Teotônio montou organização criminosa e infiltrou comparsas no Estado, diz procuradora

Teotônio montou organização criminosa e infiltrou comparsas no Estado, diz procuradora

Ex-governador de Alagoas é investigado na Operação Caribdis, que mira suposta fraude em licitação de R$ 33 milhões para obras do Canal do Sertão, entre 2009 e 2014

Julia Affonso e Luiz Vassallo

30 Novembro 2017 | 19h58

Teotônio Vilela Filho. FOTO ED FERREIRA/AE.

A procuradora Renata Baptista afirma que o ex-governador de Alagoas Teotônio Vilela Filho (PSDB) ‘montou uma organização criminosa’. O tucano foi alvo de mandado de busca e apreensão nesta quinta-feira, 30, na Operação Caribdis, que investiga suposta fraude em licitação de R$ 33 milhões para obras do Canal do Sertão alagoano, entre 2009 e 2014.

PF vasculha gabinete de secretário de Ciência do Ministério da Saúde

Teotônio comandou o governo de Alagoas por dois mandatos (2007-2014), foi senador pelo Estado por três mandatos consecutivos, presidente nacional do PSDB e presidente do Comitê Estadual do partido.

“Teotônio, na qualidade de Governador do Estado de Alagoas, exercia o comando da organização criminosa. Neste sentido, buscou, inicialmente, não só se cercar de familiares para intermediar as práticas delitivas, como também, e principalmente, nomear pessoas de sua inteira confiança para cargos estratégicos—no caso em análise, para a pasta de infraestrutura do Governo do Estado, a fim de possibilitar negociatas envolvendo os recursos públicos por ela administrados”, afirmou a procuradora ao pedir a prisão preventiva de Teotônio. A Justiça negou a custódia.

Renata Baptista anotou ainda. “Depois de infiltrar seus comparsas na administração do Estado, ratificou rotineiramente sua posição de comando, dividindo e dirigindo, por vezes direta, por vezes indiretamente, as atividades dos demais, bem como dando a palavra final sobre o destino dos acertos ilícitos, seja para chancelá-los, seja para rechaçá-los. Na condição de líder da organização criminosa, revelou-se ainda o maior beneficiário das quantias obtidas a título de propina.”

OUÇA A DELAÇÃO DA ODEBRECHT SOBRE O CANAL DO SERTÃO

Além do ex-governador, são investigados o secretário de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde, Marco Antonio Fireman (ex-secretário Estadual de Infraestrutura de Alagoas), Fernando José Carvalho Nunes (ex-secretário Estadual Adjunto de Infraestrutura de Alagoas), Carlos Alberto Quintella Jucá (o Beto Jucá, ex-assessor especial de Teotônio) e Elias Brandão Vilela Neto (irmão do ex-governador).

“Ele (Teotônio Vilela Filho) montou com caráter estável e permanente uma organização criminosa composta pela cúpula da secretaria estadual de infraestrutura, que era braço direito dele, era um secretário que assumiu praticamente com ele, ficou todo o tempo com ele na gestão, que é o Marco Fireman”, afirmou a procuradora.

De acordo com a procuradora, Elias Vilela era ‘o suposto homem forte’ de Teotônio.

“A função do assessor Beto Jucá era blindar a figura do ex-governador nesses momentos de cobrança de propina”, disse.

Renata Baptista declarou que houve direcionamento da licitação de dois lotes do Canal do Sertão alagoano e que as empresas fizeram o projeto básico.

“Elas moldaram tudo desde da obra em si até as quantidades que desejavam de cada serviço e isso gerou um superfaturamento nesses dois trechos da ordem de R$ 70 milhões, fora os demais trechos”, disse.

Fireman seria o ‘Fantasma’ da planilha de propinas da Odebrecht, segundo revelou um dos executivos da empreiteira que fechou acordo de delaão premiada com o Ministério Público Federal. O delator, Alexandre Biselli, citou Téo ‘Bobão’, como o ex-governador era identificado na contabilidade do famoso Setor de Operações Estruturadas da Odebrecht.

Biselli contou que se reuniu com o então secretário de Infraestrutura do governo alagoano, Marco Antonio Fireman, em 2014, para ajustar os detalhes de repasses a Téo ‘Bobão’ que somaram quantia superior a R$ 2 milhões.

O delator disse que Téo ‘Bobão’ ficou ‘uns vinte minutos fora’ da reunião e, nessa hora, ‘Fantasma’ o teria abordado sobre dinheiro para a campanha daquele ano.

Ainda segundo Biselli, ‘Fantasma’ ameaçou tirar contrato da Odebrecht.

OS PAGAMENTOS, SEGUNDO A ODEBRECHT

– em 9.6.2014, foi pago R$ 1.000.000,00, a TEOTÔNIO, identificado na Tabela Drousys como “Bobão”;
14
– em 15.9.2014, foram pagos R$ 906.000,00 a TEOTÔNIO, identificado na Tabela Drousys como “Bobão”;
– em 13.10.2014, foram pagos R$ 238.000,00 a FERNANDO, identificado na Tabela Drousys como “Faisão”;
– em 19.11.2014, foram pagos R$ 150.000,00 a TEOTÔNIO, identificado como “Bobão” em uma planilha encontrada na 26ª fase da Operação Lava-Jato;
– em 20.11.2014, foram pagos R$ 350.000,00 a MARCO FIREMAN, identificado como “Fantasma” em uma planilha encontrada na 26ª fase da Operação Lava-Jato; e
– em 21.11.2014, foram pagos R$170.000,00 a FERNANDO, identificado como “Faisão” em uma planilha encontrada na 26ª fase da Operação Lava-Jato.

COM A PALAVRA, TEOTÔNIO VILELA FILHO

O ex-governador Teotonio Vilela Filho tem consciência de que não praticou nenhum crime e que a verdade será restabelecida.

Em coerência com a sua história de vida pessoal e política, o ex-governador assegura ser o maior interessado na elucidação dessas investigações e que continuará à disposição das autoridades, contribuindo no que for preciso.

Assessoria de Comunicação do ex-governador Teotonio Vilela

COM A PALAVRA, O MINISTÉRIO DA SAÚDE

“Agentes da Polícia Federal cumpriram nesta quinta-feira (30) mandado de busca referente a operação Caribdis, de Alagoas, que apura suspeita de irregularidade em obras dos lotes de números 3 e 4 das obras do Canal do Sertão, ambos licitados pelo governo daquele Estado. Os policiais estiveram no gabinete do secretário de Ciência e Tecnologia do Ministério da Saúde, Marco Fireman, então secretário de Infraestrutura do Estado. Não foram levados documentos ao final da busca e o secretário está à disposição da PF para prestar todos os esclarecimentos.”

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