‘Vamos desvendar o que aparecer’, avisa delegada da Lava Jato

‘Vamos desvendar o que aparecer’, avisa delegada da Lava Jato

Erika Marena, que integra a força-tarefa da PF, diz que fatiamento pode prejudicar as investigações; ela sugere que o mesmo grupo de policiais fique responsável por todos os desdobramentos também em outros Estados

Ricardo Brandt, Fausto Macedo e Julia Affonso

16 Outubro 2015 | 10h00

Foto: Nilton Fukuda/Estadão

Foto: Nilton Fukuda/Estadão

A delegada Erika Marena, que integra a força-tarefa da Polícia Federal na Operação Lava Jato, avisa: “A Lava Jato ainda tem chão. E iremos continuar desvendando o que aparecer e for possível , ainda que com posterior redistribuição, conforme entenderem as Cortes Superiores.”

Erika se refere ao fatiamento da Lava Jato, decretado pelo Supremo Tribunal Federal – a Corte máxima tirou das mãos do juiz federal Sérgio Moro, em Curitiba, base da missão, trechos importantes da grande investigação, como o inquérito que cita a senadora Gleisi Hoffmann (PT/PR) e outro envolvendo o almirante Othon Luiz Pinheiro, ex-presidente da Eletronuclear, preso desde julho, amigo de ex-ministros.

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A delegada da PF avalia que a separação da Lava Jato provoca um prejuízo ‘na medida em que impede que os elementos surgidos nas investigações sejam analisados à luz de todo o conjunto’. Ela é taxativa. “Trata-se, obviamente, de uma mesma organização criminosa, que conta com vários tentáculos.”

O argumento sobre as conexões da organização criminosa que se instalou em diretorias estratégicas da Petrobrás, entre 2004 e 2014, e também em outras estatais, foi usado pelo procurador-geral da República Rodrigo Janot perante o Supremo Tribunal Federal para tentar evitar a cisão da Lava Jato. O chefe do Ministério Público Federal defendeu a permanência de toda a investigação na Justiça Federal no Paraná, base da missão Lava Jato.

Erika Marena falou à reportagem do Estadão sobre os rumos da Lava Jato. Ela sugere como ‘forma de se minimizar’ possível prejuízo aos desmembramentos da investigação deixar os casos com o mesmo grupo da força-tarefa da PF, independentemente de o tombamento dos inquéritos ser em outros Estados. “Não há impedimento legal algum para isso.”

ESTADÃO: O fatiamento da Lava Jato prejudica as investigações? Por quê?

DELEGADA DE POLÍCIA FEDERAL ERIKA MARENA: Há um prejuízo na medida em que o fatiamento impede que os elementos surgidos nas investigações sejam analisados a luz de todo o conjunto , já que se trata obviamente de uma mesma organização criminosa, que conta com vários tentáculos. Não estamos falando de casos isolados e diferentes de corrupção de agentes públicos, mas de agentes públicos corrompidos em prol de um mesmo sistema de pagamento de propinas para financiar sobretudo o apoio político-partidário, e também os próprios bolsos dos cabeças da organização.

ESTADÃO: O Supremo já decidiu pelo desmembramento do caso envolvendo a senadora Gleisi Hoffmann e já mandou o juiz Moro remeter para a Corte os autos da Eletronuclear. A separação das investigações pode enfraquecer a Lava Jato?

DELEGADA ERIKA MARENA: Entendo que a separação poderia enfraquecer os casos desmembrados, já que não há garantias de que não acabarão entrando na vala comum, sem dedicação exclusiva das autoridades envolvidas, como ocorre hoje. Lembrando ainda que a todo momento , na analise do material apreendido, nas novas quebras de sigilo, mais oitivas de testemunhas, etc, surgem elementos que são úteis a mais de uma das frentes da Lava Jato.A segregação iniciada pelo STF pode acabar impedindo que tais casos continuem sendo instruídos com elementos importantes que são assim identificados por serem analisados por autoridades familiarizadas com uma investigação complexa como a Lava Jato.

ESTADÃO: Uma saída?

DELEGADA ERIKA MARENA: Uma forma de se minimizar esse possível prejuízo aos desmembramentos seria a Polícia Federal deixar os casos com o mesmo grupo, independentemente do tombamento ser em outro Estado. Não há impedimento legal algum para isso. Depende apenas da vontade da Direção-Geral. Estamos aguardando uma definição. Quanto a um enfraquecimento da Lava Jato em si, eu não acredito A Lava Jato ainda tem chão. E iremos continuar desvendando o que aparecer e for possível , ainda que com posterior redistribuição , conforme entenderem as Cortes Superiores.

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