Álcool em gel é transportado com ‘areia’ por orientação da Anac
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Álcool em gel é transportado com ‘areia’ por orientação da Anac

Material encontrado no fundo de caixas em vídeo enganoso é, na verdade, vermiculita e serve para conter vazamentos em caso de acidente

Samuel Lima, especial para o Estado

13 de junho de 2020 | 11h51

Circula nas redes sociais um vídeo que sugere fraude na distribuição de álcool em gel para unidades municipais de saúde de Pernambuco, alegando que as mercadorias estariam sendo entregues com “areia” no fundo das caixas. A autora da filmagem, que não pode ser identificada, se diz “perplexa” com a situação, enquanto outros perfis que compartilharam o vídeo no Facebook acusam o governador do estado, Paulo Câmara, de fazer uma “sacanagem” com “várias cidades”. Outras versões do boato falam em hospital de Caicó, no Rio Grande do Norte, e fazem críticas ao presidente Jair Bolsonaro.

No entanto, a substância presente nas embalagens junto aos frascos de álcool em gel é, na verdade, vermiculita em flocos — material absorvente utilizado como medida de segurança no transporte de líquidos perigosos em aeronaves. A informação foi repassada pela transportadora VTCLOG, responsável pela entrega da mercadoria. O Estadão Verifica entrou em contato com a empresa ao perceber o nome e o logo em uma das caixas mostradas no vídeo, além de códigos e números para identificação da remessa.

Capturas de tela do vídeo enganoso mostram informações úteis para identificação do material. Foto: Reprodução

A transportadora informou que os produtos foram enviados de Brasília (DF), pelo Ministério da Saúde, a Recife (PE), mas o destino final da carga era Natal (RN). O governo federal aparece em uma lista de clientes no site da operadora. A empresa também encaminhou documento técnico em que sustenta que a medida segue o manual da Associação Internacional de Transporte Aéreo (IATA) e instruções da Organização da Aviação Civil Internacional (OACI), aplicadas e fiscalizadas no território brasileiro pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). As recomendações incluem carga máxima combinada de 1 litro por embalagem, com limite de 500 ml por unidade, e garantia de integridade dos volumes, além de “insumos absorventes protetores” para caso de acidente.

Procurada pela reportagem, a Anac afirmou que a utilização do material absorvente, geralmente a vermiculita, na parte interna das embalagens, é obrigatória para autorizar o transporte de carga de álcool em gel em aeronaves em alguns casos. A justificativa é de que se trata de produto inflamável, classificado como artigo perigoso pela Organização das Nações Unidas (ONU). “O material absorvente mais comumente utilizado é a vermiculita, que se assemelha bastante à areia”, destaca o órgão federal. Dessa forma, é possível conter o vazamento do produto quando algum recipiente se rompe no trajeto.

Vídeo enganoso no Facebook foi compartilhado com acusações contra o governador de Pernambuco, Paulo Câmara. Foto: Reprodução / Arte Estadão

A Anac afirma ainda que a classificação do produto como perigoso acarreta em uma série de restrições e condições para o transporte, entre elas marcação e etiquetagem de volumes, preparo e acondicionamento correto dentro das embalagens, documentação e treinamento dos profissionais envolvidos. A agência reguladora publicou, em 8 de abril, um guia aos expedidores para auxiliar na tarefa, devido ao aumento da demanda de transporte aéreo do produto, destinado à prevenção contra o novo coronavírus.

A reportagem também questionou a Anac a respeito das siglas que constam nos pacotes mostrados no vídeo. Segundo o órgão, o código “REC” é referente ao aeroporto de Recife; “UN1170” indica o número do artigo perigoso, nesse caso o etanol, pela classificação da ONU; e a letra “Y” informa que a mercadoria foi transportada em “quantidade limitada, ou seja, em quantidade pequena o suficiente por volume que permita a flexibilização de alguns requisitos específicos”.

No caso específico das embalagens “Y”, a Anac destaca que não há exigência de material absorvente. “Entretanto, quando o expedidor escolhe fazê-lo, isso pode aumentar o nível de segurança do transporte”, declarou. O transporte em quantidade limitada também costuma reduzir o risco de ocorrências e os custos do transporte, segundo a Anac, já que nesses casos não é necessário utilizar embalagem homologada pela agência reguladora.

Por e-mail, a Secretaria de Estado da Saúde Pública do Rio Grande do Norte (Sesap/RN) confirmou que o material foi enviado ao estado pelo governo federal e que “alguns fornecedores, para uma maior segurança, sobretudo em transporte aéreo de cargas, enviam os frascos de álcool em caixas contendo material absorvente, para evitar o vazamento em decorrência de um eventual rompimento”.

Diante da repercussão do caso, o governo de Pernambuco também desmentiu o boato em sua página oficial no Facebook. A gestão nega ter feito a distribuição naquele formato e afirma que “o insumo entregue pelo governo do estado é produzido pelo Lafepe (Laboratório Farmacêutico de Pernambuco) em embalagens de cinco litros”. O Estadão Verifica perguntou se o estado recebeu alguma doação do Ministério da Saúde nas últimas semanas, mas não obteve resposta.

No Twitter, diversos perfis criticaram Bolsonaro com base na informação enganosa, em resposta a comentário sobre a entrega de equipamentos de proteção individual ao Rio Grande do Norte, em 2 de junho. À época, Bolsonaro escreveu que o estado tinha acabado de receber “quase três toneladas de EPIs” para o enfrentamento da covid-19.

Este boato foi checado por aparecer entre os principais conteúdos suspeitos que circulam no Facebook. O Estadão Verifica tem acesso a uma lista de postagens potencialmente falsas e a dados sobre sua viralização em razão de uma parceria com a rede social. Quando nossas verificações constatam que uma informação é enganosa, o Facebook reduz o alcance de sua circulação. Usuários da rede social e administradores de páginas recebem notificações se tiverem publicado ou compartilhado postagens marcadas como falsas. Um aviso também é enviado a quem quiser postar um conteúdo que tiver sido sinalizado como inverídico anteriormente.

Um pré-requisito para participar da parceria com o Facebook  é obter certificação da International Fact Checking Network (IFCN), o que, no caso do Estadão Verifica, ocorreu em janeiro de 2019. A associação internacional de verificadores de fatos exige das entidades certificadas que assinem um código de princípios e assumam compromissos em cinco áreas:  apartidarismo e imparcialidade; transparência das fontes; transparência do financiamento e organização; transparência da metodologia; e política de correções aberta e honesta. O comprometimento com essas práticas promove mais equilíbrio e precisão no trabalho.

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