André Dusek/Estadão
André Dusek/Estadão

Aécio fora da eleição?

É quase certo que o senador tucano não será candidato a nada em outubro

Vera Magalhães, O Estado de S.Paulo

21 Março 2018 | 05h00

É quase certo que Aécio Neves não será candidato a nada em outubro. A provável saída de cena de alguém que há menos de quatro anos teve mais de 50 milhões de votos na eleição para presidente é mais um retrato de como a política brasileira foi virada do avesso na última quadra. Um ex-presidente na iminência de ser preso, a presidente reeleita apeada do cargo um ano e três meses depois da posse, o presidente que a sucedeu duas vezes denunciado pelo Ministério Público Federal e todo um elenco do primeiro escalão de vários partidos atrás das grades.

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Aécio já externou a intenção de não disputar a reeleição ao Senado nem tentar uma vaga na Câmara aos seus advogados e ao seu grupo político. Isso teve peso fundamental na sofrida decisão de Antonio Anastasia de ir para o sacrifício pessoal e aceitar ser candidato ao governo de Minas – o que facilita a vida de Geraldo Alckmin na disputa presidencial. Sem Aécio, Anastasia pode negociar a composição da chapa majoritária com os partidos que pretende atrair para a aliança. E, principalmente, não terá de passar a campanha respondendo pela situação do aliado na Justiça.

Do lado jurídico, Aécio, denunciado no Supremo Tribunal Federal por corrupção passiva e obstrução da Justiça, tem externado convicção de que o Supremo vai restringir em muito o foro privilegiado. Assim, perderia o sentido buscar um mandato apenas para manter a prerrogativa. Advogados o aconselham a tentar “começar do zero” seu processo, que poderia, caso haja de fato a revisão do foro, descer à primeira instância.

É aí que entram os conselheiros políticos, tentando de novo convencê-lo daquilo que não conseguiram quando o caso explodiu: a sair de cena para, se for absolvido lá na frente, voltar à vida pública redimido. Desta vez ele tem se mostrado sensível aos apelos – e às pesquisas que mostram a dificuldade que terá de ser eleito depois do derretimento de seu cacife político pelo que foi revelado na Lava Jato.

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Lula, Aécio, Eduardo Cunha, Sérgio Cabral, Geddel Vieira Lima e Henrique Eduardo Alves são só alguns dos nomes que saíram de postos de comando para, em poucos anos, cair no inferno político e judicial. Para quem acha que nada mudou no Brasil e que não se avançou no combate à impunidade, cumpre ler a lista (e as siglas partidárias) em voz alta.

STF

Isolada, Cármen Lúcia vive seu pior pesadelo

Há dez dias, escrevi neste espaço que, sob a justificativa de não “apequenar” o Supremo Tribunal Federal, a ministra Cármen Lúcia estava fazendo justamente isso. Defendi, na ocasião, que adiar a discussão, pela Corte, do mérito das ações que tratam da possibilidade de cumprimento de pena de prisão após a condenação em segunda instância não evitaria a pressão. E que quanto mais se aproximava o momento da execução da pena do ex-presidente Lula, mais as coisas se tornariam indissociáveis. Desde então, a presidente insistiu em sua disposição de deixar o tema fora da pauta, e se isolou ainda mais. Pois nesta quarta-feira ela pode viver seu pior pesadelo: diante do imbróglio em que se transformou a questão, pode ser questionada na sessão do plenário, e não na administrativa – em rede nacional, portanto – , sobre o assunto. Pior: a admoestação pública pode vir do decano da Corte, Celso de Mello, que se sentiu traído por ela ao tentar, sem sucesso, uma reunião discreta para buscar a saída para o impasse

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