Planilhas reforçam delação sobre MPs, diz PF

Planilhas reforçam delação sobre MPs, diz PF

Movimentações de Funaro foram cruzadas com informações prestadas pelo corretor

Beatriz Bulla e Fabio Serapião, de Brasília

25 Setembro 2017 | 05h00

Lucio Funaro. FOTO: ANDRE DUSEK/AE

A Polícia Federal cruzou informações prestadas pelo corretor Lúcio Funaro em delação com movimentações financeiras de empresas do setor de saúde e constatou que doações a políticos e pagamentos a Funaro coincidem com o período em que o Congresso discutia medidas provisórias para a área.

O levantamento consta nas investigações do “quadrilhão” do PMDB da Câmara, denunciado pelo ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot. Os investigadores analisaram dados de três HDs apreendidos na casa da irmã do delator, Roberta Funaro, e cruzaram com informações do corretor e de outro colaborador, Nelson Mello, ex-diretor do grupo Hypermarcas.

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Em um dos casos analisados pela PF, os investigadores encontraram indícios de que o peemedebista Manoel Júnior, vice-prefeito de João Pessoa, atuou em favor das redes Amil e D’Or na MP 656 de 2014. A medida tratava da abertura de capital estrangeiro para hospitais e planos de saúde. Júnior propôs três emendas que previam permissão de capital estrangeiro. O texto original, segundo a PF, não abordava o tema.

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Nas planilhas de Funaro, Júnior aparece com o codinome “bob-paraíba”. Em 2 de outubro de 2014, conforme a PF, há pagamento de R$ 150 mil em benefício dele – R$ 50 mil foram pagos no escritório de Funaro e o restante por meio de transferências para “bob-paraíba”.

“Pela coincidência de datas, tais pagamentos se deram no mesmo período da proposta da emenda. A abertura para capital estrangeiro trouxe margem de lucro bilionária a Rede D’Or”, disse a PF. O relatório também aponta doações da Amil a campanhas de candidatos do PMDB em 2014, no valor de R$ 12 milhões, entre eles o deputado cassado Eduardo Cunha (RJ).

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Emendas. O documento mostra ainda a movimentação de parlamentares em favor da Hypermarcas, como a emenda que incluiu a permissão de comercialização de remédios que não precisam de prescrição médica em supermercados. A emenda foi incluída pelo ex-deputado Sandro Mabel (PMDB-GO) em MP que tinha objetivo de isentar a cobrança de PIS e Cofins de produtos a pessoas com deficiência. Cunha também teria atuado em favor da empresa.

No entanto, a então presidente Dilma Rousseff vetou parcialmente a MP sob alegação de que a mudança poderia “estimular a automedicação”. Funaro disse que houve o veto porque Mello não conseguiu acerto com a Anvisa.

COM A PALAVRA, REDE D’OR

Em nota, a Rede D’Or afirmou que não foi beneficiada com a MP. A aprovação, segundo a empresa, “possibilitou a entrada no mercado de fundos estrangeiros, impactando negativamente a estratégia” da companhia.

“A Rede D’Or São Luiz não foi beneficiada com a aprovação da referida lei. Todos os aportes feitos na empresa poderiam ter sido viabilizados por outros mecanismos, como a emissão de debêntures, mesmo na legislação anterior. A aprovação da lei possibilitou a entrada no mercado de fundos estrangeiros concorrentes na aquisição de hospitais, impactando negativamente a estratégia da empresa. A empresa reforça ainda que nunca fez nenhuma doação aos políticos citados na referida delação e nega veementemente qualquer envolvimento no caso.”

COM A PALAVRA, AMIL

A Amil disse que “cumpriu as regras que orientam as doações para campanhas”.

COM A PALAVRA, A HYPERMARCAS

Por meio de nota, a Hypermarcas disse que já se “manifestou publicamente em diversas ocasiões para prestar esclarecimentos relacionados à atuação de seu ex-diretor de Relações Institucionais Nelson Mello”.

COM A PALAVRA, EDUARDO CUNHA

O advogado Délio Lins e Silva Júnior disse que a atuação parlamentar de Eduardo Cunha “sempre se deu dentro dos limites legais”.

Sandro Mabel não foi localizado. Manoel Júnior não respondeu aos contatos do Estado.