ANDRÉ DUSEK/ESTADÃO
ANDRÉ DUSEK/ESTADÃO

Por Sarney, Temer muda indicação para o Trabalho

Presidente desiste de nomear o deputado federal Pedro Fernandes (PTB) para pasta após ex-presidente não referendar indicação em razão da disputa no Maranhão

Felipe Frazão, O Estado de S.Paulo

02 Janeiro 2018 | 14h45

BRASÍLIA - O presidente Michel Temer desistiu nesta terça-feira, 2, de nomear o deputado federal Pedro Fernandes (PTB-MA) ministro do Trabalho. De acordo com o ex-deputado e presidente nacional do PTB, Roberto Jefferson, a decisão do Palácio do Planalto foi tomada após o ex-presidente José Sarney (PMDB-AP) não referendar o nome de Fernandes, aliado do governador do Maranhão, Flávio Dino (PC do B). O deputado havia sido indicado por seu partido para ocupar o lugar de Ronaldo Nogueira (PTB-RS). Temer pediu a Jefferson uma nova indicação do PTB, que manterá o controle da pasta, mas os dirigentes da sigla ainda não decidiram oficialmente.

“O Palácio me avisou que tinha subido no telhado a nomeação do Pedro Fernandes, me ligou pedindo que pensássemos um novo nome por causa do problema de relação do Fernandes com o Sarney”, disse Jefferson ao Estado. “O presidente Sarney não concorda com o nome. Ele queria conversar, mas o Fernandes não quis conversar com o presidente Sarney sobre o Maranhão. Então, deu problema.” 

O Estado pediu uma entrevista ao ex-presidente para comentar as declarações de Jefferson, mas Sarney não atendeu as requisições. Em nota, por meio da assessoria, o ex-presidente disse apenas que “não foi consultado e não vetou o deputado Pedro Fernandes”. Procurada, a Secretaria de Comunicação do Planalto informou que não comentaria o caso. 

Presidente de honra do PMDB, Sarney continua sendo um cacique influente no partido e no governo Temer. Ainda no governo da petista Dilma Rousseff, ele deu aval às costuras pelo impeachment da presidente cassada, depois emplacou Sarney Filho (PV) como ministro do Meio Ambiente e mantém aliados nas estatais Eletrobrás, Chesf e Eletronorte. Também é apontado como um dos peemedebistas que deram aval à nomeação do diretor-geral da Polícia Federal, Fernando Segovia, que antes foi superintendente do órgão no Maranhão. Tanto Segovia como Sarney negam a indicação.

Na maior crise do governo Temer, provocada pela delação dos irmãos Batista, da JBS, Sarney aconselhou o presidente pessoalmente. Desde que Temer assumiu a Presidência, ambos tiveram dez audiências oficiais nos palácios do Planalto e do Jaburu. Sarney possui influência nas bancadas no Senado e na Câmara, além de grupos políticos organizados no Maranhão, onde tentará reerguer seu clã nas eleições deste ano, e no Amapá, com apoio ao governo Waldez Góes (PDT).

A decisão de Temer provocou insatisfação na bancada da Câmara. “Estou esperando o governo me comunicar, porque sou líder da bancada. Liguei para o (Eliseu) Padilha (ministro da Casa Civil) e ele disse que não sabia de nada. Se Pedro Fernandes desistir por conta dele, tudo bem. Agora, por veto de alguém de outro partido eu não acho correto. Já fiquei incomodado com outras nomeações e não falei nada por questão ética”, disse o líder do partido, deputado Jovair Arantes (PTB-GO). 

Nos bastidores, a disputa eleitoral no Maranhão foi apontada como o motivo para a insatisfação de Sarney com a indicação. Na semana passada, Temer teria acertado com a cúpula do PTB até a data da posse do deputado no ministério – seria nesta quinta-feira, 4. O ex-presidente controla o PMDB no Maranhão e viu na indicação de Fernandes uma forma de fortalecer politicamente um adversário histórico, o governador Flávio Dino (PC do B). O PTB é base do governo Dino e o filho de Fernandes, Pedro Lucas Fernandes, é secretário estadual. Em 2014, o comunista venceu a família Sarney, após meio século de aliados do ex-presidente no poder. Dino disputará a reeleição tendo como potencial adversária a ex-governadora Roseana Sarney (PMDB), filha do ex-presidente. 

Ex-aliado. O deputado Fernandes já foi aliado da família Sarney e ocupou os cargos de secretário estadual das Cidades e Desenvolvimento Urbano e da Educação no governo Roseana. O PTB permaneceu coligado em 2014, em apoio à candidatura situacionista de Lobão Filho (PMDB), herdeiro político do senador Edison Lobão (PMDB), e aliado dos Sarney. Com a derrota, Pedro Fernandes levou o PTB a aderir ao governo Dino. O Estado não conseguiu contato com o deputado nesta terça-feira.

Agora, o PTB estuda indicar para a vaga um dos dois parlamentares que não têm intenção de disputar a reeleição. Os cotados são os deputados Sérgio Moraes (RS) e o pastor Josué Bengston (PA). Moraes ficou conhecido em 2009 por ter dito que estava “se lixando para a opinião pública” ao defender um colega no Conselho de Ética da Câmara. 

Demissão. O ministro anterior, deputado Ronaldo Nogueira (PTB-RS), foi exonerado a pedido, na última sexta-feira, 29. Ele pediu demissão argumentando que iria preparar sua campanha à reeleição na Câmara, em meio a suspeita de irregularidades em contratos de informática do ministério, apontados pela Controladoria-Geral da União (CGU).

 

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