Antiviral contra covid em estudo pela Pfizer não é ‘suspeitamente semelhante’ à ivermectina

Antiviral contra covid em estudo pela Pfizer não é ‘suspeitamente semelhante’ à ivermectina

Medicamento testado pela farmacêutica tem ação diferente do remédio antiparasitário, que não tem eficácia comprovada contra o coronavírus

La Silla Vacía

18 de outubro de 2021 | 18h25

Esta checagem foi publicada originalmente pelo site La Silla Vacía, da Colômbia, e traduzida por meio da Aliança CoronavirusFacts, coordenada pela Rede Internacional de Checadores de Fatos (IFCN). Leia mais sobre a parceria aqui e veja a verificação original aqui.


Uma corrente circula no WhatsApp alegando que a empresa farmacêutica Pfizer iniciou o ensaio de um medicamento oral contra a covid-19 que é “suspeitamente semelhante” à ivermectina. Descobrimos que a corrente é mais falsa do que verdadeira.

A Pfizer de fato iniciou ensaios clínicos de uma droga oral contra a covid

Em 23 de março de 2021, a Pfizer anunciou que iniciaria os ensaios clínicos de um medicamento oral contra a covid chamado PF-07321332, e que os testes seriam conduzidos em adultos saudáveis nos EUA. Durante testes in vitro, o medicamento mostrou uma potente resposta antiviral contra o vírus que causa a covid e outros coronavírus, de acordo com o fabricante do medicamento.

O Diretor Científico e Presidente Global de Pesquisa, Desenvolvimento e Medicina da Pfizer, Mikael Dolsten,  disse em comunicado que o medicamento foi concebido como “uma terapia oral em potencial que poderia ser prescrita ao primeiro sinal de infecção, sem exigir que os pacientes fossem hospitalizados ou colocados em terapia intensiva. Ao mesmo tempo, o candidato antiviral intravenoso da Pfizer é uma nova opção de tratamento em potencial para pacientes hospitalizados”.

Em 27 de setembro, a Reuters publicou uma reportagem anunciando que a Pfizer havia iniciado um ensaio de fase 1 naquele dia. De acordo com o texto, o estudo seria conduzido com até 2.660 adultos saudáveis que convivem com pessoas com covid sintomática confirmada.

O medicamento não é similar à ivermectina

A Pfizer descreveu a droga como “um potente inibidor de protease” que impede a replicação do vírus nas células. De acordo com a corrente no WhatsApp, a ivermectina funciona da mesma forma contra a covid e, portanto, os dois medicamentos são “suspeitamente semelhantes”. Mas isso não é verdade.

A ivermectina é uma droga antiparasitária amplamente utilizada na medicina humana e veterinária. É frequentemente utilizada para o tratamento de infecções intestinais causadas por bactérias, mas sempre sob prescrição médica. Também é usada para tratar outras infecções parasitárias, infestação de piolhos e sarna.

Por enquanto, não foi autorizada como tratamento para a covid, embora seja permitida para uso em ensaios clínicos.

Como já mostramos, alguns estudos levantaram a possibilidade de que a ivermectina pudesse funcionar no tratamento da covid. Mas essas pesquisas não apresentam dados conclusivos para que a ivermectina seja usada como tratamento, nem foram capazes de estabelecer o mecanismo que a ivermectina usa em resposta à covid.

A mesma conclusão foi alcançada até agora pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e o órgão de vigilância sanitária dos EUA (FDA). As entidades concordam que atualmente não existem estudos conclusivos que demonstrem a eficácia clínica deste medicamento contra a covid e têm apontado que há riscos se o remédio for usado indiscriminadamente.

O virologista Benjamin Neuman, da Universidade do Texas A&M, disse ao PolitiFact, portal de verificação do Instituto Poynter, que “o que a ivermectina faz é bloquear os canais iônicos que os parasitas usam para armazenar átomos carregados positiva e negativamente”. E o vírus que causa a covid não tem canais iônicos como os que a ivermectina bloqueia, de modo que não há uma maneira óbvia de a ivermectina funcionar contra a covid.

O medicamento da Pfizer funciona de forma diferente da ivermectina

O vírus que causa a covid, como todos os vírus, visa a invadir e infectar as células de nosso corpo por meio de uma longa cadeia de proteínas, incluindo enzimas, conhecidas como polipeptídeos. Para que o vírus se reproduza, as enzimas que compõem o vírus devem ser separadas umas das outras. Mas para que isso aconteça, uma enzima chamada protease deve agir como um par de tesouras para “cortar” o polipeptídeo em diferentes enzimas que depois se tornam funcionais e se replicam em outras células.

Como a Pfizer explicou, a droga oral que eles estão testando pode interromper o ciclo de vida do vírus que causa a covid porque os inibidores de protease do medicamento se ligam à enzima e impedem que ela “corte” o polipeptídio. Assim, o vírus não pode fazer cópias de si mesmo ou infectar mais a pessoa doente. Esta não é a primeira vez que estes inibidores são usados na medicina; durante anos eles foram usados para tratar o HIV e a hepatite C.

Ainda que em alguns estudos inconclusivos a ivermectina tenha aparentemente ajudado a superar mais rapidamente a covid leve, o mecanismo de ação que a droga antiparasitária usa contra a covid não é conhecido. O pesquisador Amesh A. Adalja, do Johns Hopkins Center for Health Security, explicou ao PolitiFact que embora “não esteja claro qual mecanismo de ação a ivermectina tem, há pelo menos um estudo que postula que ela bloqueia a protease viral, mas nada disso é claro e deve ser combinado com o fato de não ter havido evidência de que a ivermectina seja eficaz no tratamento da covid”.

Adalja também explicou que a droga da Pfizer foi projetada para visar a protease do vírus e a ivermectina tem um mecanismo de ação diferente contra os parasitas.

Em suma, a Pfizer iniciou ensaios clínicos de uma nova droga oral contra a covid, mas o medicamento não é “suspeitamente semelhante” à ivermectina, como alega a corrente no WhatsApp. As duas drogas têm um mecanismo de ação diferente. Portanto, classificamos a corrente como mais falsa do que verdadeira.


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