‘Dificuldade com o Congresso cria dificuldade com o governo’, diz Temer

‘Dificuldade com o Congresso cria dificuldade com o governo’, diz Temer

Marianna Holanda

29 de março de 2020 | 05h00

De todas as dicas que o ex-presidente Michel Temer poderia dar a Jair Bolsonaro, que no seu segundo ano de mandato enfrenta a crise do coronavírus, o emedebista diz: “Estabeleça uma relação cada vez mais próxima com o Congresso Nacional”. “Dificuldade com o Congresso cria dificuldade para o governo”, afirma. Quem governa o País, segundo Temer, são o Executivo e o Legislativo, juntos.

Leia a íntegra da Coluna aqui.

Sobre os arroubos do seu sucessor, Temer pede serenidade. “Nos momentos mais difíceis, é que você precisa usar mais o critério da serenidade e da tranquilidade”. O ex-presidente, que assumiu após o impedimento de Dilma Rousseff, avalia que o melhor é evitar impeachment, “extremamente traumático”.

Após deixar a Presidência, Temer virou alvo de sete ações na Justiça e chegou a ser preso por uma delas no ano passado. No emblemático caso da gravação de Joesley Batista, acabou absolvido na primeira instância. A defesa do ex-presidente nega todas as acusações. Abaixo, a entrevista completa, na qual o ex-presidente elogia medidas tomadas até aqui por Bolosonaro na crise do covid-19:

Qual avaliação do sr. da condução do governo da crise?
Acho que hoje ele (Jair Bolsonaro) deu um grande passo. Essa história de liberar R$ 40 bilhões para pagar empréstimos, com juros reduzíssemos, para as empresas pagarem os empregados. Eu vi que atinge mais de 12 milhões de pessoas, né. E também uma verba para pagar autônomos. É quase uma economia de guerra. Uma guerra contra o coronavírus. Aliás, ao meu modo de ver, correta. Acho que isso vai ajudar, mas são medidas que vieram agora e acho muito adequadas. E se precisar mais, acho que tem que usar mais. Se for preciso outros créditos extraordinários, é melhor usar o quanto seja necessário.

Muitas pessoas têm colocado como se fosse uma escolha entre salvar vidas e salvar a economia. Existe isso de ser uma coisa ou outra?
Acho que tem que salvar as duas. As medidas anunciadas pregam, na verdade, o isolamento. E, ao mesmo tempo, (são também) para sustentar especialmente médios e pequenos empresários, que dão muito emprego, para sustentar a manutenção das empresas. É isso que está me ocorrendo, tem que fazer as duas coisas. O governo hoje fez. Era preciso tomar medidas que incentivassem o isolamento em primeiro lugar para combater o coronavírus e segundo lugar, mantivessem a integridade da economia. Essas verbas anunciadas hoje basicamente, com pequena e média empresa, gera muita economia. Agora o caminho está sendo correto. Aquele caminho lá de dizer “vamos deixar todo mundo circular à vontade” não era adequado. O correto é o que está se fazendo hoje.

Há uma divergência entre o que os países adotado e o que o presidente Bolsonaro tem insistido, do ponto de vista da crise sanitária. Ele defende um isolamento vertical, inclusive tem incentivado os Estados a reabrir o comércio, etc. É uma boa medida?
Esse assunto tem que ser analisado semanalmente, quase que diariamente. Então, na minha concepção, é preciso verificar na semana que vem o que é que está acontecendo. Eu não sou favorável a esse (isolamento) vertical, porque o coronavírus tem alcançado muita gente abaixo de 60 anos. Evidentemente, como ele se propaga com muita rapidez, se apanha alguém mais jovem, que está na rua, enfim trabalhando, sem os cuidados naturais, isso acaba proliferando a pandemia invés de eliminá-la. Acho que é melhor esses critérios que estão sendo utilizados. É um perigo… Volto a dizer, o governo estava estudando e hoje veio a público para dizer que vai manter não só o pagamento dos trabalhadores, como de alguma maneira, as empresas.

Do ponto de vista econômico as medidas estão corretas e suficientes?
Neste momento, são. Agora, se mais adiante verificar-se a necessidade de novos recursos, o governo tem que colocar esses novos recursos. Aliás, não só o governo da União, mas Estados, municípios. Quem puder colocar recursos, tem que colocar recurso. Se esses não forem suficientes, abra-se novos créditos. Não tenho dúvida disso.

Falando em Estados e municípios. Nesta semana, a gente viu um agravamento na relação entre os governadores e prefeitos e Bolsonaro, havendo até bate-boca entre o presidente e João Doria. O que o sr acha dessa relação conturbada?
Tem que haver muita serenidade. Eu compreendo que esses primeiros momento geraram uma angústia muito grande, não só nos cidadãos comuns, como também na classe política e na classe dirigente. Houve uma certa exacerbação de ânimos. Mas o que é preciso é que haja muita serenidade. O que eu aprendi ao longo do tempo foi exatamente isso: nos momentos mais difíceis, é que você precisa usar mais o critério da serenidade e da tranquilidade. A essa altura as pessoas estão percebendo que mesmo os governantes deverão ter muita serenidade para enfrentar essa pandemia.

Inclusive, teve gente nesta semana falando que estava com saudade do senhor. O que acha disso?
É claro que fico feliz né (rindo). Porque há um reconhecimento do nosso governo. Isto é uma coisa que dizia quando era presidente e agora quando posso, digo. Mas eu vejo que terceiros e muitos estão tendo esse reconhecimento. Mas o que precisamos é nos unirmos para levar o Brasil para frente. Claro que eu fico feliz com isso, com a lembrança positiva.

O que o sr achou do pronunciamento do presidente nesta semana?
Ele ainda estava tomado por uma certa angústia em função da pandemia, aquilo que eu disse antes. E o pronunciamento dele estava, convenhamos, um pouco tenso. Eu, pelo menos, percebi desta maneira. Eu ocupei diversos cargos, secretário de segurança num momento difícil, presidência… Eu sempre tentava imprimir um tom de serenidade. Eu achei que ele estava tenso e, naquele momento, não pegou bem. Mas logo no dia seguinte começou a consertar. Acho que o gesto de hoje é importante, concreto, entrega de recursos para combater o coronavírus, manter as empresas.

A gente tem visto uma queda na aprovação de Bolsonaro e crescentes panelaços. O sr também sofreu com alta rejeição. Como isso pode afetar um governante?
Eu acho que não deve alterar a postura governamental. Você disse bem, eu enfrentei muitos problemas. Não enfrentei panelaços. Mas tinha muita oposição, muita radicalização oposicionista em relação ao meu governo. Tive vários percalços. Você não pode perder a tranquilidade. É natural que quem tem cargo dessa natureza, seja na Presidência, no governo, prefeitura, acaba se expondo de uma tal maneira que gera essas contestações. Eu não me incomodava com as contestações, levava o Brasil para frente.

Já foram protocolados pedidos de impeachment, acha que é o caso?
Eu acho que impeachment é sempre uma coisa extremamente traumática. Eu vivi esse momento do impeachment da sra ex-presidente (Dilma Rousseff) e sei do trauma que isso cria. Acho que se puder evitar, tanto melhor. Nós devemos deixar é que o povo decida.

Está circulando um vídeo atribuído ao governo dizendo que o Brasil não pode parar – inclusive, um slogan que o sr governo também usou na Presidência. O sr concorda com esses termos neste momento?
É um slogan que eu usava, mas em função da economia. Hoje, acho que o slogan tem que ser o seguinte: o País não pode parar… de combater o coronavírus. O slogan tem que ser mais voltado para saúde, sem dúvida alguma, que é o momento dramático que os Países estão vivendo.

O sr também acha que a gente deve terminar o ano em recessão, como avaliam algumas instituições privadas?
Estou percebendo que sim, acho que não vai ter jeito. Vai haver recessão. A própria hipótese de PIB. Esse ano está previsto como zero, então não é improvável que haja recessão mesmo.

O Congresso tem tido um papel central no governo e na pandemia, muitas vezes sendo acusado por bolsonaristas de tentar impor um semi-parlamentarismo. O sr acha que está havendo isso?
Não me parece, viu. Você sabe que, quando eu fui presidente, eu trouxe o Congresso para governar comigo. Não havia reunião de líderes que não tivesse presidente da Câmara ou Senado do meu lado. E eu não fazia isso apenas por vontade própria, mas na verdade quem governa o País é a conjugação de esforços do Executivo com o Legislativo. O Judiciário jurisdiciona. Eu, inclusive, exerci uma espécie de semi-parlamentarismo, que eu vejo que volta muito à discussão neste momento. Acho que o Congresso está exercendo suas funções constitucionais.

O primeiro ano do Bolsonaro foi marcado por constantes tensões com o Congresso. O presidente não tem base parlamentar e tem uma constante dificuldade de articulação no Congresso. Qual a dica do sr para que ele possa governar com o Congresso?
Dialogar muito. Aliás, essa história de haver articulação política. No fundo, quem faz a articulação política é o presidente. Eu tive esse exemplo comigo, as coisas caminharam, porque eu próprio fazia a articulação política. Acho que ela envolve conversa, diálogo, digamos assim: 18 horas por dia de trabalho governamental muito voltado para o diálogo com o Congresso. A única coisa, se me pedissem um conselho, eu diria: “Estabeleça uma relação cada vez mais próxima com o Congresso Nacional”. Dificuldade com o Congresso cria dificuldade para o governo, sabe.

O que o sr acha da condução do Rodrigo Maia, o que o sr acha?
Ele me ajudou muito quando eu fui presidente. Ele, o Eunício no Senado. Vejo que agora o Rodrigo e o Alcolumbre têm um protagonismo importante para o País. Estão fazendo o que é correto.

Como tem sido a quarentena para o sr? O que tem feito em casa?
Eu estou lendo muito, assistindo série de televisão, escrevendo um pouco. Esse recolhimento é uma coisa útil, muito interessante. As pessoas dizem que essa solidão gera também solidariedade e que o mundo será diferente depois disso tudo, e eu até acredito um pouco nisso. Estou terminando de ler uma biografia formidável do Alceu Amoroso Lima, feito pelo neto dele, Xikito Ferreira (Histórias do meu avô Tristão). Também um livro Bob Woodward, da chegada do Trump ao governo (Medo). Li também a Thais Oyama (Tormenta: governo Bolsonaro, crises, intrigas e segredos) há poucos dias. É um bom livro, ela pega todos os fatos ao longo do tempo, desde o momento que o presidente Bolsonaro, quando eleito, foi me visitar. Ela começa por ali, pela visita que ele me fez na Presidência. Historicamente, é uma coisa importante. Às vezes, escrevo contos também, poesias. O que me vier à mente, que é para preencher um pouquinho o tempo.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: