Marcelo Camargo/Agência Brasil
Marcelo Camargo/Agência Brasil

À procura de partido menor, Meirelles continua candidato ao Planalto

Ideia é migrar para um partido da base aliada até 7 de abril, prazo estabelecido pela lei para a troca de legendas

Vera Rosa, O Estado de S. Paulo

18 Março 2018 | 18h45

BRASÍLIA - A disposição do presidente Michel Temer de disputar novo mandato não inibiu o projeto do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, de ser candidato ao Palácio do Planalto. Meirelles avalia que o cenário político pode se alterar mais adiante e ainda não descarta uma aliança com o MDB no futuro, embora no momento esteja à procura de um partido menor para se filiar.

+++ Temer já avisa aliados que vai disputar reeleição

+++ Moreira Franco considera 'sábia' tentativa de Meirelles de pôr de pé candidatura

Diante das dificuldades para obter apoio do MDB de Temer agora, o ministro intensificou as conversas com siglas com as quais já vinha tratando de suas pretensões. Estão nessa lista o PRB, ligado à Igreja Universal, e também o PSC, já que o deputado Jair Bolsonaro (RJ) foi para o PSL e o presidente do BNDES, Paulo Rabello de Castro, desistiu de concorrer ao Planalto.

A ideia de Meirelles é migrar para um  partido da base aliada até 7 de abril, prazo estabelecido pela lei tanto para a troca de legendas como para a entrega dos cargos de quem for disputar a eleição de outubro.

O Estado apurou que Meirelles conversou com Temer na tarde de sábado, 17, no Palácio do Jaburu. Em público, o presidente continua dizendo que o ministro tem todo o direito de ser candidato. Se ele sair do governo, os cotados para ocupar sua cadeira são o secretário executivo da Fazenda, Eduardo Guardia, e o secretário de Acompanhamento Fiscal, Mansueto Almeida.

Bem estar. O plano de Meirelles já está desenhado, mas, por enquanto, o titular da Fazenda ainda é um nome em busca de um partido. Ele quer começar a viajar pelo País em pré-campanha, já na primeira quinzena de abril, na tentativa de mostrar o seu papel no processo de recuperação econômica e expor a plataforma para o que chama de “estado de bem estar social”.

No diagnóstico do ministro, que embarcou neste domingo,18, para Buenos Aires -- onde participará de reunião do G-20 --, a filiação a um partido menor agora pode ser uma alternativa para levar o seu projeto eleitoral à frente enquanto aguarda a definição de siglas maiores, como o MDB, em julho. Em conversas reservadas, Meirelles diz acreditar que, se ele se mostrar viável eleitoralmente nos próximos três meses, e Temer não for candidato, o MDB ainda poderá apoiá-lo, reforçando uma aliança de centro-direita.

A procura de abrigo em um partido menor é hoje vista por aliados de Meirelles como uma de suas únicas opções para pôr de pé a pré-candidatura, por causa do apertado calendário eleitoral. O ministro tem de tomar uma decisão até o início de abril, mas Temer não precisa resolver isso agora, já que pode entrar no páreo estando no governo.   

O aval do MDB é considerado fundamental porque o partido é dono do maior tempo de TV no horário eleitoral gratuito, que começa em agosto, e, além disso, possui grande estrutura no País, a chamada “capilaridade”. Trata-se de um “dote” precioso para quem depende da propaganda para se tornar conhecido.

Atualmente, Meirelles é filiado ao PSD, mas já foi avisado de que não terá espaço para seu projeto nessa sigla. Chefe do PSD, o  ministro de Ciência, Tecnologia e Comunicações, Gilberto Kassab, fechou acordo para apoiar o prefeito tucano João Doria ao governo paulista. Em troca, o PSD terá a vaga de vice na chapa. Kassab também negocia a adesão à campanha do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, pré-candidato do PSDB ao Planalto.

“Eu conversei com o Michel e acho que ele continua candidatíssimo. Vou incentivá-lo para que tenha reuniões periódicas com uns 15 aliados, para articular as composições nos Estados”, disse o deputado Beto Mansur (PRB-SP), vice líder do governo na Câmara. “Não tenho nada contra o Meirelles, mas acho que, se o Michel de fato sair para a reeleição, fica difícil para os ministros que estão com ele. O correto é todos estarem juntos”, completou Mansur.

O presidente do MDB, senador Romero Jucá (RR), gostaria que Meirelles fosse o candidato do partido à sucessão de Temer, mesmo porque ele teria condições para arcar com grande parte dos custos da campanha e sobrariam recursos do fundo eleitoral para financiar os concorrentes à Câmara e ao Senado. Jucá admite, porém, que o MDB aguarda a definição do presidente e diz não haver como, nesse momento, garantir a indicação do ministro.

Com o MDB dividido sobre os rumos a seguir, auxiliares de Temer chegaram a comparar as articulações políticas de Meirelles à de um “mercado de derivativos”, que tem alta dose de risco. No Nordeste, por exemplo, uma ala do MDB defende o apoio ao PT.

Mesmo se a condenação do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva for mantida e ele não puder concorrer por causa da Lei da Ficha Limpa, caciques do MDB, como o presidente do Senado, Eunício Oliveira (CE), e seus colegas Renan Calheiros (AL) e Roberto Requião (PR), pretendem subir no palanque de um candidato petista ao Planalto. Argumentam, para tanto, que Lula será grande cabo eleitoral em qualquer situação, mesmo se estiver preso.

No Planalto, a avaliação é a de que, como não há ninguém da equipe de governo em posição de largada, as forças de centro estão "dispersas". Nesse cenário, interlocutores de Temer consideram que o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), não tem nada a perder lançando-se como postulante à Presidência. Repetem, porém, o bordão “se colar, colou” para se referir ao movimento de Maia e dizem não acreditar que ele levará a empreitada até o fim.

Apesar da alta e persistente impopularidade de Temer, correligionários afirmam que ele é o único que pode defender o “legado” do governo e a própria biografia, diante das denúncias de corrupção. Na interpretação desses aliados, se  Temer não entrar na corrida, o deputado Bolsonaro (PSL-RJ) - hoje em segundo lugar nas pesquisas de intenção de voto, atrás apenas de Lula - terá o caminho aberto para crescer.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.