Operador de Bendine convoca Joesley e Saud como testemunhas

Operador de Bendine convoca Joesley e Saud como testemunhas

André Gustavo Vieira da Silva foi preso em julho na Operação Cobra, fase 42 da Lava Jato, apontado como operador da propina de R$ 3 milhões supostamente paga pela empreiteira Odebrecht ao ex-presidente da Petrobrás

Julia Affonso

20 Setembro 2017 | 15h59

Joesley Batista e Ricardo Saud. FOTOS: DIDA SAMPAIO/ESTADÃO

O publicitário André Gustavo Vieira da Silva, apontado pela força-tarefa da Operação Lava Jato como operador financeiro do ex-presidente do Banco do Brasil e da Petrobrás Aldemir Bendine, arrolou como testemunhas de defesa os executivos delatores Joesley Batista, da JBS, e Ricardo Saud, do Grupo J&F. Ao todo são oito testemunhas convocadas por André.

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Joesley e Saud, delatores que mergulharam o presidente Michel Temer na grande crise, estão presos desde domingo, 10, por ordem do ministro Edson Fachin, do Supremo, sob acusação de violação do acordo de colaboração que firmaram com a Procuradoria-Geral da República.

Contra Joesley pesa, ainda, um segundo mandado de prisão preventiva, expedido pelo juiz João Batista Gonçalves, da 6.ª Vara Federal de São Paulo, por suposta manipulação do mercado de ações através do uso de informações privilegiadas de suas próprias delações. Saud está preso na Papuda, em Brasília.

Joesley na carceragem da Polícia Federal em São Paulo, acompanhado do irmão Wesley Batista – este igualmente acusado pelo uso de informações privilegiadas para auferir lucros milionários ao grupo J&F.

Além de André Gustavo e de Bendine, são acusados os operadores financeiros Antônio Carlos Vieira da Silva Júnior – irmão de André Gustavo – e Álvaro José Galliez Novis e os executivos Marcelo Odebrecht e Fernando Reis, da Odebrecht.

A força-tarefa da Lava Jato acusa o grupo pelos crimes de corrupção passiva, corrupção altiva, lavagem de dinheiro, pertinência a organização criminosa e embaraço à investigação de infrações penais.

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André Gustavo Vieira da Silva, seu irmão Antônio Carlos e Bendine foram presos em julho na Operação Cobra, fase 42 da Lava Jato.

Em depoimento à Polícia Federal, em 31 de julho, André Gustavo Vieira citou Joesley Batista. O publicitário afirmou que foi apresentado ao doleiro Lúcio Funaro pelo executivo da JBS. Quebra de sigilo telefônico do celular de André revela pelo menos 59 ligações para Funaro.

“Após a prisão de Funaro as esposas se falam como amigas, que nunca fez negócios com Funaro; que certa vez foi tirado do limite do cheque especial de Funaro e o depoente conversou com Bendine sobre o assunto, tendo Aldemir dito para não mexer com Lúcio Funaro por se tratar com pessoa complicada e o banco iria resolver isso pelos meios tradicionais; que perguntado se já teve algum tipo de relacionamento financeiro com Aldemir Bendine e familiares disse que nunca teve, nunca passou dinheiro, salvo dois episódios pontuais que envolvem recursos”, afirmou André Gustavo no depoimento.

Acusação. Segundo a denúncia do Ministério Público Federal, Bendine inicialmente fez um pedido de propina de R$ 17 milhões, quando era presidente do Banco do Brasil, ‘para viabilizar a rolagem de dívida de um financiamento da Odebrecht Agroindustrial’.

A acusação aponta que Marcelo Odebrecht e Fernando Reis, delatores da Lava Jato, negaram o pedido porque entenderam que Bendine não teria capacidade de influenciar no contrato de financiamento do BB.

A força-tarefa afirma que ‘na véspera’ de assumir a presidência da Petrobrás, em 6 de fevereiro de 2015, Bendine e um de seus operadores financeiros novamente solicitaram propina a Odebrecht e a Fernando Reis.

A denúncia afirma que desta vez o pedido foi feito para que o grupo empresarial não fosse prejudicado em seus interesses na estatal petrolífera, bem como para que pudesse ser beneficiado de alguma maneira, inclusive no que se refere às consequências da Lava Jato.

A empreiteira, de acordo com a investigação, optou por pagar a propina de R$ 3 milhões. O valor, afirma a força-tarefa, foi repassado em três entregas em espécie, no valor de R$ 1 milhão cada, em São Paulo, em apartamento alugado a Antônio Carlos Vieira da Silva.

Esses pagamentos foram realizados em 2015, nas datas de 17 de junho, 24 de junho e 1.º de julho, pelo Setor de Operações Estruturadas da Odebrecht, com a atuação do doleiro Álvaro José Galliez Novis.

O Ministério Público Federal aponta que parte dos valores da propina ainda foi repassada a Bendine, ‘também de forma oculta e dissimulada’, com o pagamento, pelo operador André Gustavo Vieira da Silva, de viagem internacional que o ex-presidente da Petrobrás realizou no final de 2015 e início de 2016.

Outra parte foi entregue durante os diversos encontros pessoais que os acusados tiveram em 2015, sustenta a Procuradoria.

Em contrapartida ao pagamento de propina pela Odebrecht, Bendine – já exercendo a função de presidente da Petrobrás -, segundo a força-tarefa, chegou a solicitar ao departamento jurídico da companhia parecer sobre a possibilidade de levantamento do bloqueio cautelar imposto pela estatal contra a Odebrecht Óleo e Gás, assim como sobre a contratação direta ou a formação de Sociedade de Propósito Específico com o Estaleiro Enseada Paraguaçu, do qual a empreiteira é sócia.

Diante da resposta negativa e dos avanços das investigações na operação Lava Jato, Bendine não deu continuidade a essas tratativas.

A denúncia ainda descreve que, buscando dar aparência lícita para os recursos, André Gustavo, Antônio Carlos e Bendine, ‘após tomarem ciência da existência de investigações contra si, resolveram dissimular os pagamentos de propina como se tivessem origem em serviços de consultoria prestados à Odebrecht’.

Para tanto, em março e em abril de 2017, ou seja, dois anos após os fatos, efetuaram o recolhimento de tributos relacionados à falsa consultoria.

Os documentos falsos, segundo a acusação, foram inclusive apresentados nos autos da PET 6646 (autos nº 5022683-50.2017.4.04.7000), com o intuito de embaraçar as investigações.