que as geleiras estão diminuindo e que o nível do mar está aumentando. O apresentador, então, se dirige a Molion: “O senhor não vai me dizer que está ficando mais frio, o oceano… Se o gelo está derretendo, é porque está ficando mais quente”. Ao que o entrevistado responde: “Isso é o que aparece nesses vídeos que estão aí na internet”, e segue fazendo afirmações falsas sobre o assunto.

O Estadão Verifica pediu que dois dos mais reconhecidos especialistas no tema do aquecimento global e de glaciologia assistissem ao vídeo viral. Um deles, o climatologista Carlos Nobre, do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA-USP), é PhD em Meteorologia, integrante das academias Brasileira e Mundial de Ciências e da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos. O outro, o cientista Jefferson Cardia Simões, é pioneiro no estudo de Glaciologia no Brasil e primeiro brasileiro a obter um PhD na área; ele é vice-presidente do Comitê Internacional de Pesquisas Antárticas (SCAR), coordenador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia da Criosfera, integrante da Sociedade Glaciológica Internacional, além de professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Para os dois especialistas, as falas de Molion já eram negacionistas há 11 anos, e os dados mais recentes sobre mudança climática, como o Relatório de 2021 do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (INCC) da Organização das Nações Unidas (ONU), confirmam que as afirmações feitas por ele naquela época continuam não se sustentando cientificamente. “Ele se mete a falar absurdos”, diz Simões. “Alguns absurdos são coisas que nós ensinamos para o aluno de graduação do segundo ano de Geografia Física. Ele não tem condição nenhuma de falar o que ele está falando”.

Procurado, Molion disse que nunca negou o aquecimento global de 1976 a 2005, mas que há fortes argumentos em favor de o aquecimento ser natural, e não antropogênico (com influência de atividade humana). Ele também fala que há uma tendência de resfriamento global nos próximos anos.

Veja abaixo os argumentos do meteorologista no vídeo de 2010 e como os especialistas ouvidos pelo Verifica analisam as falas.

Diminuição das geleiras não tem relação com a temperatura?

Ao responder à fala do jornalista Fernando Miltre, Molion diz que o efeito físico da diminuição das geleiras não tem qualquer relação com a temperatura do ar. Isso não é verdade, como explica o climatologista Carlos Nobre. A extensão total de gelo no Ártico em setembro de 2021 foi a 12ª mais baixa já registrada, como mostra este estudo. “O Ártico já aqueceu quase 3°C desde a década de 1960 e isso é diretamente relacionado ao aquecimento global”, diz.

Este aumento de temperatura é maior do que no restante do planeta, e isso se explica por um fenômeno chamado efeito do albedo – o fator de reflexão solar em superfícies. Como o gelo é muito branco, ele costuma refletir de 50% a 60% da energia solar. No entanto, à medida que vai derretendo, a parte submersa, que não recebia a radiação diretamente, passa a refletir de 5% a 6% dessa energia. “Esta energia solar extra vai fazer o oceano ir aquecendo”, explica Nobre. “Este aquecimento vai fazendo o gelo marinho ir derretendo ainda mais”.

O especialista acrescenta que a poluição das últimas décadas fez com que o gelo ficasse mais escuro. “Com isso, o albedo diminuiu e aumentou a absorção de radiação solar e a temperatura do ar sobre o gelo, também contribuindo para o degelo”, afirma.

Mar congelado ou icebergs?

Após falar que o derretimento das geleiras – que levam séculos para se formar – não tem relação com a temperatura do ar, Luiz Carlos Molion tenta explicar que o nível do mar não aumenta com o degelo. Ele faz uma comparação equivocada com um copo d’água com um cubo de gelo, dizendo que o nível de água no copo não aumenta quando o gelo derrete. Mas, ao afirmar isso, ele passa a falar do mar congelado do Ártico e mistura os termos novamente ao usar como exemplo o derretimento de um iceberg.

O problema é que iceberg e mar congelado são conceitos completamente diferentes, começando pela composição: o mar congelado é feito de água salgada, enquanto o iceberg é formado por água doce. “O mar congelado é formado pelo congelamento de água do mar, não tem nada a ver com geleiras nem com icebergs”, diz Simões. “Icebergs são partes de gelo que partiram das geleiras. Como as geleiras são formadas por água doce, pela precipitação e acumulação de neve, não tem nada a ver com o mar congelado”.

Simões chama a atenção ainda para uma imagem que aparece no vídeo: o desprendimento da frente de uma geleira que cai no mar, formando um iceberg. Molion usa o argumento de que as geleiras estão colapsando, e não derretendo, por conta de correntes marinhas que passaram a levar mais água quente para o Ártico a partir de 1995 e 1996. Segundo o meteorologista, com o derretimento da parte submersa do iceberg, ele não consegue suportar o peso da parte flutuante e acaba colapsando. Em seguida, ele diz que esse tipo de gelo que “colapsa” e cai no mar não faz aumentar o nível dos oceanos. Mas não é bem assim.

A imagem que aparece no vídeo e é descrita por Molion é uma frente de geleira partindo e caindo no mar para formar um iceberg, e não um iceberg colapsando por efeito de correntes marinhas. Foto: Reprodução

A imagem que aparece no vídeo não é um iceberg colapsando por derretimento da parte submersa, e sim a frente de uma geleira se desprendendo e caindo no mar para formar um iceberg. Não é o mero degelo de um iceberg que aumenta o nível do mar. Os cientistas comentam que os oceanos têm subido devido ao derretimento de mantos de gelo — geleiras continentais, com tamanho superior a 50 mil km², como as da Antártica e da Groenlândia.

Temperatura do Ártico nunca é inferior a -20°C?

Em seguida, Molion afirma que não se vê água escorrendo nas geleiras “porque mesmo num verão de lascar, forte, no Ártico, a temperatura nunca é superior a 20°C negativos”. Ele chega a comparar a temperatura no Ártico com a de um freezer e acrescenta que “não é o aquecimento global que está fazendo aquele gelo desmoronar”, e sim as correntes marítimas que passaram um tempo levando água mais quente para lá. Segundo ele, dentro de quatro ou cinco anos, se o mesmo ciclo se repetir, as correntes passarão a levar água fria e o gelo vai voltar.

Segundo Simões, a previsão de resfriamento vem sendo feita por Molion há mais de 20 anos e não se confirmou. “A temperatura do Ártico ultrapassa em muito 0°C e pode atingir até 10°C no verão. Temperaturas de 0°C são encontradas até no Polo Norte e isso é conhecimento de 100 anos”, afirma.

No final do vídeo, o entrevistado afirma que existe uma variação da extensão mínima de gelo marinho e acrescenta que o gelo se recuperou e até aumentou. Simões também critica essa fala. “Isso é um discurso para quem não conhece (o assunto)“, diz. “O mar congelado diminui e aumenta, aí ele vai e fala que já aumentou. É claro, aumentou porque estava chegando o inverno. Acontece que a cada vez que reduz no verão, está ficando cada vez menor”.

Para os cientistas que estudam o aquecimento global, não é a redução e recuperação sazonal do gelo marinho que preocupa – na Antártida, por exemplo, onde há a maior variação conhecida, a cobertura de gelo marinho chega a variar de 2 milhões de km² a 20 milhões de km². O que preocupa mesmo é o percentual de perda de gelo a cada verão que não se recupera no inverno seguinte. “Existe uma tendência de redução do mar congelado do Ártico,  que tem aumentado desde 2000”, alerta Simões. “Tudo indica que, por volta de 2050, não deve mais ter mais mar congelado no Ártico”.

Aquecimento global tem influência humana

O último relatório do IPCC, divulgado em agosto do ano passado, faz um alerta e aponta para a influência humana no aquecimento global sem precedentes nos últimos 2 mil anos. O relatório diz que as temperaturas globais podem levar de 20 a 30 anos para se estabilizarem e que as “alterações causadas pelas emissões de gases de efeito estufa no passado e no futuro são irreversíveis”.

Ainda de acordo com o relatório, esses danos irreversíveis afetam os oceanos, com o aumento das ondas de calor nos mares, derretimento de geleiras e aumento do nível global do mar. “Até o fim do século 21 poderá ocorrer um aquecimento global acima de 1,5°C e 2°C, a menos que haja reduções profundas nas emissões de CO2 e outros gases de efeito estufa nas próximas décadas”, diz o relatório.

O assunto é abordado ainda na cartilha Mudanças Climáticas e Sociedade, publicada no ano passado por cientistas do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (USP). Existe um majoritário consenso entre especialistas na comunidade científica de que as mudanças climáticas estão sim ocorrendo e de que as ações humanas são responsáveis por isso.

“Um estudo publicado em 2013, liderado pelo doutor John Cook, do Global Change Institute, University of Queensland, na Austrália, mostrou que a maioria esmagadora (97%) dos cientistas concorda que o aumento antropogênico (isto é, causado pelo homem) da concentração de gases do efeito estufa é a principal causa do aquecimento global que vem sendo observado”, diz um trecho da cartilha.

O que diz Luiz Carlos Molion

Procurado pelo Estadão Verifica, Luiz Carlos Molion respondeu por e-mail que mantém o mesmo posicionamento de 11 anos atrás e que resultados de pesquisas fortalecem sua opinião. “Eu nunca neguei que houve um aquecimento entre 1976 e 2005! A diferença, com relação ao posicionamento do IPCC afirma ser antropogênico, é que há fortes argumentos em favor de o aquecimento ser natural”, diz. Ele cita dados de satélite do Projeto ISCCP [International Satellite Cloud Climatology Project] que afirmam que, entre 1983 e 2000, houve uma redução de 5% na cobertura de nuvens do planeta.

“Como os oceanos absorvem 94% da radiação solar incidente e constituem 71% da superfície do planeta, os oceanos absorveram esse calor adicional, se aqueceram e, consequentemente, o clima se aqueceu. Se a cobertura de nuvens voltar a aumentar, haverá um resfriamento global com relação ao período quente de 1976-2005”, acrescenta.

Ele também afirma que há uma tendência de resfriamento global nos próximos 15 ou 20 anos, por conta de uma entrada do Sol num período de menor atividade. Molion acrescente que, “lamentavelmente, resfriamentos sempre foram ruins para a humanidade” e que, nesses próximos anos, com a redução das chuvas provocada pelo resfriamento, a geração de energia hidrelétrica ficará comprometida, assim como a produção agrícola.


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